«Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.»
Conhecemos tão bem estas palavras que talvez já não escutemos a pergunta que deixam em aberto: o que pertence verdadeiramente a cada um?
Jesus pede que Lhe mostrem a moeda do tributo. Nela estão gravadas a imagem e a inscrição de César. A moeda circula sob a sua autoridade, serve o comércio e paga as obrigações do império. Entregá-la é reconhecer uma responsabilidade na vida comum.
Também nós temos deveres para com a comunidade. A fé compromete-nos com a justiça, com o cuidado das instituições e com as necessidades dos outros. Dar a César o que lhe é devido faz parte dessa responsabilidade.
Mas Jesus acrescenta: «E a Deus o que é de Deus.» A resposta obriga-nos a levantar os olhos da moeda para a pessoa que a segura. Se o dinheiro traz a imagem do imperador, o ser humano foi criado à imagem de Deus. A sua dignidade precede qualquer lei, cargo ou reconhecimento público.
Por isso, a autoridade encontra um limite na pessoa sobre a qual se exerce. Pode exigir uma contribuição; deve respeitar a consciência. Pode organizar a vida coletiva; responde pela justiça com que trata cada um, sobretudo os mais frágeis.
Esta exigência alcança também quem governa. Por detrás do título permanece um ser humano: recebeu a vida, conhece a fragilidade e terá de responder pelas suas escolhas. O poder não lhe apaga a condição de criatura.
A moeda tem a imagem de César. Mas César, como aqueles que lhe pagam o tributo, traz a imagem de Deus.
Até César é de Deus.
Francisco Vaz
18 de outubro de 2026
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