CORO

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domingo, 15 de março de 2026

IV Domingo da Quaresma (15 de março de 2026)

Reflexão a partir da homilia do Cónego Gianfranco Bianco

A liturgia deste IV Domingo da Quaresma convida-nos a refletir sobre a forma como Deus olha para o homem e sobre a maneira como o homem aprende a ver Deus. A homilia começou com uma pergunta aparentemente simples: qual é o país onde Jesus nasceu? A resposta remete-nos para Israel, cuja bandeira branca ostenta uma estrela azul conhecida como Estrela de David. Esta estrela recorda a figura do rei David, um dos grandes protagonistas da história bíblica.

A escolha de David como rei de Israel revela um traço fundamental da lógica de Deus. A pedido divino, o profeta Samuel foi à casa de Jessé para escolher aquele que deveria governar o povo. Humanamente, os irmãos mais velhos de David pareciam possuir melhores qualidades: eram mais fortes, mais imponentes, mais adequados aos critérios humanos de poder. No entanto, Deus escolheu o mais improvável. David estava no campo a guardar o rebanho.

Este episódio ensina-nos que Deus não escolhe segundo os critérios humanos de prestígio ou força. Muitas vezes manifesta a sua vontade precisamente através da fraqueza e da humildade. Aquilo que parece pequeno aos olhos do mundo pode tornar-se grande quando é chamado por Deus. A escolha divina não é um privilégio, mas uma missão. Por isso, o essencial não é procurar grandeza, mas pedir a Deus a graça de aceitar a missão que Ele nos confia.

Fazer a vontade de Deus significa, no fundo, escolher o caminho da verdadeira felicidade. Foi isso que aconteceu com David: Deus escolheu o mais fraco e depois fortaleceu-o.

A homilia conduziu então ao Evangelho deste domingo, que narra a cura do cego de nascença. Jesus Cristo aproxima-se daquele homem, cospe no chão, mistura a saliva com a terra e faz barro. Depois coloca-o nos olhos do cego e manda-o lavar-se na piscina de Siloé. O homem obedece e regressa vendo.

Este gesto possui um significado profundo. O cego de nascença representa a condição humana. De certo modo, todos nós nascemos cegos: não conhecemos plenamente Deus nem compreendemos inteiramente o sentido da vida.

Existem duas formas de ver. Podemos ver apenas com os olhos do corpo ou aprender a ver com os olhos do coração. A verdadeira visão começa quando nos deixamos tocar pela palavra de Cristo. A saliva de Jesus, no gesto simbólico do Evangelho, representa precisamente essa palavra viva que purifica o coração humano.

Contudo, a visão torna-se plena quando mergulhamos nas águas do batismo. Nessas águas morre o homem velho e nasce o homem novo. A tradição cristã recorda que Jesus foi batizado no Rio Jordão, um dos lugares mais baixos da terra. Este detalhe possui um forte simbolismo: Cristo desceu até ao ponto mais baixo para poder resgatar o homem e elevá-lo novamente.

Nesta linha, o Papa Francisco afirmou que ninguém deveria morrer sem ter sido verdadeiramente tocado por Cristo. A vida cristã consiste precisamente em permanecer permeável à sua palavra, permitindo que ela transforme progressivamente o coração humano.

Mas o Evangelho recorda também que seguir Cristo tem um preço. A experiência do homem curado é tão radical que ele corre o risco de ser expulso da sinagoga. Algo semelhante acontece ainda hoje: quando alguém assume com clareza a sua fé cristã, pode encontrar incompreensão ou rejeição.

Contudo, o Evangelho revela algo decisivo: Jesus não abandona aquele que o encontrou. Quando o homem é rejeitado pelos outros, Jesus volta a procurá-lo. A relação com Cristo é uma relação de fidelidade. Quando aderimos a Ele, é como se o nosso próprio ego assinasse um cheque em branco: confiamos a nossa vida àquele que nos chamou.

A fé é, portanto, um caminho de confiança. Pedimos a Jesus que nos dê olhos novos para podermos dizer com verdade: “Eu creio”. Mesmo que hoje a nossa visão ainda seja imperfeita, sabemos que um dia poderemos contemplar plenamente aquilo em que acreditamos.

Como ensinava Ireneu de Lyon, a verdadeira visão do homem consiste precisamente em acreditar em Cristo. A fé abre uma nova forma de ver o mundo.

