Coro de Cristo-Rei da Portela
«No princípio era a palavra» «No princípio era a música» «A música estava junto a Deus, a música era Deus» (Sal 33, 6-9; Sab 9,1; Sir 42,15)
CORO
quinta-feira, 25 de junho de 2026
Êthos: Uma visita a Milão
sexta-feira, 5 de junho de 2026
A dimensão litúrgica do Coro
Momentos da liturgia | ||
"A liturgia, como exercício da função sacerdotal de Cristo, comporta um duplo movimento: de Deus aos homens, para operar a sua santificação, e dos homens a Deus, para que eles possam adorá-lo em espírito e verdade." | ||
Por isso a liturgia, de um modo geral, pode ser entendida como um diálogo entre o Deus-Trindade e o Homem-Comunidade. Este diálogo é composto de vários momentos. Cada momento tem o seu "espírito" próprio, seu sentimento peculiar, e portanto uma expressão diferenciada. Ninguém pede perdão de forma triunfal, nem dá um Viva tímido. Cada momento da liturgia exige um tipo de expressão musical. Sem conhecer o espírito de cada momento do diálogo litúrgico, corremos o risco de dar um Viva tão tímido que ninguém se sinta estimulado a responder. | ||
Cada Música da Celebração Eucarística tem seu papel e Inspiração própria de cada momento litúrgico dentro da celebração. Estes momentos são os seguintes: | ||
1. Ritos iniciais | ||
Preparação | ||
É um momento que foi esquecido durante algum tempo e agora está voltando ao uso. Enquanto alguns "acolhem" os irmãos que estão chegando para a festa da Eucaristia, o maestro do coro pode preencher o ambiente com um solo instrumental. Alguns, neste momento costumam ensaiar as canções que farão parte da celebração. Pode-se também colocar um disco de meditação, ou das músicas que se irá ensaiar. O importante é criar um ambiente de vida, pois é Cristo, Verdade e Vida, que iremos celebrar. | ||
Entrada | ||
Toda a assembleia, unida em uma só voz, canta a alegria festiva de reunir-se como irmãos em torno do Cristo. Esta canção deve deixar claro para toda a assembleia, que festa, ou mistério do Tempo Litúrgico (A segunda "perna" do tripé litúrgico") iremos celebrar. Toda a assembleia deverá ser envolvida na execução deste cântico. | ||
A primeira impressão sempre marca todo o relacionamento. Assim também o canto inicial marcará toda a celebração. | ||
Os instrumentos terão a função de unir, incentivar e apoiar o canto. Não deverão cobrir as vozes dificultando a compreensão do texto. Ninguém participa de uma celebração para ser admirado, ou para aumentar seu prestígio na comunidade. "Tocar na Missa" é um serviço e uma oração. Todo este canto como a procissão do sacerdote não deverão ser demasiado longas. O canto deve terminar quando o sacerdote chega ao altar. | ||
Acto Penitencial | ||
Neste canto aclamamos a Cristo como "Nosso Senhor" e lhe pedimos perdão. É um canto de repouso. Sua melodia deve traduzir a contrição de quem pede perdão. Toda a assembleia deve participar deste canto, mas admite-se um diálogo solista-assembleia. | ||
Não é necessário que este canto seja muito "Florido". A simplicidade é a melhor forma de expressar o arrependimento. O instrumentista deve traduzir este espírito de confiança e invocação acompanhado de modo suave, quase imperceptível. Para isto pode-se até excluir a percussão deste momento. | ||
Glória | ||
Esta é a canção da alegria, o canto que os anjos e pastores cantaram para saudar o nascimento do redentor (cf. Lc 2,14). Desde o século IV que os cristãos cantam. Houve uma época que só os bispos o podiam cantar. Hoje recomenda-se que toda assembleia cante o "glória" com ânimo e alegria. | ||
Este canto é excluído no advento e na quaresma, nos outros tempos deve ser executado e de preferência "Cantado". Não é bom que seja parte exclusiva do coral. Este poderá cantá-lo em diálogo com o povo. | ||
O glória "não constitui uma aclamação trinitária", Mas deve ser antes de tudo uma manifestação da louvor a Deus-Pai e ao Cordeiro. | ||
Os instrumentos têm papel importantíssimo neste canto. A percussão poderá ser bem explorada. É claro que a "parte não deverá sobressair em detrimento do todo", mas neste canto os instrumentos poderão destacar-se um pouco mais. | ||
II - Liturgia da Palavra | ||
Salmo Responsorial | ||
