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domingo, 4 de outubro de 2026

XXVII Domingo do Tempo Comum

 A vida como dom, a liberdade como responsabilidade

Neste XXVII Domingo do Tempo Comum, a imagem da vinha atravessa as leituras e coloca-nos diante de uma pergunta: que fazemos da vida que recebemos?

Em Isaías, Deus cuida da sua vinha com dedicação: prepara a terra, escolhe as plantas, protege-as e espera frutos. Tudo começa na bondade de quem dá. Mas, onde esperava justiça, encontra violência; onde desejava retidão, escuta o sofrimento dos oprimidos. O amor recebido pede uma resposta que se torne visível na maneira como vivemos e tratamos os outros.

O Evangelho acrescenta a confiança. O proprietário entrega a vinha aos vinhateiros, dando-lhes espaço para trabalhar e liberdade para agir. Eles, porém, transformam essa confiança em pretensão de posse, chegando a matar o filho para se apropriarem da herança.

Como acentuou o padre João Maia na homilia de hoje, segundo o testemunho que aqui recolhemos, esta conduta interpela a nossa própria vida. Também nós nos consideramos, muitas vezes, senhores de nós mesmos e dos outros, esquecendo que não nos criámos. A existência precede qualquer conquista nossa: somos seres criados pela bondade de Deus. Reconhecer esta origem convida-nos à gratidão e dá à liberdade uma responsabilidade: cuidar do que nos foi confiado.

São Paulo ajuda-nos a percorrer esse caminho. Convida-nos a apresentar a Deus as inquietações e a orientar o pensamento para a verdade, a justiça e a bondade. Aquilo que cultivamos interiormente prepara os frutos dos nossos atos. A paz amadurece também nesta atenção ao coração.

No Angelus de hoje, Leão XIV recordou que a rejeição do Filho não interrompe a misericórdia do Pai. Cristo, a pedra rejeitada, torna-se o alicerce de uma vida nova. Por isso, mesmo perante as nossas quedas, permanece esta certeza: «Deus nunca descarta a nossa vida!» A confiança divina abre-nos a possibilidade de reconhecer o erro, reparar o mal e recomeçar.

Neste dia de São Francisco de Assis, o Papa apresentou-o como um trabalhador fecundo na vinha do Senhor. Francisco respondeu ao chamamento de reparar a Igreja começando pela própria vida, fundada em Cristo, e pelo amor fraterno capaz de sanar a discórdia.

O seu exemplo convida-nos a receber o mundo com gratidão e a habitar nele com respeito. A vida, as pessoas e a criação pedem mãos que cuidem. A fraternidade começa quando reconhecemos que o outro tem uma dignidade que não depende da nossa vontade nem dos nossos interesses.

Na Eucaristia, recebemos o Filho que se entrega por nós. O dom de Deus torna-se alimento para aprendermos a dar: tempo, atenção, perdão, presença. É nestes gestos que a vinha da nossa vida pode produzir fruto.

Senhor, ensina-nos a reconhecer a vida como dom. Que a confiança que depositas em nós se transforme em cuidado, justiça e fraternidade. E que, com São Francisco, aprendamos a agradecer, a servir e a construir a paz.

Ámen.

Francisco Vaz

4 de outubro de 2026

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