CORO

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domingo, 20 de setembro de 2026

D. Paulo Romeu Dantas Bastos


Nascido em Nova Soure, no estado da Bahia, em 20 de agosto de 1955, estudou inicialmente na sua terra natal e em Alagoinhas. Formou-se como técnico agropecuário e trabalhou na Embrapa antes de ingressar no seminário. Estudou Filosofia no Seminário Central da Bahia e Teologia no Seminário de Viamão.

Foi ordenado sacerdote em 18 de maio de 1985, na cidade de Barreiras. Durante o ministério presbiteral, exerceu funções paroquiais, acompanhou a Pastoral da Juventude e a pastoral familiar, foi coordenador diocesano de pastoral, pároco da Catedral de São João Batista e vigário-geral da Diocese de Barreiras.

Nomeado bispo de Alagoinhas por São João Paulo II, em 24 de abril de 2002, recebeu a ordenação episcopal em 27 de julho desse ano. Depois de quase duas décadas em Alagoinhas, foi transferido pelo Papa Francisco para a Diocese de Jequié, em 13 de janeiro de 2021, tendo tomado posse em 19 de março.

A sua formação, que inclui a experiência profissional anterior ao sacerdócio e um longo percurso pastoral, ajuda a compreender o tom simples, próximo e concreto da sua pregação, muito centrada na bondade de Deus, na confiança e na vida quotidiana das comunidades. (síntese biográfica)

Nota:

https://www.amissanobrasil.com.br/bispos/dom-paulo-romeu-dantas-bastos

XXV Domingo do Tempo Comum

«Para mim, viver é Cristo»

Na Eucaristia deste domingo, presidida por D. Paulo Romeu, bispo de Jequié, na Bahia, ficaram-me particularmente presentes duas ideias que atravessam as leituras: a bondade de Deus ultrapassa os nossos cálculos e a vida cristã só encontra o seu sentido pleno quando pode afirmar, com São Paulo: «Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro».

Paulo escreve estas palavras aos cristãos de Filipos, cidade da Macedónia e colónia romana. Ali fundara, cerca do ano 50, a primeira comunidade cristã conhecida em território europeu. Os Filipenses conservaram por ele uma especial afeição e apoiaram-no materialmente durante a sua missão. Paulo escreve-lhes da prisão, agradecendo a ajuda recebida, exortando-os à unidade e preparando-os para a possibilidade da sua morte.

As suas palavras não exprimem desprezo pela vida, nem uma atração pelo sofrimento. Quando afirma que «morrer é lucro», Paulo proclama que a morte já não possui a última palavra. Para quem vive em Cristo, morrer não é cair no nada, mas alcançar a plenitude da comunhão com aquele que já dá sentido à existência. Contudo, Paulo reconhece que permanecer vivo pode ser necessário para continuar a servir os irmãos. A sua vida já não lhe pertence inteiramente: tornou-se missão.

As cartas de Paulo entraram no Novo Testamento porque as primeiras comunidades reconheceram nelas um testemunho autorizado da fé apostólica. Escritas inicialmente para responder a situações concretas, foram depois lidas nas assembleias, copiadas e partilhadas entre as Igrejas. A formação do cânone foi gradual: as cartas paulinas já circulavam como coleção entre o final do século I e o início do século II; no século IV, a lista dos 27 livros do Novo Testamento ficou claramente estabelecida, aparecendo na Carta Festal de Santo Atanásio, em 367, e sendo posteriormente confirmada pelos sínodos de Hipona e de Cartago.

Na homilia de D. Paulo Romeu, a parábola dos trabalhadores da vinha foi apresentada como revelação da bondade de Deus. O proprietário sai repetidamente à procura de trabalhadores: de manhã cedo, ao longo do dia e quase ao cair da tarde. A sua preocupação não é apenas o rendimento da vinha. Ele não quer que nenhum homem termine o dia sem trabalho, sem salário e sem pão para levar para casa.