Dentro do diálogo litúrgico, este canto é a resposta da assembléia ao Deus que falou na primeira leitura. Como diz o próprio nome, trata-se de um salmo, no entanto admite-se também um canto de meditação, contanto que seja de origem bíblica e signifique uma resposta coerente com a proposta divina expressa na primeira leitura. | ||
Pode ser executado por um solista nas estrofes com a adesão de toda a assembleia no refrão. O acompanhamento dos instrumentos deve ser discreto, exceto quando o salmo for festivo e acompanhado por todo o povo. | ||
Aclamação ao Evangelho | ||
Geralmente (menos no advento e na quaresma) a aclamação mais usada é o Aleluia, seguido de uma pequena estrofe que prepara a leitura do Evangelho. Não é um canto obrigatório mas sendo executado, é preciso que seja uma aclamação pessoal e comunitária ao Verbo de Deus . Ao contrário do Salmo, este canto permite movimento e participação vibrante dos instrumentos. Poderá haver solista, mas o Aleluia deverá ser cantado por toda a assembleia. | ||
Depois da Homilia | ||
Em missas com crianças, ou em outras celebrações onde a reflexão silenciosa seja difícil, pode ser entoado um cântico, no estilo do Salmo Responsorial, que venha a trazer uma manifestação em sintonia com o tema do evangelho. | ||
Profissão de Fé | ||
O Creio é uma resposta de fé e de compromisso da comunidade e do indivíduo à palavra de Deus. Nele recordamos toda a história da salvação. Por isso não convém a utilização de formas abreviadas que sejam profissão de fé, mas que não resumam a fé cristã. Quando cantada, deve contar com a participação de toda a assembleia. No entanto pela estrutura rítmica da letra, isso se torna muito difícil. Uma opção seria cantar um refrão popular, entre uma recitação e outra do Creio. | ||
Oração dos Fiéis | ||
Esta oração poderá adquirir um tom mais solene quando cantada. As invocações devem ser executadas por um solista, ao que o povo responde cantando. Aqui a participação dos instrumentistas é suavíssima e até dispensável, podendo ser usado apenas o teclado com som de órgão. | ||
III - Liturgia Eucarística | ||
Preparação das oferendas | ||
Este é um dos cantos menos importantes da missa. Neste momento preparamo-nos para oferecer ao Pai, o Cristo "ao qual nos unimos oferecendo as nossas vidas, o nosso corpo como culto espiritual agradável a Deus". Portanto, o grande ofertório da missa é após a consagração quando já não oferecemos o pão, o vinho, nossa vida, nosso trabalho, mas o próprio Cristo e todo o resto transfigurado "Por Ele, com Ele e n’Ele". | ||
Durante o canto de ofertório normalmente também ocorre a coleta , momento em que colocamos um pouco do que é nosso em comum. Portanto o objetivo do canto "de ofertório" é criar uma atmosfera de alegria, partilha e generosidade. Pode-se dispensar o canto e os instrumentos fazerem um solo apropriado para o momento litúrgico. Ou ainda participar com um canto de oferta que o povo não conheça, desde que este não venha a distrair a atenção da assembleia. | ||
Oração Eucarística | ||
Tanto o diálogo introdutório, como o prefácio e demais orações podem ser cantados e dependendo da sintonia entre músicos e celebrante, podem ser acompanhadas pelos instrumentos. Desde que o celebrante ache conveniente. | ||
Santo | ||
É dos canto principais, se não o principal, da liturgia. Nele toda a assembleia se une aos anjos e santos para proclamar as maravilhas do Deus Uno e Trino. É o primeiro canto em ordem de importância. É o canto dos anjos (Is 6,2s) e também dos homens (Lc 19,38). Não teria sentido convidar os céus e a terra, os anjos e os santos para cantar em uma só voz, e depois somente um coral ou um solista executar o canto. Este é essencialmente um canto da assembleia. É desejavel a participação dos instrumentos para solenizar esta vibrante saudação: SANTO, SANTO, SANTO! | ||
Aclamações em particular | ||
Há uma série de aclamações durante a celebração eucarística que poderia ser cantadas. A Oração Eucarística para missas com crianças, ou sobre a Reconciliação, o "Amém" poderia ser cantado muitas vezes, especialmente depois da doxologia (Por Cristo, com Cristo e em Cristo ...) que é o grande amém da missa.. Durante a consagração é melhor o silêncio, nem mesmo solos devem distrair a atenção da assembleia naquele momento. Pode-se cantar sim a aclamação após a consagração (Eis o mistério da fé ...). | ||
Pai-nosso | ||
