CORO

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quinta-feira, 23 de abril de 2026

Leão VIX

 Autoridade moral global

O tempo que nos é dado viver em muito se assemelha com a Idade Média, em que reis e imperadores se insurgiam contra o pontífice romano e, sob o risco de excomunhão, fomentavam a ascensão de antipapas.

O ataque de Donald Trump a Robert Francis Prevost tem algo de tão desmedido que parece deslocar as relações internacionais para um plano quase irreal, próximo de uma Gotham City. Peter Thiel, o poderoso tecnocrata libertário embriagado pela pós-democracia, agora precisa decidir: ou o Papa é o Anticristo ou Trump é o Anticristo. 

A tensão atingiu tal grau que as soluções diplomáticas clássicas se tornam difíceis de imaginar. As imagens que surgem são deliberadamente excessivas: Trump em penitência pública às portas de Roma, ou, no extremo oposto, um Papa alvo de uma operação clandestina. Hipérboles, certamente — mas reveladoras da degradação do discurso e da crescente incapacidade de mediação racional.

Importa, por isso, ir além do ruído e fixar três ideias essenciais.

A primeira prende-se com o Conclave. Frequentemente descrito como um colégio envelhecido e distante do mundo contemporâneo, voltou a revelar uma notável lucidez geopolítica. Nas últimas décadas, com exceção da eleição de Joseph Ratzinger — menos vocacionado para a arena internacional —, os cardeais escolheram figuras com clara projeção global: Karol Wojtyła, no contexto da Guerra Fria; Jorge Mario Bergoglio, primeiro pontífice oriundo do Sul Global; e agora Leão XIV, um papa norte-americano com profundas ligações ao Peru. A sua eleição representa mais um passo na internacionalização da Igreja, impulsionada por um colégio cardinalício cada vez mais marcado pelo Sul Global — que, de forma significativa, escolheu um nome vindo da própria superpotência americana.

A segunda ideia diz respeito ao presidente dos Estados Unidos. As suas declarações, classificando o Papa como “fraco” ou “incompetente”, não são apenas desproporcionadas — são, para usar a célebre expressão de Charles-Maurice de Talleyrand, piores do que um erro: são uma imprudência. Ao atacar o chefe da Igreja Católica, Trump arrisca afastar não só setores progressistas, mas também parte do eleitorado conservador católico, já desconfortável com algumas das suas posições.

O efeito mais visível desse ataque é, aliás, paradoxal: acabou por transformar Leão XIV numa referência moral de oposição ao trumpismo. Não por escolha própria. O Papa procurou inicialmente manter a tradição diplomática da Santa Sé, evitando confrontos diretos. Mas a escalada retórica — incluindo ameaças de guerra — acabou por o obrigar a uma posição mais clara. As suas palavras, evocando o profeta Isaías ou apelando à rejeição de conflitos injustos, assinalam essa inflexão.

Quando confrontado diretamente com Trump, Leão XIV respondeu com sobriedade: não pretende entrar num confronto político, mas reafirma princípios que considera inegociáveis — a paz, a dignidade humana e a fidelidade à mensagem evangélica.

Resta uma última nota, talvez a mais significativa. Num mundo em rápida transformação, onde normas e equilíbrios se fragmentam, a Igreja Católica — com todas as suas imperfeições históricas — reaparece como um dos poucos atores com autoridade moral global. Sob a liderança de Leão XIV, afirma-se como voz de diálogo, de contenção e de defesa dos mais vulneráveis.

Num tempo marcado pelo ruído e pela radicalização, essa voz não é apenas relevante. É, talvez, indispensável.

Nota:

Reflexão inspirada no artigo de Marco Politi, publicado por Il Fatto Quotidiano em 13-04-2026.

Francisco Vaz

22 de Abril de 2026

O Coro amador

 

Lugar de cultura, comunidade e humanidade

Num tempo marcado pela fragmentação social e pela aceleração individualista, o coro — sobretudo o coro amador — surge como uma das mais discretas, mas profundas, formas de resistência cultural. As reflexões de Edgar Saramago conduzem-nos a uma compreensão mais ampla do fenómeno coral: não apenas como prática artística, mas como espaço de construção humana.1

A história do canto coral confunde-se com a própria história da civilização ocidental. Desde os primeiros cânticos litúrgicos até ao desenvolvimento da polifonia, o coro foi sempre mais do que som organizado — foi linguagem espiritual, memória coletiva e expressão de transcendência. A referência a Guido d'Arezzo não é apenas técnica; marca o momento em que a música se fixa, se transmite e se torna património. O coro, nesse sentido, é herdeiro de uma tradição milenar onde o indivíduo encontra o seu lugar numa harmonia maior.