À hora do pagamento, todos recebem o mesmo denário. Os primeiros protestam, não porque tenham recebido menos do que lhes fora prometido, mas porque os últimos receberam o mesmo. A sua revolta nasce da comparação. Desejam para si a justiça do contrato, mas recusam aos outros a generosidade.

É aqui que a parábola nos atinge. Aceitamos facilmente a bondade de Deus quando somos os seus beneficiários; temos maior dificuldade em aceitá-la quando alcança aqueles que julgamos menos merecedores. Todavia, como recorda Isaías, os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos, nem os seus caminhos são os nossos caminhos. A bondade divina rompe os nossos esquemas, ultrapassa a contabilidade dos méritos e não se deixa aprisionar pelas hierarquias que construímos.

Deus não ama por comparação. Aquilo que concede ao outro nada retira ao amor que me oferece. A misericórdia concedida a quem chegou tarde não representa uma injustiça para quem trabalhou desde a primeira hora. Diante de Deus, ninguém fica definitivamente reduzido aos seus atrasos, fracassos ou desvios. Enquanto durar o dia, permanece aberto o chamamento para a vinha.

Reunidos em torno do altar, somos também aqueles trabalhadores chamados pelo Senhor. Mas não comparecemos como assalariados que exigem um pagamento proporcional ao serviço realizado. Aproximamo-nos como filhos que recebem gratuitamente o amor do Pai. O nosso verdadeiro denário é o próprio Cristo.

Na Eucaristia, Cristo não morre e ressuscita novamente: o seu único sacrifício pascal torna-se sacramentalmente presente. E todos recebem o mesmo Senhor — aquele que chegou primeiro e aquele que chegou mais tarde, o fiel e o que regressou, o forte e o ferido. Cristo entrega-se inteiramente a cada um.

«Viver é Cristo» significa, portanto, abandonar a contabilidade espiritual e aprender a olhar os outros com a generosidade de Deus. Significa transformar a vida recebida em serviço, gratidão e entrega. Mesmo na tribulação, permanece esta certeza: Deus pode não nos poupar a todas as dificuldades, mas nunca nos deixa faltar o seu amor.

Regressamos, assim, às nossas casas com alegria. Não apenas porque recebemos a bondade de Deus, mas porque somos enviados para a tornar presente. Quem recebeu gratuitamente Cristo na Eucaristia é chamado a ser, no mundo, testemunha da mesma bondade que não exclui ninguém e que ultrapassa todos os nossos cálculos.

Francisco Vaz

20 de setembro de 2026

domingo, 13 de setembro de 2026

XXIV Domingo do Tempo Comum

Reflexão para o XXIV Domingo do Tempo Comum

«Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?»
(Mt 18,33)

O tema que a Palavra de Deus nos propõe é fácil de enunciar, mas difícil de viver: o perdão. Todos reconhecemos a sua beleza quando somos nós a recebê-lo; descobrimos, porém, a sua exigência quando somos chamados a concedê-lo.

A primeira leitura adverte-nos: «O rancor e a ira são coisas detestáveis». Não porque a dor causada pela ofensa seja imaginária ou insignificante, mas porque o ressentimento, quando consentido e alimentado, prolonga dentro de nós o poder daquele que nos feriu. A ofensa aconteceu num determinado momento; o ressentimento encarrega-se de a repetir todos os dias.

Perdoar não significa afirmar que o mal não aconteceu. Não é esquecer por obrigação, desculpar o indesculpável ou renunciar à justiça. Também não implica necessariamente restabelecer uma relação que se tornou perigosa ou moralmente destrutiva. Há situações em que perdoar exige distância, prudência e proteção. O perdão não transforma o mal em bem nem retira ao culpado a sua responsabilidade. Impede, isso sim, que o mal recebido se converta no mal que passamos a transportar e, porventura, a transmitir aos outros.

É neste sentido que perdoar significa abdicar do direito ao ressentimento.

