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domingo, 1 de novembro de 2026

A santidade é a vocação de todos

Reflexão para o XXXI Domingo do Tempo Comum — Solenidade de Todos os Santos, 1 de novembro de 2026

Não nascemos santos. Nascemos chamados à santidade. E talvez a maior descoberta do cristianismo seja precisamente esta: ninguém está definitivamente condenado a ser apenas aquilo que foi.

A solenidade de Todos os Santos, que este ano coincide com o XXXI Domingo do Tempo Comum, convida-nos a reconsiderar uma das ideias mais profundas e, paradoxalmente, mais esquecidas do cristianismo: a santidade não é privilégio de alguns, nem recompensa reservada aos moralmente irrepreensíveis. É uma vocação universal, inscrita na própria condição humana.

Habituámo-nos a imaginar os santos como figuras extraordinárias, quase sobre-humanas, representadas nos altares, envoltas em auréolas e distantes das contradições da existência quotidiana. Esquecemo-nos de que, antes de serem santos, foram homens e mulheres. Conheceram o medo, a dúvida, a paixão, o sofrimento, a fragilidade e, não raras vezes, o pecado. A santidade não os dispensou da condição humana. Pelo contrário, realizou-se precisamente nela.

Talvez por isso Santo Agostinho seja uma das figuras mais extraordinárias da história do cristianismo. Nele encontramos, de forma particularmente intensa, o santo e o pecador, não como duas identidades inconciliáveis, mas como expressões da mesma existência em transformação.

Agostinho não nasceu santo. Procurou a felicidade onde julgava encontrá-la, experimentou os prazeres, as ambições intelectuais, as seduções do poder e as inquietações da consciência. Conheceu o erro e a verdade, o desejo e a renúncia. E foi precisamente essa experiência da sua própria fragilidade que o conduziu à descoberta de Deus.

Nas Confissões, escreve: «Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti» (I, 1, 1).

A inquietação humana não é, portanto, um defeito da criação. É a expressão de uma abertura constitutiva ao infinito. O ser humano não se esgota naquilo que possui, naquilo que conhece ou sequer naquilo que é. Existe também na possibilidade daquilo que pode vir a ser.

A santidade começa precisamente nessa possibilidade.

A escritora norueguesa Sigrid Undset, prémio Nobel da Literatura, compreendeu-o de maneira admirável. Na sua obra, particularmente em Kristin Lavransdatter, a existência humana apresenta-se atravessada pelo amor, pela culpa, pela responsabilidade, pelo sofrimento e pela possibilidade da redenção. As personagens não são abstrações morais. São seres humanos concretos, envolvidos nas circunstâncias da sua vida, frequentemente incapazes de corresponder ao bem que reconhecem.

Undset, que se converteu ao catolicismo em 1924, compreendeu que a santidade não consiste em escapar ao mundo, mas em viver nele sem renunciar à verdade. A sua aproximação à figura de Santa Catarina de Sena mostra-nos que a vida espiritual não é incompatível com a ação, a inteligência, a coragem e o compromisso com os outros.

A santidade não exige a ausência de contradições. Exige a disponibilidade para não fazer delas a última palavra da nossa existência.

Esta intuição encontra a sua expressão teológica no Concílio Vaticano II. A constituição Lumen Gentium, particularmente nos números 39 a 42, recupera com vigor a vocação universal à santidade. Todos são chamados, independentemente do seu estado de vida, da sua condição social ou das circunstâncias concretas da sua existência.

Não há uma santidade para os religiosos e outra, de segunda categoria, para os restantes cristãos. Há diferentes modos de responder ao mesmo chamamento.

Mas podemos levar esta reflexão ainda mais longe.

Se a santidade exprime a realização mais profunda da vocação humana para o bem, para a verdade e para o amor, não poderemos reconhecer sinais dessa mesma vocação também naqueles que não professam qualquer religião, que pertencem a outras tradições espirituais ou que simplesmente procuram viver com retidão de consciência?

