CORO

CORO

domingo, 16 de agosto de 2026

XX Domingo do Tempo Comum

Quando Deus se cala — a fé que atravessa as fronteiras

Há passagens do Evangelho que nos consolam imediatamente. Outras inquietam-nos. O encontro de Jesus com a mulher cananeia, narrado por São Mateus (Mt 15, 21-28), pertence claramente às segundas.

Uma mulher aproxima-se de Jesus desesperada: «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim. Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio». É uma mãe que sofre pelo sofrimento da filha. Não pede para si. Pede por aquela que ama.

E acontece algo desconcertante: Jesus não lhe responde.

A homilia do Padre João Maia, neste XX Domingo do Tempo Comum, chamou justamente a atenção para este silêncio. Porque também nós conhecemos, de alguma maneira, o silêncio de Deus.

Pedimos. Rezamos. Esperamos. Há momentos em que suplicamos por alguém que amamos. E a resposta parece não chegar.

O que fazer quando Deus se cala?

A mulher cananeia oferece-nos uma resposta extraordinária: permanecer.

Não recua perante o silêncio. Aproxima-se ainda mais. Prostra-se diante de Jesus e reduz toda a sua existência a uma das orações mais breves e talvez mais humanas do Evangelho:

«Senhor, socorre-me.»

Já não há discurso. Não há argumentação teológica. Não há explicações. Há apenas uma pessoa, uma dor e uma confiança.

Mas o diálogo torna-se ainda mais difícil.

Jesus responde-lhe que foi enviado «às ovelhas perdidas da casa de Israel» e acrescenta: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos».

A frase perturba-nos. E deve perturbar-nos.

A mulher poderia sentir-se ofendida e partir. Poderia considerar-se rejeitada. Poderia transformar a sua dor em revolta.

Faz precisamente o contrário.

Aceita a imagem utilizada por Jesus e, com uma inteligência espiritual admirável, transforma-a:

«É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos.»

É aqui que tudo muda.

A mulher não exige um lugar à mesa. Não apresenta direitos adquiridos. Não procura demonstrar que pertence à casa de Israel. Apresenta-se simplesmente como é: estrangeira, cananeia, mãe, mulher que sofre e pessoa que acredita.

E parece dizer: se houver para mim apenas uma migalha da tua misericórdia, essa migalha basta.

Então Jesus pronuncia uma das mais belas afirmações dirigidas a alguém nos Evangelhos:

«Mulher, é grande a tua fé. Faça-se como desejas.»

A estrangeira tornou-se exemplo de fé.

A casa de Deus é maior do que imaginamos

É neste ponto que o Evangelho se encontra admiravelmente com a primeira leitura do profeta Isaías:

«A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos.» (Is 56, 7)

Hoje podemos escutar estas palavras sem perceber toda a sua força. Mas, no contexto bíblico, representam uma extraordinária abertura.

A Casa do Senhor era o Templo. E o Templo tinha fronteiras, espaços e pertenças claramente definidos.

Isaías anuncia, porém, algo maior: chegará o tempo em que também os estrangeiros serão conduzidos ao monte santo e encontrarão alegria na casa de Deus.

Não alguns povos.

Todos os povos.

É significativo que o episódio da mulher cananeia aconteça precisamente na região de Tiro e Sidónia, fora do espaço religioso e cultural de Israel. Jesus encontra-se geograficamente na periferia e é precisamente na periferia que surge uma fé extraordinária.

Os discípulos pertencem ao povo eleito. A mulher é estrangeira.

Os discípulos caminham com Jesus. A mulher vem de fora.

Os discípulos conhecem o Mestre. A mulher apenas ouviu falar dele.

E, contudo, é a ela que Jesus diz:

«É grande a tua fé.»

Esta inversão deveria inquietar qualquer cristão demasiado seguro da sua própria pertença.

Podemos estar fisicamente dentro do templo e espiritualmente longe de Deus. E alguém que julgamos estar fora pode encontrar-se extraordinariamente perto d'Ele.

Quando a oração deixa de ser uma exigência

Há ainda outra dimensão profundamente humana nesta passagem.