Quem foi ofendido pode sentir que adquiriu o direito de conservar a mágoa, alimentar a indignação e desejar que o outro sofra. Humanamente, esse sentimento parece compreensível. Mas Cristo chama-nos a uma liberdade maior: não permitir que a injustiça determine definitivamente aquilo em que nos tornamos.

Abdicar do ressentimento não é renunciar à dignidade; é recuperá-la. É dizer: “O que me fizeste foi real e foi injusto, mas não concederei a esse mal o poder de governar o meu coração.” O perdão não altera o passado, mas liberta o futuro.

Pedro pergunta a Jesus quantas vezes deverá perdoar: «Até sete vezes?» Julgava já propor uma medida generosa. Jesus responde: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.» Não se trata de substituir um limite por outro mais elevado. Na linguagem bíblica, trata-se de retirar ao perdão qualquer contabilidade. O amor não conserva um livro de débitos para decidir quando termina a misericórdia.

A parábola do servo impiedoso mostra-nos a desproporção entre a dívida imensa que lhe foi perdoada e a pequena dívida que ele se recusou a perdoar. O problema daquele servo não está apenas na crueldade do seu comportamento. Está no facto de ter recebido misericórdia sem permitir que ela transformasse a sua maneira de olhar o próximo.

Também nós podemos receber o perdão de Deus e continuar a viver como cobradores implacáveis das dívidas alheias. Podemos aproximar-nos da confissão, escutar as palavras da absolvição e, apesar disso, conservar cuidadosamente os nossos “pecados de estimação”: juízos, rancores, desprezos e antigas feridas que não desejamos entregar verdadeiramente a Deus.

É por isso que o perdão tem uma dimensão pessoal, mas também comunitária. O pecado nunca fica inteiramente fechado naquele que o pratica. Rompe relações, envenena ambientes, endurece palavras e instala silêncios. Numa família onde ninguém perdoa, até uma refeição pode tornar-se irrespirável. Numa comunidade dominada pelo ressentimento, as pessoas podem permanecer exteriormente juntas, mas já não vivem em comunhão.

Ao contrário, uma comunidade que aprende a perdoar é uma comunidade que respira.

Como recordou o cónego Gianfranco Bianco, quem não perdoa acaba por ficar parado. Transporta, por vezes durante toda a vida, as humilhações da infância, as desilusões familiares, as amizades perdidas ou as injustiças sofridas. O passado deixa de ser memória e transforma-se numa prisão. A pessoa já não vive a partir do que é, mas reage continuamente ao que lhe fizeram.

Por isso, o primeiro beneficiário do perdão é aquele que perdoa. Mesmo que o ofensor não reconheça a culpa, não peça desculpa ou não aceite a reconciliação, aquele que perdoa entra num espaço interior novo. Deixa de entregar ao outro a chave da sua paz.

Contudo, esta liberdade não nasce apenas do esforço humano. A nossa reação espontânea é defender-nos, retribuir e conservar a ofensa como argumento contra o outro. O perdão cristão é sobrenatural porque nasce da presença de Cristo em nós. Não perdoamos porque somos insensíveis ao mal, mas porque fomos alcançados por um amor maior do que o mal.

O segredo está em recordar quantas vezes fomos perdoados pelo Senhor. O cristão não perdoa a partir de uma superioridade moral, como se fosse melhor do que aquele que o ofendeu. Perdoa como alguém que sabe viver de uma misericórdia recebida.

O Papa Francisco comparava o perdão a uma ressurreição: quando alguém, esmagado pela culpa, recebe a misericórdia de Deus, volta à vida. A graça não apaga magicamente as consequências dos atos, mas restitui à pessoa a possibilidade de recomeçar. «A vossa graça, Senhor, vale mais do que a vida», canta o salmista, porque é a graça que reconstrói aquilo que o pecado destruiu.

Perdoar é, portanto, um ato pascal. É recusar que a morte tenha a última palavra numa relação ou dentro de nós. É atravessar a memória dolorosa sem permanecer sepultado nela. É entregar a Deus o desejo de vingança e pedir-lhe que faça nascer vida onde apenas parecia existir ruína.