O Pai-nosso cantado por toda a assembleia tem grande força e significado. É um dos grandes pontos da Missa, exprimindo de modo maravilhoso a comunhão entre os irmãos. Se não for cantado por todos, é preferível que seja recitado. Os instrumentos têm papel de sustentação, evitando distrair a atenção da oração. | ||
Abraço da paz | ||
Pode cantar-se uma canção alegre cuja letra lembre fraternidade e caridade como fundamento da vida cristã. Deverá ser uma melodia contagiante. Entretanto não é essencial que a assembleia cante. | ||
Cordeiro de Deus | ||
Esta prece, de origem Bíblica (Jo 1,29), faz alusão ao Cordeiro Pascal, que se imola e tira o pecado do mundo. Pode ser cantado pelo coral ou solista, mas a assembleia deve participar da última petição: dai-nos a paz. | ||
Comunhão | ||
É o canto mais antigo da missa. Por ele, através da união das vozes, queremos expressar nossa comum-união espiritual em torno de Jesus Cristo. Todos ao redor da mesma mesa, congregados numa mesma igreja, participam do mesmo pão. A função do canto de comunhão é alinhavar esta união. | ||
É comum escutarmos que se deveria fazer silêncio durante a comunhão para que um pudesse se entreter num encontro pessoal com Cristo. Ë certo que a comunhão dos Cristãos é um ato pessoal, mas deve manifestar-se através de um ato comunitário. E o canto de comunhão deve propiciar esta manifestação de comunidade. Por isso toda a assembleia deve participar entusiasticamente deste canto. | ||
O Silêncio Eucarístico necessário ao encontro e oração pessoal com Cristo se dá no próximo momento. | ||
Ação de Graças | ||
Após a comunhão a assembleia, em silêncio, adora e agradece a presença do Cristo Eucarístico. Após este breve silêncio pode-se cantar um salmo ou outro canto de louvor ou de ação de graças. Este canto não pode e não deve excluir o momento de silêncio após a comunhão. | ||
É preferível que este canto seja breve e executado por todos. Por isso, também para os instrumentos, não convém longas introduções e interlúdios. É preciso que o maestro tenha a devida sensibilidade e discernimento para saber se este canto é conveniente em tal momento. Evite-se o canto de ação de graças quando a celebração já estiver por demais prolongada | ||
IV - Ritos Finais | ||
Canto Final | ||
Antes da benção entoa-se uma ou duas estrofes de um canto alegre e que cause a última impressão que se irá levar da celebração. Pode ser executado com maestria, porém não deve ser muito prolongado. Um costume muito comum, é o de se aproveitar este canto final para fazer uma homenagem a Maria, mãe de Deus e nossa. | ||
Após a benção pode-se continuar as demais estrofes do canto final, sem a necessidade da participação da assembleia. Utilizem-se todos os recursos disponíveis para que este encerramento crie a predisposição para o povo retornar à Festa Eucarística. | ||
Adaptado de www.cantemos.com.br
quarta-feira, 3 de junho de 2026
Da Rerum Novarum à Magnifica Humanitas
a civilização do amor perante a cultura do poder
Ao ler a primeira encíclica de Leão XIV, Magnifica Humanitas, torna-se evidente a razão profunda da escolha do seu nome pontifício. Ao escolher o nome de Leão XIV, Robert Francis Prevost parece evocar deliberadamente a figura de Vincenzo Gioacchino Pecci, o Papa Leão XIII, que enfrentou os desafios sociais e humanos da Revolução Industrial através da histórica encíclica Rerum Novarum (1891).
No final do século XIX, a humanidade encontrava-se mergulhada numa profunda transformação provocada pela Revolução Industrial. As novas máquinas multiplicavam a produção, criavam riqueza e inauguravam um mundo de possibilidades inéditas. Porém, o progresso técnico não era acompanhado por um progresso equivalente na ordem moral e social. Milhões de trabalhadores viviam em condições indignas, submetidos a jornadas extenuantes, salários miseráveis e ausência de proteção social. O capitalismo industrial, entregue a si próprio, tendia a transformar o trabalhador num simples instrumento de produção.
Foi nesse contexto que Leão XIII ergueu a sua voz. A Rerum Novarum não constituiu apenas uma denúncia das injustiças do seu tempo; representou uma afirmação vigorosa da dignidade da pessoa humana contra todas as formas de redução do homem a objeto económico. Ao fazê-lo, inaugurou aquilo que viria a ser conhecido como Doutrina Social da Igreja, hoje mais frequentemente designado por Pensamento Social Cristão.
