Uma mesa onde há lugar para todos
Há uma imagem que atravessa as leituras deste domingo: a mesa preparada. Em Isaías, Deus oferece um banquete a todos os povos; no salmo, o pastor prepara a mesa para aquele que acompanha; no Evangelho, um rei convida para as bodas do seu filho. A mesa torna-se expressão de encontro, de pertença e de uma vida que só alcança plenitude quando pode ser partilhada.
É aqui que reconhecemos a pedagogia do Antigo Testamento. A promessa de Isaías educa o desejo humano: leva-nos a esperar um mundo onde as lágrimas sejam enxugadas e a morte vencida. O salmo transforma essa esperança em confiança pessoal. O Deus que reúne os povos é também aquele que acompanha cada pessoa pelos seus caminhos, incluindo os mais sombrios.
Este encadeamento permite-nos escutar a Escritura como uma história de relação. A promessa prepara o coração; a oração ensina-o a confiar; em Jesus Cristo, o convite adquire um rosto e pede uma resposta. O Antigo Testamento conserva a sua voz própria e ajuda-nos a compreender a profundidade daquilo que o Evangelho anuncia.
No Angelus de hoje, Leão XIV recordou, a partir de São Tomás de Aquino, que o bem tende a comunicar-se. A felicidade do pai que celebra as bodas do filho procura outros com quem possa ser partilhada. O Papa salientou também que a rejeição do bem não deve levar-nos ao desânimo: o convite alarga-se, e a alegria procura novos destinatários.
Podemos encontrar nesta leitura uma interrogação sobre a nossa vida. Quando recebemos alguma coisa boa, sentimos vontade de a repartir? O conhecimento que adquirimos, o tempo de que dispomos, a experiência que acumulámos e a fé que professamos tornam-se possibilidades de encontro? Ou guardamo-los como bens cuja segurança depende de permanecerem exclusivamente nossos?
A recusa dos primeiros convidados merece igualmente atenção. Alguns continuam ocupados com os seus campos e negócios. Reconhecemos aí uma dificuldade familiar: podemos estar tão absorvidos pelo que fazemos que deixamos de perceber quem nos chama. O quotidiano enche-se de obrigações, e aquilo que dá sentido à existência vai sendo adiado. A pergunta interior talvez seja esta: a que convites essenciais tenho respondido que não tenho tempo?
A segunda leitura acrescenta uma dimensão decisiva. Paulo conhece a abundância e a privação, encontra força em Cristo e agradece aos que participaram na sua tribulação. A confiança em Deus convive com a necessidade dos outros. A fé amadurece também na capacidade de aceitar ajuda e de reconhecer, com gratidão, quem permanece ao nosso lado.
Quanto ao traje de festa, podemos lê-lo como a exigência de deixar que o encontro transforme a vida. Entrar na sala implica aprender a viver com os que nela se encontram. A pertença religiosa pede coerência: a oração deve ganhar expressão na atenção, na justiça, na misericórdia e na disponibilidade para servir.
Leão XIV aproximou esta alegria das nossas casas e dos lugares onde vivemos, relacionando-a com os gestos concretos de bondade que nos aproximam uns dos outros. Podemos, por isso, começar por uma mesa muito próxima: aquela onde escutamos alguém sem pressa, acolhemos uma fragilidade ou reconciliamos uma relação.
A liturgia deste domingo convida-nos a esse exame sereno. Quem encontra lugar na minha vida? Quem fica habitualmente à porta? Que mudança preciso de acolher para que a minha presença seja mais hospitaleira?
A promessa do banquete começa a tornar-se visível quando alguém deixa de estar sozinho. E a nossa resposta ao convite de Deus ganha corpo quando ajudamos outra pessoa a descobrir que também há lugar para ela.
Francisco Vaz
11 de outubro de 2026