Talvez não consigamos perdoar tudo de uma só vez. Há perdões que não são um instante, mas um caminho; não são uma emoção, mas uma decisão renovada diariamente. Podemos ainda sentir a ferida depois de termos decidido perdoar. Isso não significa que o perdão tenha sido falso. Significa apenas que a vontade já escolheu a liberdade, enquanto o coração continua lentamente a aprender a paz.

Neste domingo, a pergunta decisiva não é apenas: “Quem me ofendeu?” É também: “Que ressentimento continuo a considerar um direito meu?” E ainda: “Que dívida continuo a cobrar, depois de Deus me ter perdoado uma dívida incomparavelmente maior?”

Perdoar é colocar a justiça nas mãos de Deus e recusar tornar-nos prisioneiros do mal que sofremos. É libertar o outro da nossa vingança e libertarmo-nos da presença corrosiva do outro dentro de nós.

Quem perdoa não declara que nada aconteceu. Declara que o mal acontecido não decidirá o futuro.

Perdoar é devolver a vida. É permitir que o coração volte a respirar. É abdicar do direito ao ressentimento para receber, das mãos de Deus, o dom maior da paz.

Francisco Vaz

13 de setembro de 2026

domingo, 6 de setembro de 2026

XXIII Domingo do Tempo Comum

Ganhar o irmão

Há uma pergunta antiga que atravessa as leituras deste domingo: «Sou eu o guarda do meu irmão?»

A resposta cristã é clara: não podemos ser indiferentes ao destino do outro. Mas cuidar do irmão não significa julgá-lo ou condená-lo. Significa aproximarmo-nos dele com verdade e caridade.

É esse o sentido da correção fraterna proposta por Jesus. Perante o erro, o primeiro gesto não é falar do outro, mas falar com o outro. A sós, com respeito pela sua dignidade, procurando recuperar e não humilhar.

Por isso, talvez a frase mais bela do Evangelho seja: «Se te escutar, terás ganho o teu irmão.»

Não se trata de ganhar uma discussão. Não se trata de provar que temos razão. Trata-se de ganhar o irmão.

Na homilia deste domingo, o Padre Noé recordava precisamente que corrigir exige humildade, escuta e prudência. E Leão XIV, no Angelus, sublinhava que até os conflitos podem transformar-se em oportunidades de crescimento quando são vividos na sinceridade e na caridade.

Num tempo em que tantas divergências terminam em afastamento, o Evangelho propõe outro caminho: aproximar, escutar, perdoar, reconstruir.

Talvez seja por isso que Jesus termina dizendo: «Onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles.»

Quando conseguimos atravessar a distância criada pela ofensa, pelo orgulho ou pela incompreensão e voltamos a reconhecer-nos como irmãos, Cristo volta a estar no meio de nós.

Essa é a verdadeira vitória cristã: não vencer o outro, mas ganhar o irmão.

Francisco Vaz

6 de setembro de 2026


domingo, 30 de agosto de 2026

XXII Domingo do Tempo Comum

«Não vos conformeis com este mundo»

As leituras deste domingo colocam-nos perante uma questão essencial: como reconhecer o caminho de Deus quando ele não coincide com aquele que desejaríamos?

Jeremias confessa: «Seduziste-me, Senhor, e eu deixei-me seduzir». O encontro com Deus não lhe trouxe uma vida mais fácil, mas acendeu nele um fogo que já não conseguia apagar. O salmo exprime a mesma experiência: «A minha alma tem sede de Vós, meu Deus.» Há no homem uma sede que as coisas do mundo não conseguem preencher.

São Paulo dá-nos então uma chave fundamental: «Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente.»

É precisamente esta transformação que ainda falta a Pedro no Evangelho. Ele ama Jesus, mas, quando Cristo anuncia que irá sofrer e morrer, tenta mostrar-Lhe outro caminho. Jesus responde-lhe: «Não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens.»

