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terça-feira, 14 de julho de 2026

Pobres sempre os tereis convosco

Uma reflexão sobre a pobreza, a liberdade e a dignidade humana

Há frases que, retiradas do seu contexto, parecem dizer exatamente o contrário daquilo que significam. Poucas terão sido tão mal compreendidas como esta de Jesus: «Pobres, sempre os tereis convosco.»

Ao longo dos séculos, não faltaram aqueles que a interpretaram como uma espécie de fatalismo cristão: haverá sempre pobres, logo pouco há a fazer. Mas basta ler atentamente o Evangelho para perceber que Cristo nunca legitimou a resignação perante a injustiça. Pelo contrário, toda a sua vida constitui um permanente desafio à indiferença.

Na realidade, Jesus cita quase literalmente o Livro do Deuteronómio: «Nunca deixarão de existir pobres na terra; por isso ordeno-te: abre generosamente a mão ao teu irmão.» A permanência da pobreza não elimina a obrigação moral; torna-a permanente.

A questão é, então, outra. Porque continuará sempre a existir pobreza?

A resposta talvez resida na própria natureza da liberdade humana.

Enquanto existir liberdade haverá sempre possibilidade de egoísmo, de desigualdade, de exclusão e de injustiça. A pobreza não nasce apenas da escassez de recursos; nasce, muitas vezes, da forma como as sociedades organizam a distribuição das oportunidades, do poder e da riqueza. Não é um fenómeno exclusivamente económico. É também político, cultural, moral e espiritual.

Foi precisamente esta visão ampla que vários pensadores portugueses procuraram desenvolver.

Alfredo Bruto da Costa ensinou-nos que a pobreza é essencialmente exclusão. Não basta medir rendimentos; é necessário perguntar quem ficou impedido de participar plenamente na vida da comunidade. O pobre não é apenas quem possui menos. É frequentemente quem conta menos.

Manuela Silva acrescentou uma dimensão decisiva: a pobreza resulta também das escolhas coletivas. Uma economia só merece esse nome quando coloca a pessoa humana no centro do desenvolvimento. O crescimento económico, por si só, não elimina a pobreza se não produzir justiça social.

Eugénio Fonseca, durante muitos anos à frente da Cáritas Portuguesa, recorda que nenhuma política social substitui a proximidade humana. O combate à pobreza exige instituições eficazes, mas exige igualmente relações de fraternidade. A solidariedade não é um sentimento vago; é uma forma concreta de reconhecer no outro alguém com igual dignidade.

Acácio Catarino insistia que o trabalho digno continua a ser uma das mais importantes formas de libertação. A assistência pode aliviar necessidades; o trabalho devolve autonomia, participação e autoestima.

Mas talvez seja Amartya Sen quem tenha oferecido uma das formulações mais fecundas do nosso tempo. Para o Nobel da Economia, ser pobre não significa apenas possuir poucos recursos; significa não dispor das capacidades necessárias para escolher livremente o próprio projeto de vida. A verdadeira riqueza mede-se pelas possibilidades reais de cada pessoa florescer.

Esta perspetiva aproxima-se surpreendentemente da tradição cristã.

Muito antes de existirem indicadores económicos, Santo Ambrósio afirmava que os bens da criação possuem um destino universal. Quando o rico socorre o pobre, dizia ele, não pratica um gesto de magnanimidade; restitui-lhe aquilo que, em certo sentido, já lhe pertence pelo simples facto de ambos partilharem a mesma humanidade.

Séculos mais tarde, Bento XVI, na encíclica Caritas in Veritate, recuperaria esta intuição ao afirmar que o desenvolvimento só é verdadeiramente humano quando integra a justiça, a verdade e a caridade. E Francisco, em Fratelli Tutti, denuncia aquilo que talvez seja a maior pobreza contemporânea: a cultura do descarte, que transforma pessoas em objetos úteis enquanto servem e descartáveis quando deixam de servir.

No entanto, talvez a forma mais subtil de pobreza seja aquela que não aparece nas estatísticas.

Existe a pobreza de quem nunca foi amado.

A pobreza de quem vive rodeado de pessoas mas profundamente só.

A pobreza de quem perdeu qualquer horizonte de esperança.

A pobreza cultural que impede o acesso ao conhecimento.

A pobreza espiritual de sociedades materialmente ricas mas incapazes de responder à pergunta fundamental sobre o sentido da existência.

É por isso que combater a pobreza não pode limitar-se à redistribuição de riqueza. É necessário construir relações, fortalecer famílias, promover educação, criar trabalho digno, cultivar cultura, alimentar esperança. Em suma, promover a pessoa inteira.

A frase de Jesus permanece, assim, extraordinariamente atual.

Os pobres estarão sempre entre nós não porque Deus tenha desistido da humanidade, mas porque a liberdade humana continuará sempre capaz de produzir novas formas de exclusão. Essa permanência não justifica a resignação; impede precisamente que alguma geração imagine ter concluído definitivamente a obra da justiça.

Talvez seja este o verdadeiro significado daquelas palavras.