A sabedoria humana também pressentiu esta verdade. Um antigo provérbio chinês afirma que o sábio não é aquele que apenas contempla a montanha, mas aquele que procura ver o que existe para lá dela.

Também a fé cristã nos convida a olhar para além do imediato, para além do visível, para além das limitações do presente. A Quaresma é precisamente este tempo de aprendizagem do olhar: aprender a ver com os olhos do coração, para que um dia possamos contemplar plenamente a luz que já começou a iluminar a nossa vida.


Francisco Vaz

15 de março de 2026

domingo, 8 de março de 2026

III Domingo da quaresma - 8 de Março 2026

Reflexão a partir da homilia do Diácono João Maia

O Evangelho segundo São João apresenta-nos hoje uma das páginas mais profundas de todo o Novo Testamento: o encontro de Jesus com a Samaritana junto ao poço.

O cenário não é indiferente. Jesus Cristo encontra-se em território inimigo, na terra dos Samaritanos. Judeus e Samaritanos evitavam-se mutuamente, desconfiavam uns dos outros, mantinham uma distância antiga e profunda. E, no entanto, é precisamente aí que Jesus decide passar. Jesus não escolhe apenas os lugares seguros; atravessa também os territórios onde há divisão, feridas e desconfiança.

Jesus aproxima-se de um poço. E ali chega uma mulher Samaritana. Vem buscar água à hora em que normalmente não está ninguém. Não vem de manhã cedo, quando todas as outras mulheres da aldeia se encontram. Vem sozinha. A tradição diz-nos porquê: sabe-se pecadora. Teve cinco maridos e vive agora com um homem que não é o seu. Carrega consigo o peso da sua história e talvez também o olhar julgador da comunidade.

E é com esta mulher que começa um diálogo extraordinário.

Ao longo da conversa vemos um caminho interior a acontecer. No início, a mulher olha para Jesus e diz simplesmente: “Tu és Judeu.” Vê nele apenas um homem de um povo estrangeiro. Depois, à medida que o diálogo avança, diz: “Vejo que és um profeta.” Já percebe que há nele algo mais profundo. E, finalmente, reconhece: “Será este o Messias?”

Há aqui um percurso espiritual. Um caminho de descoberta. Um encontro que passa da estranheza inicial à intimidade mais profunda com Cristo.

Quem é este homem que fala com ela? Quem é este homem que conhece a sua vida inteira e, mesmo assim, não a rejeita? Quem é este homem que pede água, mas afinal é fonte de água viva?

A primeira leitura recorda-nos também outro momento da história do povo de Israel. O povo já tinha sido salvo do faraó, já tinha sido libertado da escravidão do Egito. E, no entanto, no deserto começa a murmurar, começa a duvidar: “Está Deus no meio de nós ou não?”

Mesmo depois de tantos sinais, o povo duvida.

E se formos sinceros, também nós conhecemos bem esta experiência. Quantas vezes já vimos a presença de Deus na nossa vida e, ainda assim, voltamos a duvidar? Quantas vezes murmuramos, como o povo no deserto?

Não devemos escandalizar-nos com isso. Moisés também duvidou. Os profetas também duvidaram. Os discípulos vão duvidar. A dúvida faz parte do caminho humano.

O verdadeiro problema não é a dúvida. O verdadeiro problema é esquecermo-nos do nosso coração. Porque é no coração que cada um encontra Deus. É no interior da nossa vida que nasce a verdadeira adoração.

Jesus diz à Samaritana que chegará o tempo em que os verdadeiros adoradores não adorarão apenas neste monte ou em Jerusalém, mas “adorarão o Pai em espírito e verdade.”

A primeira decisão daquela mulher foi reconhecer essa verdade no seu coração. Reconhecer quem estava diante dela.

E, depois disso, acontece algo muito belo: ela corre para a aldeia.

Não consegue guardar para si aquela descoberta. Diz aos outros: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz.”

Quem encontra verdadeiramente Cristo não consegue ficar calado. Uma notícia destas não se guarda para si próprio.

Este é o grande convite deste terceiro domingo da Quaresma. Apesar das nossas dúvidas, apesar das nossas fraquezas, apesar das nossas histórias complicadas, a fonte de água viva não esmorece. Cristo continua a aproximar-se de nós, como se aproximou daquela mulher junto ao poço.