A mulher começa por pedir uma cura. Mas, ao longo do encontro, acontece algo mais profundo: a sua relação com Cristo transforma-se.

Primeiro grita à distância.

Depois aproxima-se.

Finalmente prostra-se.

Há quase um itinerário espiritual nesta sequência:

gritar — esperar — aproximar-se — prostrar-se — confiar.

Talvez a oração amadureça precisamente assim.

Começamos muitas vezes por pedir a Deus que transforme determinada realidade. Queremos uma resposta, uma solução, uma cura, uma mudança.

E isso é profundamente humano.

Mas pode chegar um momento em que a oração deixa de significar apenas «Senhor, dá-me aquilo que te peço» e passa a significar algo muito mais radical:

«Senhor, mesmo sem compreender, permaneço diante de Ti.»

É então que a fé deixa de ser apenas esperança numa intervenção de Deus e se torna confiança no próprio Deus.

A mulher cananeia atravessou essa fronteira.

As fronteiras de Deus

Talvez seja esta a grande provocação das leituras deste domingo.

Os seres humanos constroem fronteiras com enorme facilidade: entre povos, religiões, culturas, classes sociais, nacionais e estrangeiros, dignos e indignos, incluídos e excluídos.

Depois corremos um risco ainda maior: imaginar que Deus respeita as fronteiras que nós próprios construímos.

Isaías anuncia precisamente o contrário.

«A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos.»

E Jesus encontra uma das maiores expressões de fé precisamente numa mulher estrangeira.

O cristianismo nasce desta extraordinária abertura: Deus não pertence a um povo. Deus não é propriedade de uma cultura. Deus não cabe dentro das nossas classificações.

Somos nós que pertencemos a Deus.

E talvez por isso a mulher cananeia continue, dois mil anos depois, a ensinar-nos o que significa acreditar.

Acreditar quando recebemos resposta é relativamente fácil.

Acreditar quando Deus permanece silencioso é outra coisa.

É continuar a aproximar-se.

É permanecer diante d'Ele.

É aceitar que talvez não compreendamos.

É reconhecer humildemente que uma migalha da misericórdia de Deus vale mais do que todas as certezas que construímos sobre nós próprios.

E descobrir, finalmente, que na mesa de Deus aquilo que julgávamos serem apenas migalhas pode afinal revelar a abundância infinita do Amor.

Porque a casa de Deus só pode ser verdadeiramente a casa de Deus quando nela há lugar para todos.

Francisco Vaz

16 de agosto de 2026

Eugénio Fonseca, a caridade como compromisso com a justiça

In memoriam — homenagem a um homem que fez da defesa dos mais pobres uma forma de viver o Evangelho

Entre 2015 e 2018, tive o privilégio de acompanhar Eugénio Fonseca na Direção da Cáritas Portuguesa. Esse tempo permitiu-me conhecer, para além do dirigente e do homem público, uma pessoa profundamente comprometida com o bem, inteiramente dedicada aos mais pobres e sempre inconformada perante as situações que feriam a dignidade humana.

Eugénio Fonseca não se limitava a conhecer a pobreza através de relatórios, estatísticas ou indicadores económicos. Procurava conhecê-la nos rostos, nas histórias e nas circunstâncias concretas das pessoas. Vivia e sentia o sofrimento dos mais desfavorecidos. A pobreza, para ele, nunca foi uma abstração sociológica: tinha um nome, uma família, uma casa, uma história de abandono e, tantas vezes, uma esperança quase perdida.

A sua dedicação a fazer o bem possuía uma dimensão profundamente cristã. Entendia a caridade como proximidade, escuta e resposta concreta, mas também como exigência de justiça. Sabia que ajudar uma pessoa a ultrapassar uma necessidade imediata constitui um dever; transformar as condições que produzem e perpetuam essa necessidade constitui uma responsabilidade de toda a sociedade.

Foi esta convicção que fez dele um defensor incansável de uma comunidade mais solidária e justa. Para Eugénio Fonseca, a solidariedade ultrapassava o gesto ocasional ou a emoção passageira. Era um compromisso permanente com a construção do bem comum. Exigia responsabilidade pessoal, participação das instituições, mobilização da sociedade civil e políticas públicas orientadas para a promoção integral de cada ser humano.