A fé cristã reconhece em Cristo a plenitude da santidade, mas não nos autoriza a estabelecer fronteiras humanas à ação da graça. A Lumen Gentium (16) e a Gaudium et Spes (22) abrem precisamente esta compreensão: o mistério da salvação não pode ser reduzido aos limites visíveis da pertença religiosa.

A santidade não é uma propriedade que alguém possa reivindicar. Muito menos um título de superioridade sobre os outros.

É uma relação. Uma resposta. Uma maneira de existir.

É neste horizonte que o Evangelho de hoje, as Bem-aventuranças (Mt 5, 1-12), adquire toda a sua força revolucionária. Jesus não proclama felizes os poderosos, os triunfadores, os moralmente superiores ou os que se julgam donos da verdade. Proclama felizes os misericordiosos, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os puros de coração e os construtores da paz.

As Bem-aventuranças não são um catálogo de virtudes destinado a uma elite espiritual. São uma proposta de humanidade. Uma maneira de compreender a existência a partir da relação com o outro.

E aqui encontramos uma dimensão decisiva: ninguém se torna santo sozinho.

Não existe santidade no isolamento egoísta, na indiferença perante o sofrimento ou na convicção da própria superioridade moral. A santidade realiza-se na relação: com Deus, com os outros, com a criação e com a própria consciência.

O amor não é apenas uma virtude entre outras. É aquilo que dá sentido a todas as virtudes. Sem amor, a justiça pode transformar-se em vingança, a verdade em arrogância, a disciplina em opressão e até a religião em instrumento de exclusão.

Santo Agostinho compreendeu profundamente esta centralidade do amor. No seu comentário à Primeira Epístola de São João, encontramos a célebre expressão: Dilige et quod vis fac — «Ama e faz o que quiseres» (VII, 8).

Não se trata de uma autorização para o relativismo moral, mas de uma exigência radical: quando o amor verdadeiro orienta a vontade, a liberdade deixa de ser simples capacidade de escolha e transforma-se em responsabilidade pelo bem.

A santidade é, neste sentido, a liberdade que aprendeu a amar.

E talvez seja aqui que a reflexão se torna particularmente importante para o nosso tempo. Vivemos numa sociedade que frequentemente confunde sucesso com realização, notoriedade com grandeza e afirmação individual com liberdade. Também no campo religioso subsiste a tentação de medir a santidade pela observância exterior, pela pertença institucional ou pela conformidade com determinados padrões sociais.

Mas Deus não cabe nas nossas classificações.

O santo pode ser o homem que, depois de uma vida de erros, descobre finalmente a capacidade de pedir perdão. Pode ser a mulher que, no silêncio da sua casa, cuida de alguém que já não consegue cuidar de si. Pode ser o médico, o professor, o soldado, o trabalhador, o investigador ou o desconhecido que, sem esperar reconhecimento, procura fazer bem aquilo que lhe compete.

Pode ser também aquele que não acredita em Deus, mas que, seguindo honestamente a sua consciência, se entrega à verdade, à justiça e ao serviço dos outros. Não porque a fé e a ausência dela sejam teologicamente equivalentes, mas porque a dignidade humana e a possibilidade da graça não podem ser reduzidas às nossas categorias.

O Apocalipse apresenta-nos hoje uma multidão impossível de contar, proveniente de todas as nações, povos e línguas (Ap 7, 9). A imagem é extraordinária: a santidade não uniformiza a humanidade; acolhe a sua diversidade.

E é precisamente esta diversidade que torna a comunhão possível.

A santidade não consiste em deixar de ser quem somos, mas em descobrir quem verdadeiramente somos chamados a ser.

Na sua homilia de Todos os Santos de 2025, Leão XIV recordava que as Bem-aventuranças oferecem uma nova interpretação da realidade e que, nos santos, podemos reconhecer a presença do Reino de Deus entre nós.