Como salientou o padre Noé na homilia, também nós fazemos muitas vezes o mesmo. Rezamos a Deus, mas ao mesmo tempo queremos indicar-Lhe aquilo que deveria acontecer. Queremos segui-Lo, mas gostaríamos de ser nós a escolher o caminho.

Jesus inverte esta lógica: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.»

A cruz não significa procurar o sofrimento nem pensar que Deus o deseja. Significa não abandonar o amor quando amar começa a ter um preço.

Não escolhemos tudo aquilo que nos acontece. Não conseguimos evitar todas as perdas, dificuldades ou sofrimentos. Mas permanece uma liberdade fundamental: podemos escolher aquilo que fazemos com aquilo que nos acontece.

É também por isso que São Paulo fala da nossa vida como «sacrifício vivo». O sacrifício cristão não é destruição: é oferta. Cristo não oferece simplesmente alguma coisa. Oferece-Se.

«Não vos conformeis com este mundo» não significa, portanto, fugir dele. Significa não aceitar que o mundo determine completamente aquilo que somos. Significa conservar a liberdade de escolher o bem, de olhar para quem sofre, de não virar a cara, de permanecer fiel e de amar.

Jeremias fala de um fogo.
O salmista fala de sede.
Paulo fala de transformação.
Cristo fala da cruz.

No fundo, todos falam do mesmo caminho: sair de nós próprios para encontrar Deus e o outro.

Porque talvez a vida não se encontre apenas naquilo que conseguimos conservar, mas sobretudo naquilo que fomos capazes de transformar em dom.

Reflexão a partir das leituras do XXII Domingo do Tempo Comum e da homilia do Padre Noé.

Francisco Vaz

30 de agosto de 2026

domingo, 23 de agosto de 2026

Eucaristia — XXI Domingo do Tempo Comum

«E vós, quem dizeis que Eu sou?»

A liturgia deste domingo coloca-nos diante de duas imagens que, à primeira vista, poderiam parecer distintas: a chave e a pergunta. Isaías fala-nos da chave da casa de David, colocada sobre os ombros de Eliacim; o Evangelho apresenta-nos Jesus perguntando aos discípulos: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». A homilia do Padre Tiago ajuda-nos a perceber que ambas convergem numa mesma questão: quem é Jesus para mim e que faço eu da missão que Ele me confia?

Na primeira leitura, do Livro de Isaías, encontramos Sobna, administrador do palácio, a quem Deus anuncia que será destituído. Em seu lugar será chamado Eliacim, filho de Helcias. Deus revesti-lo-á com a túnica, colocar-lhe-á a faixa e confiar-lhe-á a autoridade. Mas há uma expressão particularmente significativa: «ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá».

A autoridade aparece, assim, não como privilégio, mas como responsabilidade. Sobna julgara talvez possuir aquilo que apenas lhe tinha sido confiado. Eliacim, pelo contrário, é apresentado por Deus como «meu servo». Eis a primeira inversão da lógica do mundo: aquele que recebe autoridade não recebe simplesmente pessoas que o sirvam; recebe pessoas a quem deve servir.

É então que surge a imagem decisiva da leitura: «Eu o farei levar aos ombros a chave da casa de David; ele abrirá, e ninguém poderá fechar; ele fechará, e ninguém poderá abrir».

A chave significa poder, mas significa sobretudo responsabilidade. Eliacim pode abrir e fechar, mas não é dono da casa. A casa continua a ser de David. Ele é o administrador.

É precisamente esta imagem que reaparece no Evangelho quando Jesus diz a Pedro: «Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus». Também Pedro não se torna proprietário do Reino. O Reino continua a ser de Deus. Pedro recebe uma missão dentro dele.

Mas antes de lhe entregar as chaves, Jesus faz-lhe uma pergunta.

É neste ponto que a homilia do Padre Tiago nos conduz ao centro da liturgia: «Quem dizem os homens que Eu sou?» E depois, de forma muito mais exigente: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» As primeiras respostas — João Baptista, Elias, Jeremias ou algum dos profetas — dizem alguma coisa verdadeira acerca de Jesus, mas nenhuma chega ao essencial. É Pedro quem responde: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo».