Mantinha uma confiança firme na capacidade do poder político para melhorar as condições de vida das populações. Considerava o Estado um instrumento decisivo na concretização da justiça social. Essa convicção estava longe de significar assistencialismo ou dependência. Pelo contrário, defendia políticas capazes de empoderar as pessoas, desenvolver as suas capacidades e proporcionar-lhes os meios necessários para recuperarem a autonomia.

Não pretendia apenas retirar alguém de uma dificuldade momentânea. Queria criar condições para que cada pessoa pudesse reconstruir a própria vida, participar na comunidade e assumir o seu destino com liberdade e responsabilidade. A verdadeira política social, na sua perspetiva, deveria transformar o beneficiário numa pessoa plenamente reconhecida como sujeito da sua existência e participante ativo na sociedade.

Por isso, atribuiu sempre uma importância central ao trabalho digno e ao salário justo. O trabalho representava, para ele, muito mais do que uma fonte de rendimento. Era uma dimensão fundamental da realização humana, da integração social e da participação no bem comum. Um emprego precário, um salário insuficiente ou condições laborais injustas constituíam formas de desvalorização da pessoa e de enfraquecimento da própria democracia.

Defender um salário justo significava reconhecer que o trabalhador possui uma família, responsabilidades, aspirações e direito a uma vida digna. Uma sociedade que aceita que alguém trabalhe e permaneça na pobreza contradiz o princípio elementar segundo o qual a economia deve servir a pessoa. Eugénio Fonseca compreendia bem esta verdade central do pensamento social cristão: o ser humano deve ocupar o centro da vida económica, política e social.

Foi também um grande impulsionador do estudo e da divulgação da Doutrina Social da Igreja, hoje mais amplamente designada por Pensamento Social Cristão. Esta expressão sublinha que estamos perante um pensamento vivo, aberto ao diálogo e em permanente aprofundamento, capaz de iluminar os problemas do presente e de estabelecer uma relação fecunda entre a fé, a dignidade humana, a justiça, a economia, o trabalho e a responsabilidade política. Eugénio Fonseca sabia que a ação precisa de fundamentos e que a boa vontade, embora indispensável, carece de reflexão, conhecimento e discernimento.

Para ele, estudar o Pensamento Social Cristão significava preparar a ação. As encíclicas, os documentos da Igreja e a reflexão dos grandes pensadores sociais cristãos deviam descer das estantes, entrar no debate público e inspirar decisões concretas. A fé, quando verdadeiramente vivida, manifesta-se na forma como tratamos aqueles que a sociedade empurra para as margens.

A sua ação à frente da Confederação Portuguesa do Voluntariado prolongou esta mesma visão. Eugénio Fonseca reconhecia no voluntariado uma extraordinária escola de cidadania e de humanidade. Via nele uma expressão da liberdade orientada para o serviço: pessoas que oferecem tempo, competências e presença para cuidar dos outros e fortalecer a comunidade. Ao mesmo tempo, compreendia que o voluntariado complementa a responsabilidade pública e desperta a consciência coletiva; jamais poderia servir de pretexto para o recuo das obrigações sociais do Estado.

Toda a sua vida foi, assim, atravessada por uma coerência profunda entre pensamento, fé e ação. Estudava para compreender melhor, compreendia para agir com maior justiça e agia porque reconhecia em cada pessoa a dignidade inviolável de um filho de Deus.

A morte de Eugénio Fonseca deixa um vazio nas instituições que serviu, na Igreja portuguesa, no movimento do voluntariado e entre todos aqueles que com ele trabalharam. Deixa também um legado exigente. Recordá-lo significa perguntar o que estamos dispostos a fazer pelos que vivem na pobreza, pelos trabalhadores que recebem salários insuficientes, pelas famílias privadas de condições dignas e por todos aqueles cuja voz raramente alcança os lugares onde se decide.