É também por isso que a paz desarmada e desarmante, tão insistentemente proposta pelo Papa, não pode ser apenas um programa político ou diplomático. Exige uma transformação interior. Não haverá paz verdadeira enquanto continuarmos a considerar o outro um adversário a vencer, uma ameaça a neutralizar ou uma diferença a eliminar.

A santidade começa quando deixamos de perguntar o que podemos exigir dos outros e começamos a perguntar o que lhes podemos oferecer.

Agostinho, com todas as suas contradições, recorda-nos que ninguém está perdido enquanto conservar a possibilidade de mudar. Undset mostra-nos que a graça pode atravessar as histórias humanas mais complexas. E Cristo, nas Bem-aventuranças, revela-nos que a grandeza de uma vida não se mede pelo poder que acumulou, mas pelo amor que foi capaz de realizar.

Talvez seja este o sentido mais profundo da solenidade de hoje.

Celebramos os santos que conhecemos, mas também os incontáveis santos anónimos que passaram pela história sem deixar monumentos, livros ou retratos. Homens e mulheres cuja grandeza se escondeu na fidelidade, na misericórdia, no perdão e na capacidade de tornar a vida dos outros um pouco mais humana.

A santidade não é o contrário da humanidade. É a humanidade levada à plenitude pelo amor.

E se todos somos chamados à santidade, então ninguém pode ser excluído antecipadamente desse horizonte: nem pelo seu passado, nem pela sua condição social, nem pelas suas fragilidades, nem sequer pelas suas dúvidas.

Porque, no fim, talvez Deus não nos pergunte quantas vezes proclamámos o seu nome, mas quantas vezes fomos capazes de reconhecer a sua presença no rosto daqueles que encontrámos.

E talvez a maior surpresa da eternidade seja descobrirmos santos entre aqueles que, durante a vida, nunca pensámos encontrar no Céu.

Francisco Vaz

1 de novembro de 2026

domingo, 25 de outubro de 2026

XXX Domingo do Tempo Comum

Amar a Deus é reconhecer o outro

25 de outubro de 2026 | Evangelho segundo São Mateus (22, 34-40)

«Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?»Jesus respondeu: «Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito».«O segundo, porém, é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo».

Há nesta resposta de Jesus uma das mais profundas revelações acerca da condição humana. Interrogado sobre o maior mandamento, Cristo não se limita a estabelecer uma hierarquia de obrigações religiosas. Vai muito mais longe: revela que a própria existência humana se compreende através da relação. A relação com Deus e a relação com os outros.

O ser humano não existe verdadeiramente isolado. Pode sobreviver na solidão, pode afirmar a sua individualidade, pode construir uma identidade própria, mas só se realiza plenamente no encontro com outro ser. A humanidade não é apenas uma condição biológica; é também uma realidade relacional. Somos porque nos relacionamos. Somos humanos porque reconhecemos no outro alguém que, sendo diferente de nós, participa da mesma dignidade.

É precisamente aqui que encontramos a extraordinária novidade da resposta de Jesus. O primeiro mandamento orienta o homem para Deus; o segundo orienta-o para o seu semelhante. Mas Cristo acrescenta algo decisivo: o segundo é semelhante ao primeiro. Não se trata de duas obrigações independentes, mas de duas dimensões inseparáveis de uma mesma realidade.

Não podemos amar verdadeiramente a Deus desprezando aqueles que Ele criou. E não podemos compreender plenamente a dignidade do outro sem nos interrogarmos sobre o fundamento último dessa dignidade.

Na tradição judaico-cristã, o homem é criado à imagem e semelhança de Deus. Esta afirmação tem consequências antropológicas extraordinárias. Se cada ser humano transporta em si a imagem do Criador, então nenhum homem pode ser reduzido a instrumento, objeto, número ou inimigo absoluto. Mesmo aquele que pensa de maneira diferente, que professa outra religião ou pertence a outro povo, permanece portador dessa dignidade.

A relação com Deus não nos afasta, portanto, da humanidade. Pelo contrário, devolve-nos a ela.