Os pobres não existem para testar a nossa generosidade.

Existem para recordar permanentemente a nossa responsabilidade.

Porque uma civilização não se mede pelo número dos seus milionários, nem sequer pelo crescimento do seu produto interno bruto. Mede-se pela forma como olha para aqueles que nada têm para oferecer senão a sua própria dignidade.

E talvez seja precisamente aí que reside a maior atualidade do Evangelho: enquanto houver um pobre, haverá ainda trabalho por fazer. Não apenas para os governos ou para as instituições, mas para cada um de nós. Afinal, como recordava Santo Ambrósio, a justiça começa quando deixamos de considerar a solidariedade uma concessão e passamos a reconhecê-la como um dever decorrente da comum dignidade humana.

Francisco Vaz

11 de julho de 2026


Entre o cisma e a nostalgia

quando a unidade da Igreja é posta à prova

A história da Igreja ensina que as grandes crises raramente nascem da falta de fé. Nascem, quase sempre, da dificuldade em viver a comunhão. Umas vezes porque se pretende ir demasiado depressa; outras porque se recusa caminhar. Em ambos os casos, perde-se de vista aquilo que constitui o coração da tradição católica: a unidade.

Nos últimos anos assistimos a dois fenómenos aparentemente opostos, mas que, no fundo, revelam a mesma tentação.

Por um lado, encontram-se aqueles que, em nome da renovação, entendem que determinadas decisões podem ser tomadas independentemente da comunhão com o sucessor de Pedro. A ordenação episcopal sem mandato pontifício constitui um dos atos mais graves que um bispo pode praticar. Não se trata apenas de uma questão administrativa ou disciplinar. Na tradição católica, cada bispo é sucessor dos Apóstolos precisamente porque a sua missão se insere na comunhão do colégio episcopal, cuja unidade tem como princípio visível o Bispo de Roma. Quando alguém rompe deliberadamente esse vínculo, não cria apenas uma nova estrutura; introduz uma fratura no próprio significado do episcopado. A sucessão apostólica não é uma simples cadeia histórica de imposição das mãos; é também uma sucessão na comunhão da fé e da Igreja.

Por outro lado, encontramos setores que olham para o Concílio Vaticano II como se tivesse sido um desvio lamentável da história da Igreja. Alimenta-se, por vezes, a esperança de um regresso a um passado idealizado, como se fosse possível suspender sessenta anos de reflexão, de magistério e de vida eclesial. Também aqui existe um equívoco profundo.

Nenhum concílio ecuménico pode ser simplesmente apagado. A tradição da Igreja não funciona por eliminação de capítulos da sua história. A tradição é uma continuidade viva. Desenvolve-se sem negar as suas raízes, corrige excessos sem destruir o que recebeu e permanece aberta à ação permanente do Espírito Santo.

O erro consiste em transformar um concílio num campo de batalha ideológico. Uns absolutizam o espírito do concílio esquecendo os seus textos; outros absolutizam o período anterior como se toda a verdade tivesse ficado congelada antes de 1962. Ambos acabam por reduzir um acontecimento espiritual a uma disputa política.

Existe aqui um curioso paralelismo.

Os que rompem com Roma em nome da inovação afirmam que a Igreja deve adaptar-se ao mundo, mesmo que para isso tenha de ultrapassar os limites da comunhão eclesial.

Os que recusam o Vaticano II em nome da tradição sustentam que a Igreja apenas será fiel se regressar ao passado, mesmo que isso implique colocar em causa o magistério posterior.

Uns caminham para diante sem o centro; outros permanecem imóveis enquanto a Igreja continua o seu caminho.

Mas a identidade cristã nunca foi construída sobre estas alternativas. A Igreja não é um museu onde tudo permanece imóvel nem um laboratório onde tudo pode ser reinventado. É um organismo vivo. Como acontece com qualquer ser vivo, cresce permanecendo ele próprio. Uma árvore adulta não renega a semente que lhe deu origem, mas também não regressa a ela.

O critério decisivo continua a ser o mesmo desde os primeiros séculos: a comunhão. Não uma comunhão acrítica, que dispense o debate, nem uma obediência cega que elimine a consciência, mas uma comunhão que reconhece que ninguém possui sozinho a plenitude da verdade. O Espírito Santo não inspira apenas indivíduos; conduz toda a Igreja.

Talvez por isso seja mais fecundo abandonar as categorias políticas de "progressistas" e "conservadores". Essas palavras pertencem ao vocabulário parlamentar, não ao léxico do Evangelho. A verdadeira distinção é outra: entre aqueles que procuram a verdade permanecendo na comunhão e aqueles que colocam a sua própria interpretação acima da comunhão.

A Igreja sempre viveu de tensões criativas. Os grandes santos discutiram, discordaram e, por vezes, confrontaram-se intensamente. Mas fizeram-no sem romper o vínculo que os unia ao Corpo inteiro.