A homenagem mais verdadeira consistirá em prosseguir esse combate: transformar a compaixão em compromisso, a solidariedade em justiça e a indignação em políticas capazes de libertar e dignificar.

Guardo com gratidão os anos em que partilhei com Eugénio Fonseca responsabilidades na Direção da Cáritas Portuguesa. Recordo a sua determinação, a sua capacidade de trabalho, a sua proximidade aos mais frágeis e a fidelidade a uma convicção que orientou toda a sua vida: nenhuma sociedade pode considerar-se verdadeiramente desenvolvida enquanto aceitar que alguns dos seus membros vivam em condições indignas.

Eugénio Fonseca partiu, mas permanece o seu testemunho. Permanece em cada pessoa que ajudou, em cada instituição que fortaleceu, em cada voluntário que mobilizou e em cada consciência que despertou. Permanece, sobretudo, no apelo que a sua vida nos dirige: olhar os pobres como irmãos, defender a dignidade como princípio e fazer do bem uma responsabilidade quotidiana.

Que o Senhor acolha Eugénio Fonseca na Sua paz. E que a memória da sua vida nos dê coragem para continuar a construir a sociedade solidária, justa e fraterna pela qual incansavelmente trabalhou.

Francisco Vaz

16 de agosto de 2026

Nota: Os principais dados do percurso institucional de Eugénio Fonseca foram confirmados nas homenagens publicadas pela Presidência da República⁠ e pela Agência Ecclesia⁠.


Conhecer Deus sem O possuir

Entre a pretensão da gnose e a desistência do agnosticismo

No cristianismo, conhecer Deus é possível; esgotar o seu mistério, impossível. Esta tensão não representa uma deficiência da inteligência humana nem uma contradição da fé. Constitui, pelo contrário, a condição própria de uma relação entre o ser humano, finito e criado, e Deus, infinito e criador.

A criação é a primeira manifestação de Deus. A existência do universo, a sua inteligibilidade, a ordem da natureza, a beleza, a consciência moral e a capacidade humana de procurar a verdade apontam para uma origem que os transcende. A razão pode percorrer esse caminho e reconhecer que a realidade não encontra em si mesma a explicação última para a sua existência. O mundo fala de Deus, mas não é Deus. Revela vestígios do Criador, sem O conter.

A Revelação leva este conhecimento mais longe. Deus não permanece apenas como fundamento metafísico intuído pela inteligência. Dá-se a conhecer na história, dirige-se ao ser humano e estabelece com ele uma relação. Para o cristianismo, essa autocomunicação alcança a sua plenitude em Jesus Cristo: o Verbo fez-se carne, e o invisível tornou-se humanamente acessível.

Todavia, a Revelação não transforma Deus num objeto completamente disponível à inteligência. Deus revela-se verdadeiramente, mas conserva a sua transcendência. Tudo aquilo que conhecemos de Deus é verdadeiro; nenhuma formulação humana consegue abranger a totalidade do seu ser. O mistério não é uma realidade obscura que desaparecerá quando obtivermos informação suficiente. É a inesgotável profundidade de uma presença.

Aqui se encontra a diferença entre mistério e problema. Um problema coloca-se diante de nós e pode, em princípio, ser resolvido. Depois de encontrada a solução, deixa de existir enquanto problema. O mistério envolve-nos e contém-nos. Podemos entrar nele, conhecê-lo e amá-lo cada vez mais, mas jamais conseguimos observá-lo inteiramente a partir de fora. Deus não é um enigma intelectual à espera da resposta correta; é a realidade absoluta na qual existimos, pensamos e amamos.

A tentação gnóstica consiste em converter o conhecimento de Deus numa forma de posse. O gnóstico acredita que dispõe de um saber superior, frequentemente reservado a uma elite, pelo qual domina o sentido oculto do mundo e assegura a própria salvação. Deus deixa então de ser um Tu perante quem o ser humano responde livremente e torna-se conteúdo de uma doutrina secreta. A humildade da fé é substituída pela superioridade do iniciado.