Jesus não faz esta pergunta porque tenha dúvidas acerca da sua identidade. Como sublinhou o Padre Tiago, Jesus sabe quem é e conhece a sua missão. A dificuldade está em nós: somos nós que precisamos de descobrir quem Ele é. E Ele conhece-nos muito mais profundamente do que nós próprios: conhece a nossa história, as nossas memórias, as nossas feridas e capacidades, incluindo aquilo que ainda não conseguimos reconhecer em nós mesmos.

Por isso, a pergunta de Cesareia de Filipe atravessa os séculos e chega até nós:

Quem é Jesus para mim?

Não quem é Jesus para a Igreja, para a teologia, para os historiadores ou para os outros. Quem é Jesus para mim, hoje?

Podemos conhecer o Evangelho, frequentar a Missa, saber o Credo, conhecer os mandamentos e, apesar disso, deixar esta pergunta sem uma verdadeira resposta pessoal. Porque responder «Tu és o Cristo» não significa apenas formular correctamente uma profissão de fé. Significa permitir que essa resposta transforme a vida.

É por isso que, logo depois da profissão de fé, vem a missão.

Pedro reconhece Jesus e Jesus confia-lhe as chaves. A fé não termina no reconhecimento; transforma-se em responsabilidade. A tradição cristã viu justamente nesta passagem o fundamento da missão de Pedro e do ministério do Papa. Mas, como recordava a homilia, o Evangelho não diz respeito apenas a Pedro ou à autoridade da Igreja. Diz respeito também a cada cristão: reconhecer Cristo implica colocar os dons recebidos ao serviço dos outros.

Encontramos aqui a ligação profunda com Isaías.

Todos recebemos alguma chave.

Uns receberam a responsabilidade de uma família. Outros, de uma comunidade. Outros receberam inteligência, capacidade de ensinar, de organizar, de cuidar, de escutar, de criar beleza, de administrar bens ou instituições. Há quem tenha recebido muito e quem julgue ter recebido pouco. Mas ninguém recebeu para guardar exclusivamente para si.

Talvez devamos perguntar: que portas estou a abrir com as chaves que Deus colocou nas minhas mãos?

Porque também podemos utilizá-las para fechar. Podemos fechar portas pela indiferença, pelo orgulho, pela recusa do perdão, pela vontade de dominar ou simplesmente pela omissão. Mas podemos abrir portas através de uma palavra, de um gesto, de uma presença, do conhecimento partilhado, do serviço à comunidade ou da atenção dada a quem ninguém vê.

É aqui que compreendemos a afirmação central da homilia do Padre Tiago: o verdadeiro poder é o serviço. O poder cristão não é domínio, prestígio ou imposição, mas serviço humilde e generoso.

Há, contudo, uma dificuldade. Podemos pensar: não estou preparado. Sou demasiado frágil. Falhei demasiadas vezes.

Também Pedro falhou.

O homem a quem Cristo entrega as chaves será o mesmo que, algumas páginas depois do Evangelho, afirmará três vezes que não conhece Jesus. A pedra terá medo. O homem escolhido vacilará.

E, no entanto, Cristo não desistirá dele.

A homilia recorda precisamente que as fragilidades de Pedro e até a sua negação não anulam definitivamente a missão. Havendo arrependimento e perseverança, é sempre possível regressar ao caminho.

Talvez esteja aqui uma das mais belas mensagens deste domingo. Deus não entrega as suas chaves aos perfeitos. Entrega-as a homens e mulheres frágeis que aceitam confiar n'Ele.

A pergunta inicial regressa então com maior força: «E vós, quem dizeis que Eu sou?»

Se Jesus for apenas uma personagem admirável da história, podemos estudá-Lo. Se for apenas um grande mestre moral, podemos escutá-Lo. Se for apenas um profeta, podemos respeitá-Lo.

Mas se, como Pedro, dissermos verdadeiramente: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo», então já não podemos permanecer exactamente como antes.

