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domingo, 1 de novembro de 2026

A santidade é a vocação de todos

Reflexão para o XXXI Domingo do Tempo Comum — Solenidade de Todos os Santos, 1 de novembro de 2026

Não nascemos santos. Nascemos chamados à santidade. E talvez a maior descoberta do cristianismo seja precisamente esta: ninguém está definitivamente condenado a ser apenas aquilo que foi.

A solenidade de Todos os Santos, que este ano coincide com o XXXI Domingo do Tempo Comum, convida-nos a reconsiderar uma das ideias mais profundas e, paradoxalmente, mais esquecidas do cristianismo: a santidade não é privilégio de alguns, nem recompensa reservada aos moralmente irrepreensíveis. É uma vocação universal, inscrita na própria condição humana.

Habituámo-nos a imaginar os santos como figuras extraordinárias, quase sobre-humanas, representadas nos altares, envoltas em auréolas e distantes das contradições da existência quotidiana. Esquecemo-nos de que, antes de serem santos, foram homens e mulheres. Conheceram o medo, a dúvida, a paixão, o sofrimento, a fragilidade e, não raras vezes, o pecado. A santidade não os dispensou da condição humana. Pelo contrário, realizou-se precisamente nela.

Talvez por isso Santo Agostinho seja uma das figuras mais extraordinárias da história do cristianismo. Nele encontramos, de forma particularmente intensa, o santo e o pecador, não como duas identidades inconciliáveis, mas como expressões da mesma existência em transformação.

Agostinho não nasceu santo. Procurou a felicidade onde julgava encontrá-la, experimentou os prazeres, as ambições intelectuais, as seduções do poder e as inquietações da consciência. Conheceu o erro e a verdade, o desejo e a renúncia. E foi precisamente essa experiência da sua própria fragilidade que o conduziu à descoberta de Deus.

Nas Confissões, escreve: «Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti» (I, 1, 1).

A inquietação humana não é, portanto, um defeito da criação. É a expressão de uma abertura constitutiva ao infinito. O ser humano não se esgota naquilo que possui, naquilo que conhece ou sequer naquilo que é. Existe também na possibilidade daquilo que pode vir a ser.

A santidade começa precisamente nessa possibilidade.

A escritora norueguesa Sigrid Undset, prémio Nobel da Literatura, compreendeu-o de maneira admirável. Na sua obra, particularmente em Kristin Lavransdatter, a existência humana apresenta-se atravessada pelo amor, pela culpa, pela responsabilidade, pelo sofrimento e pela possibilidade da redenção. As personagens não são abstrações morais. São seres humanos concretos, envolvidos nas circunstâncias da sua vida, frequentemente incapazes de corresponder ao bem que reconhecem.

Undset, que se converteu ao catolicismo em 1924, compreendeu que a santidade não consiste em escapar ao mundo, mas em viver nele sem renunciar à verdade. A sua aproximação à figura de Santa Catarina de Sena mostra-nos que a vida espiritual não é incompatível com a ação, a inteligência, a coragem e o compromisso com os outros.

A santidade não exige a ausência de contradições. Exige a disponibilidade para não fazer delas a última palavra da nossa existência.

Esta intuição encontra a sua expressão teológica no Concílio Vaticano II. A constituição Lumen Gentium, particularmente nos números 39 a 42, recupera com vigor a vocação universal à santidade. Todos são chamados, independentemente do seu estado de vida, da sua condição social ou das circunstâncias concretas da sua existência.

Não há uma santidade para os religiosos e outra, de segunda categoria, para os restantes cristãos. Há diferentes modos de responder ao mesmo chamamento.

Mas podemos levar esta reflexão ainda mais longe.

Se a santidade exprime a realização mais profunda da vocação humana para o bem, para a verdade e para o amor, não poderemos reconhecer sinais dessa mesma vocação também naqueles que não professam qualquer religião, que pertencem a outras tradições espirituais ou que simplesmente procuram viver com retidão de consciência?

A fé cristã reconhece em Cristo a plenitude da santidade, mas não nos autoriza a estabelecer fronteiras humanas à ação da graça. A Lumen Gentium (16) e a Gaudium et Spes (22) abrem precisamente esta compreensão: o mistério da salvação não pode ser reduzido aos limites visíveis da pertença religiosa.

A santidade não é uma propriedade que alguém possa reivindicar. Muito menos um título de superioridade sobre os outros.

É uma relação. Uma resposta. Uma maneira de existir.

É neste horizonte que o Evangelho de hoje, as Bem-aventuranças (Mt 5, 1-12), adquire toda a sua força revolucionária. Jesus não proclama felizes os poderosos, os triunfadores, os moralmente superiores ou os que se julgam donos da verdade. Proclama felizes os misericordiosos, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os puros de coração e os construtores da paz.