Esta tentação atravessa os séculos. Reaparece sempre que alguém julga possuir a explicação total de Deus, da história e do destino humano. Pode assumir uma forma religiosa, filosófica, ideológica ou política. Em todas elas existe o mesmo movimento: a realidade é reduzida a um sistema e aqueles que possuem a chave desse sistema consideram-se superiores aos restantes. O mistério cede lugar ao mecanismo; a relação transforma-se em domínio.

No extremo oposto encontra-se a renúncia agnóstica. Perante a impossibilidade de compreender Deus integralmente, conclui-se que nada pode ser conhecido a seu respeito. Confunde-se a impossibilidade de conhecer tudo com a impossibilidade de conhecer alguma coisa. Porém, entre o conhecimento absoluto e a ignorância completa existe o conhecimento humano: limitado, progressivo, analógico e, ainda assim, verdadeiro.

Também nas relações humanas conhecemos sem esgotar. Podemos conhecer verdadeiramente uma pessoa, partilhar a sua vida e amá-la profundamente, sem alcançar a totalidade do seu mistério. A pessoa conhecida permanece sempre maior do que a imagem que formamos dela. Essa incompletude não torna falsa a relação; mantém-na aberta ao encontro e à descoberta. Se isto sucede entre seres humanos, com maior razão acontece na relação com Deus.

Fé e razão não são caminhos adversários. A razão impede que a fé se transforme em superstição, emotividade ou arbitrariedade. A fé impede que a razão se encerre nos limites do mensurável e confunda a realidade com aquilo que consegue dominar. A razão interroga, distingue e procura coerência; a fé acolhe uma presença e confia numa palavra. Ambas procuram a verdade, embora o façam segundo modos diferentes e complementares.

A verdadeira sabedoria cristã nasce, portanto, de uma inteligência humilde. Humildade não significa desistência do pensamento, mas reconhecimento da proporção entre quem conhece e Aquele que é conhecido. Quanto mais o ser humano se aproxima de Deus, mais compreende que o seu conhecimento permanece inicial. Não porque Deus se afaste, mas porque a proximidade revela uma profundidade cada vez maior.

Santo Agostinho exprimiu esta tensão ao afirmar que, se julgamos ter compreendido Deus, aquilo que compreendemos já não é Deus. A frase não proíbe o conhecimento; purifica-o da pretensão de domínio. Conhecer Deus significa entrar numa relação que transforma aquele que conhece. A verdade divina não é apenas contemplada: exige conversão, responsabilidade e amor.

Assim, o cristão situa-se entre duas soberbas aparentemente opostas: a soberba de quem afirma possuir Deus e a soberba de quem determina antecipadamente que Deus permanece inacessível. A fé recusa ambas. Afirma que Deus pode ser verdadeiramente conhecido porque decidiu revelar-se; reconhece que jamais pode ser encerrado nos conceitos humanos porque continua a ser Deus.

A sabedoria começa quando a inteligência aceita esta dupla verdade: Deus está suficientemente próximo para ser conhecido e infinitamente acima de tudo quanto podemos compreender. A fé cristã vive desta proximidade sem posse, desta certeza sem arrogância e deste conhecimento que, quanto mais cresce, mais se transforma em admiração, gratidão e amor.

Francisco Vaz
16 de agosto de 2026

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Juventino Afonso

In Memoriam

Há uma estranha condição do amor: quando aqueles que amamos partem, a sua ausência transforma-se numa nova forma de presença. Já não os vemos nem ouvimos a sua voz, mas continuam a habitar a nossa memória, as nossas palavras e os gestos que deles aprendemos.

O Juventino Afonso deixa-nos precisamente essa presença da ausência. A sua vida foi discreta, mas fecunda; humilde, mas profundamente transformadora. Só quando alguém parte compreendemos plenamente quanto da nossa própria vida era iluminada pela sua presença.

É por isso que hoje não recordamos apenas a sua morte. Celebramos, sobretudo, a vida que viveu, o bem que semeou e o exemplo que deixa a todos quantos tiveram o privilégio da sua amizade.

