CORO

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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Juventino Afonso

In Memoriam

Há uma estranha condição do amor: quando aqueles que amamos partem, a sua ausência transforma-se numa nova forma de presença. Já não os vemos nem ouvimos a sua voz, mas continuam a habitar a nossa memória, as nossas palavras e os gestos que deles aprendemos.

O Juventino Afonso deixa-nos precisamente essa presença da ausência. A sua vida foi discreta, mas fecunda; humilde, mas profundamente transformadora. Só quando alguém parte compreendemos plenamente quanto da nossa própria vida era iluminada pela sua presença.

É por isso que hoje não recordamos apenas a sua morte. Celebramos, sobretudo, a vida que viveu, o bem que semeou e o exemplo que deixa a todos quantos tiveram o privilégio da sua amizade.

Conheci-o em 2003, quando manifestei o desejo de integrar o Coro Paroquial de Cristo Rei da Portela. Recordo perfeitamente esse primeiro encontro. Com o seu ar simultaneamente austero e afável, ouviu-me e disse simplesmente: "Muito bem. Vamos falar com o maestro Rui Fernandes." Foi assim, de forma tão simples quanto decisiva, que entrei para o naipe dos tenores.

Sem o saber, estava também a entrar numa das mais felizes etapas da minha vida.

O Juventino, não só esteve na génese, como foi um dos grandes impulsionadores do Coro Paroquial de Cristo Rei da Portela. Homem de organização, de dedicação e de entusiasmo contagiante, viveu este projeto como uma verdadeira missão. Muito do que o coro alcançou ficou a dever-se à sua capacidade de mobilizar pessoas, de unir vontades e de colocar sempre o bem comum acima de qualquer interesse pessoal.

Nunca esquecerei duas viagens que marcaram profundamente a história do coro. A primeira, em 2005, a Pésaro, para participarmos num encontro internacional de coros litúrgicos, a convite do Coro de Cristo Rei daquela cidade italiana. A segunda, em 2007, levou-nos à Sicília, num encontro organizado pelo Monsenhor Giuseppe Liberto, então Maestro da Capela Musical Pontifícia. Pelo caminho passámos por Roma, onde tivemos a graça de participar na celebração que assinalava os sessenta anos da canonização de São João de Brito e que teve lugar na Basílica de São Pedro.

Em ambas as viagens, o Juventino foi muito mais do que um organizador. Foi o verdadeiro catalisador de todo o projeto, o seu principal dinamizador, aquele que nunca deixava por dizer uma palavra de incentivo, de arranjar uma solução para cada dificuldade ou de esboçar um sorriso capaz de transformar o cansaço em alegria.

Mas aquilo que mais o distinguia não era a capacidade de organizar. Era a forma como olhava para as pessoas.

O Juventino tinha sempre uma palavra de apreço, de consideração e de amizade para todos os que com ele conviviam. Nunca procurava protagonismo. Preferia servir. E fazia-o naturalmente, porque servir fazia parte da sua maneira de estar na vida.

Cristão de ação, viveu a fé não apenas nas palavras, mas sobretudo nas obras. Juntamente com a Helena, que Deus chamou mais cedo, esteve sempre atento às necessidades dos outros. Ambos fizeram da caridade um modo de vida. Quem os conheceu sabe que encontrava sempre neles disponibilidade para ajudar, escutar, incentivar e acolher.

Depois de uma vida de trabalho no setor bancário e de ter servido Portugal como oficial miliciano, incluindo uma comissão de serviço nas então províncias ultramarinas, continuou sempre disponível para servir a comunidade. A sua vida testemunhou que a verdadeira grandeza humana se mede pela capacidade de dar e de se dar aos outros.

Hoje sinto uma profunda tristeza pela sua partida.

Mas essa tristeza é iluminada pela esperança cristã.

Tenho a íntima convicção de que o Juventino reencontrou a Helena e que ambos contemplam agora a Luz de Deus, participando plenamente daquele Amor que nunca acaba.

Neste momento vêm-me naturalmente ao espírito as palavras de Cristo no Evangelho de São Mateus:

«Muito bem, servo bom e fiel. Foste fiel no pouco, confiar-te-ei o muito. Vem tomar parte na alegria do teu Senhor.» (Mt 25, 21).

Este versículo parece descrever a sua vida. O Juventino foi um homem fiel nas pequenas e nas grandes coisas, um servidor discreto que fez do amor ao próximo um modo de viver.

Assumo a dor de perder a sua presença amiga, a sua palavra serena e o seu sorriso discreto. Mas essa dor é acompanhada por uma profunda gratidão, porque tive o privilégio da sua amizade sincera.

Estou certo de que Deus já o acolheu na recompensa prometida aos que O servem com amor.

São Paulo recorda-nos que «agora permanecem a fé, a esperança e o amor; porém, o maior deles é o amor» (1 Cor 13, 13). A fé transformou-se em visão. A esperança encontrou finalmente o seu cumprimento. Apenas o amor permanece para sempre, porque o amor pertence à própria eternidade de Deus.

É esse amor que hoje reconhecemos na vida do Juventino. Deus já o acolheu na plenitude da Sua misericórdia e da Sua paz.

Há pessoas que passam pelo mundo deixando apenas recordações. Outras deixam exemplos.

O Juventino pertence, sem dúvida, a estas últimas.

Até um dia, meu amigo.

Que descanses na paz de Deus, na companhia da Helena, até ao dia em que nos reencontremos na plenitude da Vida.

Francisco Vaz

7 de agosto de 2026