E continua a convidar-nos a beber dessa água que não se esgota.

Se a acolhermos no nosso coração, então acontecerá connosco o mesmo que aconteceu com a Samaritana: sentiremos vontade de correr e de anunciar aos outros que encontrámos alguém que dá sentido à nossa vida.

Que nesta Quaresma possamos também nós reconhecer essa presença no nosso coração e tornar-nos testemunhas dessa água viva no meio do mundo.

Francisco Vaz

8 de março de 2026

quinta-feira, 5 de março de 2026

Pater Noster

Mais do que uma oração

A oração do Pai Nosso, ensinada por Jesus Cristo aos seus discípulos, não é apenas uma fórmula devocional, mas uma síntese pedagógica de extraordinária densidade. Nela se condensa uma visão do ser humano e uma compreensão profunda da comunidade. Mais do que um conjunto de pedidos dirigidos a Deus, o Pai Nosso constitui uma verdadeira escola de humanidade.

Educar cristãmente não significa apenas transmitir conteúdos doutrinais; significa introduzir numa forma de relação: com Deus, com os outros e consigo mesmo. O Pai Nosso estrutura essa relação de modo simples e exigente.

A oração começa com uma invocação que já é reveladora: “Pai nosso”. Deus não é apresentado como uma força distante ou um princípio abstrato, mas como Pai. Esta palavra inaugura uma experiência de confiança e proximidade. Ao mesmo tempo, o “nosso” impede qualquer apropriação individualista. A relação com Deus é imediatamente comunitária. Ninguém reza sozinho; mesmo quando está só, o crente reza inserido numa comunhão.

Esta consciência tem profundas consequências educativas. Educar é ensinar a reconhecer-se filho — não absoluto, não autossuficiente, mas recebido. A filiação funda a dignidade e liberta da ilusão de autocriação. Ao mesmo tempo, educar é ensinar a reconhecer o outro como irmão. Se Deus é Pai, então a fraternidade não é opção sentimental, mas consequência ontológica.

Os pedidos que se seguem ampliam esta pedagogia. “Santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade.” A vida humana é orientada para um sentido que a ultrapassa. A educação cristã não fecha o horizonte na eficácia imediata nem no sucesso individual; abre-o a um bem maior, a uma vontade que chama à confiança e à responsabilidade. Aprender a desejar que a vontade de Deus se cumpra é aprender a sair do egocentrismo.

Depois, a oração desce ao concreto: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje.” Aqui aparece a dimensão material e quotidiana da existência. O pão é sustento, trabalho, justiça. Ao pedir o pão “nosso”, reconhece-se que os bens da terra têm destino comum. A educação cristã forma para esta consciência social: ninguém pode apropriar-se indiferentemente do que é necessário à vida de todos.

Segue-se o pedido do perdão: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos.” Este é talvez o ponto mais exigente da oração. O perdão não é apenas algo que se recebe; é algo que se pratica. A educação cristã inclui a aprendizagem da reconciliação, da superação do ressentimento, da reconstrução dos laços quebrados. Numa sociedade marcada pela polarização e pela exclusão, esta dimensão torna-se particularmente urgente.

Por fim, “não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.” Reconhece-se a fragilidade humana e a presença real do mal. Educar não é idealizar o ser humano, mas ajudá-lo a enfrentar a própria vulnerabilidade. A maturidade cristã nasce da lucidez: somos capazes de bem e de mal, e precisamos de auxílio.

O Pai Nosso revela-se, assim, um itinerário formativo completo. Ensina a relação justa com Deus — confiança filial; a relação justa com os outros — fraternidade e perdão; e a relação justa com o mundo — responsabilidade partilhada pelos bens e pelo sentido da história.

Mais do que recitação, esta oração é exercício de transformação. Ao aprendê-la, a criança aprende uma gramática espiritual que molda a sua visão do mundo. Ao rezá-la, o adulto é continuamente chamado a converter-se ao que professa com os lábios. A educação cristã encontra aqui o seu núcleo: formar pessoas que saibam viver como filhos confiantes, irmãos solidários e homens e mulheres responsáveis.

O Pai Nosso não é apenas uma oração entre outras. É um programa de vida condensado em poucas palavras. E talvez resida aí a sua força intemporal: na simplicidade que contém uma visão inteira do humano à luz de Deus.

Francisco Vaz

4 de Março de 2026