Porque reconhecer quem Ele é obriga-nos também a perguntar quem somos nós diante d'Ele.

E talvez descubramos que somos, afinal, administradores e não proprietários: da vida, do tempo, dos talentos, dos bens, das responsabilidades e das pessoas que Deus colocou no nosso caminho.

Isaías dizia que Eliacim receberia a chave da casa de David. Cristo entrega a Pedro as chaves do Reino. E cada um de nós recebeu também pequenas chaves que podem abrir grandes portas.

No fim, talvez Deus não nos pergunte quantas chaves tivemos nas mãos, mas quantas portas abrimos com elas.

A porta de alguém que precisava de ser acolhido.
A porta de alguém que precisava de ser perdoado.
A porta de alguém que precisava de esperança.
A porta de alguém que precisava simplesmente de não ficar sozinho.

E então percebemos que as duas perguntas deste domingo são, no fundo, uma só:

Quem é Jesus para mim — e que estou eu a fazer, por causa d'Ele, com aquilo que me foi confiado?

Porque a profissão de fé de Pedro não termina nas palavras «Tu és o Cristo». Continua numa vida colocada ao serviço. E talvez seja essa a profissão de fé mais difícil e mais verdadeira: transformar os dons, as responsabilidades e as relações de cada dia em oportunidades para abrir aos outros as portas do Reino.

Francisco Vaz

23 de agosto de 2026

domingo, 16 de agosto de 2026

XX Domingo do Tempo Comum

Quando Deus se cala — a fé que atravessa as fronteiras

Há passagens do Evangelho que nos consolam imediatamente. Outras inquietam-nos. O encontro de Jesus com a mulher cananeia, narrado por São Mateus (Mt 15, 21-28), pertence claramente às segundas.

Uma mulher aproxima-se de Jesus desesperada: «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim. Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio». É uma mãe que sofre pelo sofrimento da filha. Não pede para si. Pede por aquela que ama.

E acontece algo desconcertante: Jesus não lhe responde.

A homilia do Padre João Maia, neste XX Domingo do Tempo Comum, chamou justamente a atenção para este silêncio. Porque também nós conhecemos, de alguma maneira, o silêncio de Deus.

Pedimos. Rezamos. Esperamos. Há momentos em que suplicamos por alguém que amamos. E a resposta parece não chegar.

O que fazer quando Deus se cala?

A mulher cananeia oferece-nos uma resposta extraordinária: permanecer.

Não recua perante o silêncio. Aproxima-se ainda mais. Prostra-se diante de Jesus e reduz toda a sua existência a uma das orações mais breves e talvez mais humanas do Evangelho:

«Senhor, socorre-me.»

Já não há discurso. Não há argumentação teológica. Não há explicações. Há apenas uma pessoa, uma dor e uma confiança.

Mas o diálogo torna-se ainda mais difícil.

Jesus responde-lhe que foi enviado «às ovelhas perdidas da casa de Israel» e acrescenta: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos».

A frase perturba-nos. E deve perturbar-nos.

A mulher poderia sentir-se ofendida e partir. Poderia considerar-se rejeitada. Poderia transformar a sua dor em revolta.

Faz precisamente o contrário.

Aceita a imagem utilizada por Jesus e, com uma inteligência espiritual admirável, transforma-a:

«É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos.»

É aqui que tudo muda.

A mulher não exige um lugar à mesa. Não apresenta direitos adquiridos. Não procura demonstrar que pertence à casa de Israel. Apresenta-se simplesmente como é: estrangeira, cananeia, mãe, mulher que sofre e pessoa que acredita.

E parece dizer: se houver para mim apenas uma migalha da tua misericórdia, essa migalha basta.

Então Jesus pronuncia uma das mais belas afirmações dirigidas a alguém nos Evangelhos:

«Mulher, é grande a tua fé. Faça-se como desejas.»

A estrangeira tornou-se exemplo de fé.