As Bem-aventuranças não são um catálogo de virtudes destinado a uma elite espiritual. São uma proposta de humanidade. Uma maneira de compreender a existência a partir da relação com o outro.

E aqui encontramos uma dimensão decisiva: ninguém se torna santo sozinho.

Não existe santidade no isolamento egoísta, na indiferença perante o sofrimento ou na convicção da própria superioridade moral. A santidade realiza-se na relação: com Deus, com os outros, com a criação e com a própria consciência.

O amor não é apenas uma virtude entre outras. É aquilo que dá sentido a todas as virtudes. Sem amor, a justiça pode transformar-se em vingança, a verdade em arrogância, a disciplina em opressão e até a religião em instrumento de exclusão.

Santo Agostinho compreendeu profundamente esta centralidade do amor. No seu comentário à Primeira Epístola de São João, encontramos a célebre expressão: Dilige et quod vis fac — «Ama e faz o que quiseres» (VII, 8).

Não se trata de uma autorização para o relativismo moral, mas de uma exigência radical: quando o amor verdadeiro orienta a vontade, a liberdade deixa de ser simples capacidade de escolha e transforma-se em responsabilidade pelo bem.

A santidade é, neste sentido, a liberdade que aprendeu a amar.

E talvez seja aqui que a reflexão se torna particularmente importante para o nosso tempo. Vivemos numa sociedade que frequentemente confunde sucesso com realização, notoriedade com grandeza e afirmação individual com liberdade. Também no campo religioso subsiste a tentação de medir a santidade pela observância exterior, pela pertença institucional ou pela conformidade com determinados padrões sociais.

Mas Deus não cabe nas nossas classificações.

O santo pode ser o homem que, depois de uma vida de erros, descobre finalmente a capacidade de pedir perdão. Pode ser a mulher que, no silêncio da sua casa, cuida de alguém que já não consegue cuidar de si. Pode ser o médico, o professor, o soldado, o trabalhador, o investigador ou o desconhecido que, sem esperar reconhecimento, procura fazer bem aquilo que lhe compete.

Pode ser também aquele que não acredita em Deus, mas que, seguindo honestamente a sua consciência, se entrega à verdade, à justiça e ao serviço dos outros. Não porque a fé e a ausência dela sejam teologicamente equivalentes, mas porque a dignidade humana e a possibilidade da graça não podem ser reduzidas às nossas categorias.

O Apocalipse apresenta-nos hoje uma multidão impossível de contar, proveniente de todas as nações, povos e línguas (Ap 7, 9). A imagem é extraordinária: a santidade não uniformiza a humanidade; acolhe a sua diversidade.

E é precisamente esta diversidade que torna a comunhão possível.

A santidade não consiste em deixar de ser quem somos, mas em descobrir quem verdadeiramente somos chamados a ser.

Na sua homilia de Todos os Santos de 2025, Leão XIV recordava que as Bem-aventuranças oferecem uma nova interpretação da realidade e que, nos santos, podemos reconhecer a presença do Reino de Deus entre nós.

É também por isso que a paz desarmada e desarmante, tão insistentemente proposta pelo Papa, não pode ser apenas um programa político ou diplomático. Exige uma transformação interior. Não haverá paz verdadeira enquanto continuarmos a considerar o outro um adversário a vencer, uma ameaça a neutralizar ou uma diferença a eliminar.

A santidade começa quando deixamos de perguntar o que podemos exigir dos outros e começamos a perguntar o que lhes podemos oferecer.

Agostinho, com todas as suas contradições, recorda-nos que ninguém está perdido enquanto conservar a possibilidade de mudar. Undset mostra-nos que a graça pode atravessar as histórias humanas mais complexas. E Cristo, nas Bem-aventuranças, revela-nos que a grandeza de uma vida não se mede pelo poder que acumulou, mas pelo amor que foi capaz de realizar.

Talvez seja este o sentido mais profundo da solenidade de hoje.

Celebramos os santos que conhecemos, mas também os incontáveis santos anónimos que passaram pela história sem deixar monumentos, livros ou retratos. Homens e mulheres cuja grandeza se escondeu na fidelidade, na misericórdia, no perdão e na capacidade de tornar a vida dos outros um pouco mais humana.

A santidade não é o contrário da humanidade. É a humanidade levada à plenitude pelo amor.

E se todos somos chamados à santidade, então ninguém pode ser excluído antecipadamente desse horizonte: nem pelo seu passado, nem pela sua condição social, nem pelas suas fragilidades, nem sequer pelas suas dúvidas.

Porque, no fim, talvez Deus não nos pergunte quantas vezes proclamámos o seu nome, mas quantas vezes fomos capazes de reconhecer a sua presença no rosto daqueles que encontrámos.

E talvez a maior surpresa da eternidade seja descobrirmos santos entre aqueles que, durante a vida, nunca pensámos encontrar no Céu.

Francisco Vaz

1 de novembro de 2026