A unidade nunca exige uniformidade absoluta; exige, isso sim, uma humildade comum. A humildade de reconhecer que nem o passado esgota a ação de Deus, nem o futuro nos autoriza a esquecer as raízes. Entre a nostalgia e a ruptura existe um caminho mais difícil, mas também mais autenticamente católico: o caminho da tradição viva, onde a fidelidade e a renovação deixam de ser adversárias para se tornarem duas expressões da mesma esperança.

Uma nota de rigor histórico: se estiver a referir-se ao caso recente da Suíça, posso identificar o episódio concreto e enquadrá-lo canonicamente, pois houve diferentes situações envolvendo tensões com Roma e convém distinguir os factos antes de fazer uma crítica específica.

Francisco Vaz

2 de julho de 2026

Do Génesis à Divina Comédia

Uma alegoria sobre o humor divino, a liberdade humana e as eternas azelhices da criatura.

Há uma hipótese que, naturalmente, não consta em qualquer tratado de teologia, mas que merece, pelo menos, um sorriso filosófico: talvez a história da humanidade possa ser lida como a mais longa comédia alguma vez representada.

Não porque Deus tenha criado o homem para dele troçar, mas porque só um infinito sentido de humor poderia acompanhar, sem desistir da obra, a sucessão interminável de equívocos produzidos pela criatura dotada de liberdade.

Tudo começa no Génesis. O cenário é perfeito. O jardim é paradisíaco. A criação termina com uma exclamação de satisfação: «E Deus viu que tudo era muito bom.» A peça parecia destinada ao género da contemplação. Mas bastaram poucas páginas para surgir o primeiro ato cómico. Deus diz: «De toda a árvore podes comer, menos desta.» O ser humano, com a criatividade que o acompanhará para sempre, conclui imediatamente que a única árvore realmente interessante só pode ser precisamente essa.

É o primeiro grande momento da comédia humana: transformar a única exceção na única prioridade.

Segue-se o célebre interrogatório. «Adão, onde estás?» Como se Deus ignorasse a resposta. A pergunta não procura informação; procura consciência. Mas Adão responde como responderão milhões dos seus descendentes: não assume a responsabilidade, procura um culpado: «A mulher que me deste…». Eva, por sua vez, remete a culpa para a serpente. A serpente, infelizmente, não dispõe de advogado.

Desde então, a humanidade aperfeiçoou o método. Descobrimos a política, onde a culpa pertence sempre ao governo anterior; a economia, onde a responsabilidade é dos mercados; a meteorologia, onde tudo se explica pelas alterações climáticas; e as redes sociais, onde cada um possui a verdade absoluta durante quinze minutos.

Entretanto, Deus continua, por assim dizer, a assistir à representação. Não como um espectador que se diverte com o sofrimento das personagens, mas como um autor paciente que sabe que a liberdade implica a possibilidade permanente do disparate. Um criador de marionetas controla os fios; um criador de pessoas aceita o risco da improvisação.

Talvez seja precisamente aí que reside o humor divino: conceder inteligência suficiente para descobrir as leis do universo e, ao mesmo tempo, observar os mesmos seres humanos discutirem por um pedaço de terra, uma herança ou um lugar de honra à mesa.

Construímos telescópios capazes de observar galáxias a milhares de milhões de anos-luz e, logo a seguir, perdemos meia hora à procura dos óculos que temos pousados na cabeça. Inventamos a penicilina e a inteligência artificial, mas continuamos incapazes de ler as instruções e montar uma simples estante sem sobrarem meia dúzia de parafusos.

A história torna-se assim uma sucessão de atos em que convivem o sublime e o ridículo. A mesma humanidade que ergue catedrais, compõe sinfonias, escreve Shakespeare, pinta Miguel Ângelo ou descobre a estrutura do ADN é também capaz de iniciar guerras por vaidade, destruir o que levou séculos a construir e repetir, geração após geração, os mesmos erros com uma surpreendente convicção de originalidade.

Talvez por isso a expressão Divina Comédia encerre uma intuição mais profunda do que parece. Não porque a criação seja uma piada, mas porque o drama humano é frequentemente atravessado por um humor involuntário. Somos simultaneamente heróis e trapalhões, sábios e distraídos, criados à imagem do Logos e continuamente tentados pelo absurdo.

O Génesis pode, assim, ser entendido como o prólogo desta imensa representação. Não uma comédia destinada a ridicularizar o homem, mas uma comédia onde a liberdade humana revela, a cada passo, a distância entre aquilo que somos e aquilo que poderíamos ser.

E talvez o riso de Deus — se é legítimo imaginá-lo — não seja um riso de escárnio, mas de infinita ternura. O mesmo sorriso de um pai que vê o filho cair pela centésima vez enquanto aprende a caminhar. Sabe que a queda faz parte do caminho. E continua, pacientemente, a estender-lhe a mão.

No fim, a verdadeira graça da história não está nas nossas azelhices, mas no facto de, apesar delas, a criação continuar aberta à esperança. Afinal, se o Génesis inaugura a grande comédia da liberdade, é porque o Autor nunca deixou de acreditar que a última palavra não pertencerá ao ridículo, mas ao amor.

Francisco Vaz

1 de julho de 2026