Mais de um século depois, Leão XIV parece reconhecer um paralelismo histórico. A revolução industrial deu lugar à revolução digital. Os motores a vapor foram substituídos pelos algoritmos, pela inteligência artificial, pelas plataformas digitais e pelas redes globais de comunicação. Tal como no século XIX, as novas tecnologias prometem benefícios extraordinários. Contudo, também hoje emergem novas formas de desigualdade, de controlo e de alienação.
A grande questão já não é apenas a exploração do corpo humano, mas também a colonização da consciência, da atenção e da própria identidade. O ser humano corre o risco de ser reduzido a dados, perfis estatísticos, consumidor previsível ou recurso manipulável por sistemas tecnológicos cada vez mais poderosos. A desumanização assume novas formas, mas conserva a mesma raiz: esquecer que a pessoa humana possui uma dignidade que não pode ser medida pela utilidade, pela eficiência ou pelo poder.
É precisamente nesta perspetiva que ganha especial significado o primeiro número da encíclica. Leão XIV apresenta a humanidade diante de uma escolha decisiva: construir uma nova Babel ou edificar uma cidade onde Deus e a humanidade habitem juntos.
A referência à Torre de Babel é particularmente sugestiva. Na narrativa bíblica, Babel simboliza a tentação permanente do ser humano de alcançar o poder absoluto através das suas próprias capacidades, dispensando qualquer referência a uma verdade superior ou a uma ordem moral transcendente. O problema não era a construção em si, mas a pretensão de domínio que a inspirava.
Também a nossa época conhece essa tentação. A tecnologia oferece ao homem um poder sem precedentes sobre a natureza, sobre a informação e até sobre a própria vida humana. Nunca houve tantos meios para controlar, vigiar, influenciar ou destruir. O risco consiste em confundir poder com sabedoria, capacidade técnica com legitimidade moral, progresso científico com progresso humano.
Esta lógica manifesta-se igualmente na persistência da guerra como instrumento de afirmação política. Apesar dos avanços científicos e tecnológicos, continuamos a assistir a conflitos devastadores, à corrida armamentista e à utilização crescente da tecnologia para fins militares. A inteligência artificial, concebida para ampliar as capacidades humanas, pode também ser utilizada para aperfeiçoar mecanismos de vigilância, manipulação e destruição.
A cultura do poder funda-se precisamente nesta convicção: a segurança nasce da força, a ordem nasce da dominação e o futuro pertence aos mais fortes. É uma visão da história construída sobre a competição permanente, sobre a lógica do vencedor e do vencido, sobre a instrumentalização do outro.
Em contraste, a encíclica propõe aquilo que a tradição cristã designa como civilização do amor. Expressão particularmente desenvolvida por João XXIII e Paulo VI, os papas do Concílio, e pelos papas que os sucederam, ela não representa uma utopia sentimental, mas uma verdadeira alternativa antropológica e política.
A civilização do amor assenta na convicção de que a pessoa humana é sempre um fim e nunca um meio. O seu fundamento não é o domínio, mas a relação; não é a imposição, mas o encontro; não é a força, mas a dignidade. Nela, o desenvolvimento tecnológico encontra o seu sentido ao serviço da pessoa; a economia orienta-se para o bem comum; a política torna-se espaço de construção da justiça; e a cultura promove o reconhecimento mútuo entre seres humanos.
A afirmação central da encíclica — “o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente” — aponta precisamente para esta visão. Em Cristo, Deus não se apresenta como poder que domina, mas como amor que se oferece. A encarnação constitui a negação radical de toda a lógica de desumanização. Deus não salva a humanidade através da força, mas através da proximidade; não através da imposição, mas através da comunhão.
A verdadeira alternativa do nosso tempo talvez não seja entre tecnologia e tradição, nem entre progresso e conservação. A escolha decisiva é outra: colocar o poder ao serviço da pessoa ou sacrificar a pessoa ao poder. É esta a nova questão social que Leão XIV parece identificar.
Tal como Leão XIII falou à humanidade industrial, Leão XIV procura falar à humanidade digital. Ambos recordam a mesma verdade fundamental: nenhuma sociedade será verdadeiramente justa se esquecer que cada ser humano possui uma dignidade inviolável. E nenhuma civilização sobreviverá se trocar a cultura do amor pela cultura do poder.
Perante a nova Babel tecnológica, a Magnifica Humanitas apresenta-se assim como um convite a reconstruir o humano, não contra o progresso, mas orientando-o para aquilo que verdadeiramente o justifica: a promoção da dignidade, da justiça, da fraternidade e da paz.
Francisco Vaz
30 de Maio de 2026