Mas é na contemporaneidade que o coro amador revela a sua singular relevância. Num país como Portugal, onde a profissionalização musical é limitada, o tecido coral sustenta grande parte da vida musical. E fá-lo de forma silenciosa, muitas vezes invisível, sem o reconhecimento institucional que outras áreas culturais recebem. Esta ausência levanta uma questão estrutural: pode uma sociedade aspirar à coesão e ao desenvolvimento sem investir na sua cultura?

O coro amador responde, na prática, a essa interrogação. Ele é um espaço de democratização cultural, onde não há exigência de elite, mas sim abertura à participação. Cantar em coro é um exercício de escuta, disciplina e integração. Cada voz conta, mas nenhuma se impõe. Há aqui uma pedagogia implícita: aprender a estar com os outros, a ajustar-se, a construir algo comum sem apagar a singularidade.

Mais ainda, o coro funciona como uma verdadeira comunidade. Não por acaso, muitos o descrevem como uma “família”. Num mundo onde a solidão cresce como problema social, esta dimensão torna-se essencial. O canto coletivo cria vínculos, atravessa gerações, aproxima idades e experiências. Jovens e idosos partilham o mesmo espaço sonoro, o mesmo tempo, a mesma respiração.

A ciência começa, aliás, a confirmar aquilo que a experiência sempre soube. Estudos divulgados por organizações como a BBC World Service mostram que o canto coral promove o bem-estar físico e psicológico: reduz o stress, estimula a memória, ativa hormonas associadas ao prazer e à confiança. Mais do que uma atividade artística, o coro é um instrumento de saúde pública — acessível, inclusivo e eficaz.

Mas talvez a sua maior virtude resida noutra dimensão, mais difícil de quantificar: a capacidade de dar sentido. Num coro, a relação entre texto e música — seja na sobriedade da escrita silábica ou na expressividade do melisma — revela que a palavra pode ser ampliada, iluminada, transfigurada. Cantar é, nesse sentido, interpretar o mundo. E fazê-lo em conjunto é reconhecer que o sentido não é propriedade individual, mas construção partilhada.

Neste contexto, a escassez de investimento cultural não é apenas uma falha política; é uma miopia civilizacional. Ignorar o valor do canto coral é ignorar um dos mais eficazes meios de coesão social, educação estética e equilíbrio humano. Promover coros amadores não é um luxo — é uma necessidade.

Talvez por isso a pergunta mais pertinente não seja por que razão existem poucos coros profissionais, mas por que razão não reconhecemos plenamente o valor dos coros amadores. Neles reside uma forma de riqueza que não se mede em indicadores económicos, mas em qualidade de vida, em densidade cultural e em humanidade partilhada.

No fim, o coro não é apenas metáfora — é prova. Prova de que a harmonia não nasce da uniformidade, mas da diferença reconciliada; de que a comunidade não se decreta, constrói-se; de que a cultura não é ornamento, é fundamento. Onde uma sociedade deixa morrer o canto comum, começa a perder a sua própria voz.

E, no entanto, basta um acorde sustentado no ar para lembrar o essencial: que somos feitos para escutar, para responder, para nos inscrever numa música que nos ultrapassa. No coro, cada voz é limite e possibilidade; cada silêncio, promessa. Ali, no entrelaçar das respirações, a humanidade reencontra-se — não como soma de indivíduos, mas como presença partilhada.

Que não nos falte, pois, esta coragem humilde: cantar juntos. Porque enquanto houver vozes que se levantam em comum, haverá futuro.

Francisco Vaz

14 de Abril de 2026

Nota

1. Edgar Saramago, Música Coral, A importância Sócio-cultural do coro amador na sociedade moderna, Auditório do Centro Comercial da Portela, 11 de Junho de 2024.

sábado, 4 de abril de 2026

Páscoa e silêncio de Deus

Entre a cruz e a ressurreição

A Páscoa cristã coloca-nos diante de um dos paradoxos mais exigentes da experiência humana: o triunfo da vida que nasce do silêncio. Entre a cruz e a ressurreição estende-se um tempo denso — o intervalo do Sábado Santo — em que Deus parece ausente, a história suspensa e o sentido obscurecido. É precisamente nesse silêncio que se joga, de modo decisivo, a compreensão de Deus e do próprio humano.