Conheci-o em 2003, quando manifestei o desejo de integrar o Coro Paroquial de Cristo Rei da Portela. Recordo perfeitamente esse primeiro encontro. Com o seu ar simultaneamente austero e afável, ouviu-me e disse simplesmente: "Muito bem. Vamos falar com o maestro Rui Fernandes." Foi assim, de forma tão simples quanto decisiva, que entrei para o naipe dos tenores.

Sem o saber, estava também a entrar numa das mais felizes etapas da minha vida.

O Juventino, não só esteve na génese, como foi um dos grandes impulsionadores do Coro Paroquial de Cristo Rei da Portela. Homem de organização, de dedicação e de entusiasmo contagiante, viveu este projeto como uma verdadeira missão. Muito do que o coro alcançou ficou a dever-se à sua capacidade de mobilizar pessoas, de unir vontades e de colocar sempre o bem comum acima de qualquer interesse pessoal.

Nunca esquecerei duas viagens que marcaram profundamente a história do coro. A primeira, em 2005, a Pésaro, para participarmos num encontro internacional de coros litúrgicos, a convite do Coro de Cristo Rei daquela cidade italiana. A segunda, em 2007, levou-nos à Sicília, num encontro organizado pelo Monsenhor Giuseppe Liberto, então Maestro da Capela Musical Pontifícia. Pelo caminho passámos por Roma, onde tivemos a graça de participar na celebração que assinalava os sessenta anos da canonização de São João de Brito e que teve lugar na Basílica de São Pedro.

Em ambas as viagens, o Juventino foi muito mais do que um organizador. Foi o verdadeiro catalisador de todo o projeto, o seu principal dinamizador, aquele que nunca deixava por dizer uma palavra de incentivo, de arranjar uma solução para cada dificuldade ou de esboçar um sorriso capaz de transformar o cansaço em alegria.

Mas aquilo que mais o distinguia não era a capacidade de organizar. Era a forma como olhava para as pessoas.

O Juventino tinha sempre uma palavra de apreço, de consideração e de amizade para todos os que com ele conviviam. Nunca procurava protagonismo. Preferia servir. E fazia-o naturalmente, porque servir fazia parte da sua maneira de estar na vida.

Cristão de ação, viveu a fé não apenas nas palavras, mas sobretudo nas obras. Juntamente com a Helena, que Deus chamou mais cedo, esteve sempre atento às necessidades dos outros. Ambos fizeram da caridade um modo de vida. Quem os conheceu sabe que encontrava sempre neles disponibilidade para ajudar, escutar, incentivar e acolher.

Depois de uma vida de trabalho no setor bancário e de ter servido Portugal como oficial miliciano, incluindo uma comissão de serviço nas então províncias ultramarinas, continuou sempre disponível para servir a comunidade. A sua vida testemunhou que a verdadeira grandeza humana se mede pela capacidade de dar e de se dar aos outros.

Hoje sinto uma profunda tristeza pela sua partida.

Mas essa tristeza é iluminada pela esperança cristã.

Tenho a íntima convicção de que o Juventino reencontrou a Helena e que ambos contemplam agora a Luz de Deus, participando plenamente daquele Amor que nunca acaba.

Neste momento vêm-me naturalmente ao espírito as palavras de Cristo no Evangelho de São Mateus:

«Muito bem, servo bom e fiel. Foste fiel no pouco, confiar-te-ei o muito. Vem tomar parte na alegria do teu Senhor.» (Mt 25, 21).

Este versículo parece descrever a sua vida. O Juventino foi um homem fiel nas pequenas e nas grandes coisas, um servidor discreto que fez do amor ao próximo um modo de viver.

Assumo a dor de perder a sua presença amiga, a sua palavra serena e o seu sorriso discreto. Mas essa dor é acompanhada por uma profunda gratidão, porque tive o privilégio da sua amizade sincera.

Estou certo de que Deus já o acolheu na recompensa prometida aos que O servem com amor.

São Paulo recorda-nos que «agora permanecem a fé, a esperança e o amor; porém, o maior deles é o amor» (1 Cor 13, 13). A fé transformou-se em visão. A esperança encontrou finalmente o seu cumprimento. Apenas o amor permanece para sempre, porque o amor pertence à própria eternidade de Deus.