A casa de Deus é maior do que imaginamos

É neste ponto que o Evangelho se encontra admiravelmente com a primeira leitura do profeta Isaías:

«A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos.» (Is 56, 7)

Hoje podemos escutar estas palavras sem perceber toda a sua força. Mas, no contexto bíblico, representam uma extraordinária abertura.

A Casa do Senhor era o Templo. E o Templo tinha fronteiras, espaços e pertenças claramente definidos.

Isaías anuncia, porém, algo maior: chegará o tempo em que também os estrangeiros serão conduzidos ao monte santo e encontrarão alegria na casa de Deus.

Não alguns povos.

Todos os povos.

É significativo que o episódio da mulher cananeia aconteça precisamente na região de Tiro e Sidónia, fora do espaço religioso e cultural de Israel. Jesus encontra-se geograficamente na periferia e é precisamente na periferia que surge uma fé extraordinária.

Os discípulos pertencem ao povo eleito. A mulher é estrangeira.

Os discípulos caminham com Jesus. A mulher vem de fora.

Os discípulos conhecem o Mestre. A mulher apenas ouviu falar dele.

E, contudo, é a ela que Jesus diz:

«É grande a tua fé.»

Esta inversão deveria inquietar qualquer cristão demasiado seguro da sua própria pertença.

Podemos estar fisicamente dentro do templo e espiritualmente longe de Deus. E alguém que julgamos estar fora pode encontrar-se extraordinariamente perto d'Ele.

Quando a oração deixa de ser uma exigência

Há ainda outra dimensão profundamente humana nesta passagem.

A mulher começa por pedir uma cura. Mas, ao longo do encontro, acontece algo mais profundo: a sua relação com Cristo transforma-se.

Primeiro grita à distância.

Depois aproxima-se.

Finalmente prostra-se.

Há quase um itinerário espiritual nesta sequência:

gritar — esperar — aproximar-se — prostrar-se — confiar.

Talvez a oração amadureça precisamente assim.

Começamos muitas vezes por pedir a Deus que transforme determinada realidade. Queremos uma resposta, uma solução, uma cura, uma mudança.

E isso é profundamente humano.

Mas pode chegar um momento em que a oração deixa de significar apenas «Senhor, dá-me aquilo que te peço» e passa a significar algo muito mais radical:

«Senhor, mesmo sem compreender, permaneço diante de Ti.»

É então que a fé deixa de ser apenas esperança numa intervenção de Deus e se torna confiança no próprio Deus.

A mulher cananeia atravessou essa fronteira.

As fronteiras de Deus

Talvez seja esta a grande provocação das leituras deste domingo.

Os seres humanos constroem fronteiras com enorme facilidade: entre povos, religiões, culturas, classes sociais, nacionais e estrangeiros, dignos e indignos, incluídos e excluídos.

Depois corremos um risco ainda maior: imaginar que Deus respeita as fronteiras que nós próprios construímos.

Isaías anuncia precisamente o contrário.

«A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos.»

E Jesus encontra uma das maiores expressões de fé precisamente numa mulher estrangeira.

O cristianismo nasce desta extraordinária abertura: Deus não pertence a um povo. Deus não é propriedade de uma cultura. Deus não cabe dentro das nossas classificações.

Somos nós que pertencemos a Deus.

E talvez por isso a mulher cananeia continue, dois mil anos depois, a ensinar-nos o que significa acreditar.

Acreditar quando recebemos resposta é relativamente fácil.

Acreditar quando Deus permanece silencioso é outra coisa.

É continuar a aproximar-se.

É permanecer diante d'Ele.

É aceitar que talvez não compreendamos.

É reconhecer humildemente que uma migalha da misericórdia de Deus vale mais do que todas as certezas que construímos sobre nós próprios.

E descobrir, finalmente, que na mesa de Deus aquilo que julgávamos serem apenas migalhas pode afinal revelar a abundância infinita do Amor.

Porque a casa de Deus só pode ser verdadeiramente a casa de Deus quando nela há lugar para todos.

Francisco Vaz

16 de agosto de 2026