Vivemos numa cultura que tende a rejeitar o silêncio. Procuramos respostas imediatas, explicações rápidas, soluções eficazes. O sofrimento é frequentemente marginalizado, tratado como anomalia a eliminar ou a ocultar. No entanto, a experiência pascal introduz uma outra lógica: não a fuga ao silêncio, mas a sua habitação. O silêncio de Deus não é vazio nem indiferença; é uma presença que não se impõe, que respeita a liberdade e a fragilidade humanas. Um Deus que não violenta nem se substitui ao humano, mas que abre espaço para uma resposta livre.

Neste horizonte, a cruz deixa de ser apenas um símbolo religioso para se tornar um espelho da condição humana. Nela se inscrevem a dor, a injustiça, o abandono — tudo aquilo que marca a vulnerabilidade do viver. Mas o silêncio que a envolve não anula essa realidade; antes, confere-lhe uma profundidade inesperada. Não se trata de justificar o sofrimento, mas de reconhecer que, mesmo nele, permanece a possibilidade de relação, de compaixão e de sentido.

É aqui que a Páscoa revela a sua dimensão antropológica mais radical. O ser humano manifesta-se como um ser capaz de permanecer na noite, de suportar o não-sentido sem sucumbir ao desespero. A esperança pascal não é evasão, mas travessia. Num tempo que valoriza a eficiência e a visibilidade, reaprende-se a importância da espera, da fidelidade e da confiança no invisível.

Mas a Páscoa é também uma interpelação teológica profunda. O silêncio de Deus não significa ausência, mas um modo distinto de presença. Um Deus que não se impõe pela força, mas que se revela na fragilidade; que não domina a história de fora, mas a habita por dentro, até às suas zonas mais obscuras. A ressurreição não apaga o silêncio da cruz — confirma-o como parte integrante de um mistério maior, onde a vida emerge não apesar da morte, mas através dela.

Por fim, há uma dimensão ontológica que não pode ser ignorada. A cruz expõe o risco inscrito no próprio ser: a possibilidade de negação, de violência, de destruição. O silêncio de Deus torna-se, então, o espaço onde o humano é chamado a decidir. Ou reconhece o outro na sua dignidade irrepetível, ou cede à tentação de o reduzir a meio, a número, a obstáculo. Quando esse reconhecimento falha, não estamos apenas perante uma crise moral, mas perante uma verdadeira fratura do ser.

É neste ponto que a reflexão pascal se torna particularmente atual. Vivemos uma mudança de época marcada por avanços tecnológicos, tensões geopolíticas e transformações culturais profundas. No entanto, a crise mais inquietante não é apenas externa — é uma crise do próprio humano. Multiplicam-se sinais de desumanização: a indiferença perante o sofrimento, a polarização que transforma o outro em inimigo, a incapacidade de reconhecer no rosto alheio uma dignidade comum.

Perante este cenário, o silêncio de Deus não pode ser interpretado como legitimação da indiferença. Pelo contrário, ele intensifica a responsabilidade humana. Se Deus não intervém de modo evidente para impedir a violência, é porque confia ao humano a tarefa de a superar. O tempo entre a cruz e a ressurreição torna-se, assim, o tempo da escolha: permanecer junto dos que sofrem ou passar ao largo.

A ressurreição, por sua vez, não é apenas promessa futura; é critério para o presente. Afirma que nenhuma forma de desumanização tem a última palavra. Mas essa afirmação não se realiza automaticamente: exige mediação concreta, gestos, escolhas, compromissos. Exige homens e mulheres capazes de reconhecer no outro — sobretudo no mais vulnerável — um apelo irrecusável.

Num mundo que parece esquecer o que significa ser humano, a Páscoa recorda que é precisamente no silêncio — esse lugar incómodo e exigente — que o humano se define. Não como ideia abstrata, mas como prática viva: permanecer, reconhecer, responder. Entre a cruz e a ressurreição, joga-se, ainda hoje, o destino da nossa humanidade.

Francisco Vaz

4 de Abril de 2026

Sábado Santo