É esse amor que hoje reconhecemos na vida do Juventino. Deus já o acolheu na plenitude da Sua misericórdia e da Sua paz.

Há pessoas que passam pelo mundo deixando apenas recordações. Outras deixam exemplos.

O Juventino pertence, sem dúvida, a estas últimas.

Até um dia, meu amigo.

Que descanses na paz de Deus, na companhia da Helena, até ao dia em que nos reencontremos na plenitude da Vida.

Francisco Vaz

7 de agosto de 2026

domingo, 26 de julho de 2026

Um coração sábio

a primeira condição do bom governo

«Porque foi este o teu pedido, e já que não pediste longa vida, nem riqueza, nem a morte dos teus inimigos, mas sabedoria para praticar a justiça, vou satisfazer o teu desejo. Dou-te um coração sábio e esclarecido...» (1 Rs 3, 11-12)

Entre todas as páginas da Sagrada Escritura sobre o exercício do poder, poucas são tão atuais como o diálogo entre Deus e Salomão. O jovem rei podia ter pedido riqueza, uma vida longa ou a derrota dos seus inimigos. Em vez disso, pede um coração sábio para governar com justiça.

A Bíblia ensina-nos, assim, que o maior problema da política nunca foi a falta de poder, mas a falta de sabedoria.

Na linguagem bíblica, o coração é o centro da pessoa: inteligência, vontade, consciência e liberdade. Quando Deus promete a Salomão um «coração sábio», não lhe concede apenas maior inteligência; transforma interiormente a pessoa para que seja capaz de discernir a verdade e agir segundo o bem.

O Evangelho deste domingo completa esta mensagem com as parábolas do tesouro escondido e da pérola preciosa. Jesus revela que o verdadeiro tesouro é o Reino de Deus. Quem o encontra passa a ordenar toda a sua vida a partir dele.

Na sua homilia, D. Manuel Clemente recordava precisamente que o Reino de Deus não é apenas uma realidade futura. Começa quando a nossa vontade se deixa conformar pela vontade de Deus. É essa conversão interior que permite olhar para todas as coisas segundo a verdade e não segundo o interesse próprio.

É exatamente isso que faz Salomão. Antes de querer possuir um reino, procura viver segundo o Reino de Deus.

A tradição cristã aprofundou esta intuição através das quatro virtudes cardeais: prudência, justiça, fortaleza e temperança. A prudência permite discernir o verdadeiro bem; a fortaleza dá a coragem para o realizar; a temperança impede que as paixões e a ambição dominem o coração; e a justiça manifesta-se na relação com os outros, dando a cada um o que lhe é devido. Não são virtudes isoladas: completam-se mutuamente e tornam possível uma ação verdadeiramente justa.

Jacques Maritain lembrava que a política não é apenas uma técnica de governo. É, antes de tudo, uma atividade moral orientada para o bem comum. Nenhuma instituição, nenhuma lei e nenhuma democracia conseguem substituir a virtude daqueles que governam. A qualidade de um regime político depende, em última análise, da qualidade moral das pessoas que exercem a autoridade.

Esta lição não se dirige apenas aos governantes. Todos exercemos alguma forma de autoridade: na família, na educação, no trabalho, na Igreja ou na sociedade. Todos somos diariamente chamados a escolher entre o poder e o serviço, entre o interesse próprio e o bem comum, entre a verdade e a conveniência.

Num tempo em que se deposita uma confiança quase ilimitada na técnica, nos algoritmos e na eficiência, a liturgia recorda-nos uma verdade essencial: uma sociedade justa não nasce apenas de boas leis, mas de homens e mulheres de coração sábio.

Talvez esta seja a oração mais necessária para o nosso tempo. Não pedir mais riqueza, mais poder ou a derrota dos nossos adversários, mas pedir, como Salomão, um coração suficientemente humilde para procurar a vontade de Deus e suficientemente sábio para a transformar em justiça.

Porque é no coração que começa o Reino de Deus. E é também no coração que começa o bom governo.

Francisco Vaz

26 de julho de 2026