a primeira condição do bom governo
«Porque foi este o teu pedido, e já que não pediste longa vida, nem riqueza, nem a morte dos teus inimigos, mas sabedoria para praticar a justiça, vou satisfazer o teu desejo. Dou-te um coração sábio e esclarecido...» (1 Rs 3, 11-12)
Entre todas as páginas da Sagrada Escritura sobre o exercício do poder, poucas são tão atuais como o diálogo entre Deus e Salomão. O jovem rei podia ter pedido riqueza, uma vida longa ou a derrota dos seus inimigos. Em vez disso, pede um coração sábio para governar com justiça.
A Bíblia ensina-nos, assim, que o maior problema da política nunca foi a falta de poder, mas a falta de sabedoria.
Na linguagem bíblica, o coração é o centro da pessoa: inteligência, vontade, consciência e liberdade. Quando Deus promete a Salomão um «coração sábio», não lhe concede apenas maior inteligência; transforma interiormente a pessoa para que seja capaz de discernir a verdade e agir segundo o bem.
O Evangelho deste domingo completa esta mensagem com as parábolas do tesouro escondido e da pérola preciosa. Jesus revela que o verdadeiro tesouro é o Reino de Deus. Quem o encontra passa a ordenar toda a sua vida a partir dele.
Na sua homilia, D. Manuel Clemente recordava precisamente que o Reino de Deus não é apenas uma realidade futura. Começa quando a nossa vontade se deixa conformar pela vontade de Deus. É essa conversão interior que permite olhar para todas as coisas segundo a verdade e não segundo o interesse próprio.
É exatamente isso que faz Salomão. Antes de querer possuir um reino, procura viver segundo o Reino de Deus.
A tradição cristã aprofundou esta intuição através das quatro virtudes cardeais: prudência, justiça, fortaleza e temperança. A prudência permite discernir o verdadeiro bem; a fortaleza dá a coragem para o realizar; a temperança impede que as paixões e a ambição dominem o coração; e a justiça manifesta-se na relação com os outros, dando a cada um o que lhe é devido. Não são virtudes isoladas: completam-se mutuamente e tornam possível uma ação verdadeiramente justa.
Jacques Maritain lembrava que a política não é apenas uma técnica de governo. É, antes de tudo, uma atividade moral orientada para o bem comum. Nenhuma instituição, nenhuma lei e nenhuma democracia conseguem substituir a virtude daqueles que governam. A qualidade de um regime político depende, em última análise, da qualidade moral das pessoas que exercem a autoridade.
Esta lição não se dirige apenas aos governantes. Todos exercemos alguma forma de autoridade: na família, na educação, no trabalho, na Igreja ou na sociedade. Todos somos diariamente chamados a escolher entre o poder e o serviço, entre o interesse próprio e o bem comum, entre a verdade e a conveniência.
Num tempo em que se deposita uma confiança quase ilimitada na técnica, nos algoritmos e na eficiência, a liturgia recorda-nos uma verdade essencial: uma sociedade justa não nasce apenas de boas leis, mas de homens e mulheres de coração sábio.
Talvez esta seja a oração mais necessária para o nosso tempo. Não pedir mais riqueza, mais poder ou a derrota dos nossos adversários, mas pedir, como Salomão, um coração suficientemente humilde para procurar a vontade de Deus e suficientemente sábio para a transformar em justiça.
Porque é no coração que começa o Reino de Deus. E é também no coração que começa o bom governo.
Francisco Vaz
26 de julho de 2026