A primeira leitura deste domingo, retirada do Livro do Êxodo, concretiza admiravelmente esta exigência. Deus ordena que não se oprima o estrangeiro, que não se maltrate a viúva nem o órfão e que não se explore o pobre. Não se trata apenas de recomendações morais. É a afirmação de que a fidelidade a Deus se verifica na maneira como tratamos aqueles que se encontram mais vulneráveis.

O amor deixa de ser uma abstração espiritual para se tornar responsabilidade perante o outro.

É também nesta perspetiva que podemos compreender o testemunho dos mártires recordados no calendário cristão deste dia, entre eles São Crispim e São Crispiniano, tradicionalmente associados ao martírio durante as perseguições romanas, e São Miniato de Florença.

O seu testemunho recorda-nos que a fidelidade a Deus pode exigir a própria vida. Mas importa compreender o significado profundo do martírio cristão. O mártir não é aquele que mata por Deus; é aquele que aceita morrer sem renunciar à sua fé. Não procura destruir o adversário, mas testemunhar uma verdade que considera superior à própria sobrevivência.

Nesta diferença reside uma das mais profundas consequências do Evangelho. A fé não encontra a sua expressão mais elevada na capacidade de dominar o outro, mas na disponibilidade para amar, mesmo perante a hostilidade.

É impossível não relacionar esta mensagem com o apelo insistente de Leão XIV a uma paz desarmada e desarmante.

Na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2026, o Papa recorda que a paz de Cristo não nasce da ameaça nem da superioridade da força. É desarmada porque renuncia à lógica da violência; é desarmante porque procura transformar o coração daquele que considera o outro um inimigo.

A distinção é fundamental.

Podemos silenciar as armas sem eliminar o ódio. Podemos impor uma trégua sem alcançar a reconciliação. Podemos vencer militarmente um adversário sem compreender as razões que alimentaram o conflito. A História demonstra-nos abundantemente que muitas guerras terminaram nos campos de batalha apenas para continuarem na memória ferida dos povos.

A paz verdadeira exige algo mais profundo: uma transformação da relação entre os homens.

E regressamos, assim, ao Evangelho deste domingo.

Quando Jesus coloca o amor a Deus e o amor ao próximo no centro de toda a Lei, está também a indicar o único fundamento sobre o qual poderá construir-se uma paz verdadeiramente duradoura. Não basta reconhecer que o outro existe. É necessário aceitar que a sua existência tem valor, independentemente da nossa vontade, dos nossos interesses ou das nossas diferenças.

A guerra começa muito antes de se disparar o primeiro tiro. Começa quando deixamos de reconhecer a humanidade do outro. Quando o transformamos numa ameaça absoluta. Quando a sua vida passa a valer menos do que os nossos objetivos.

Por isso, a paz desarmada e desarmante de Leão XIV não é uma ingenuidade perante a violência nem uma renúncia à justiça ou à proteção dos inocentes. É uma exigência de transformação interior e coletiva, acompanhada pela responsabilidade política, pelo diálogo e pelo respeito pela dignidade humana.

Não haverá paz duradoura enquanto continuarmos a considerar possível construir a nossa segurança sobre a humilhação dos outros.

O cristianismo introduz aqui uma exigência radical: o próximo não é apenas aquele que nos é próximo pela família, pela cultura, pela religião ou pela nacionalidade. É também o estrangeiro, o desconhecido e até aquele que nos considera seu inimigo.

O amor cristão não exige que concordemos com todos, nem que aceitemos passivamente a injustiça. Exige, isso sim, que nunca deixemos de reconhecer a humanidade daqueles a quem nos opomos.

Talvez seja esta uma das mais difíceis lições da nossa condição humana. Fomos criados para a relação, mas somos permanentemente tentados pela separação. Precisamos uns dos outros, mas construímos fronteiras materiais e espirituais. Desejamos ser amados, mas nem sempre estamos disponíveis para amar.

O Evangelho de hoje recorda-nos que a relação com Deus só encontra a sua plenitude quando se torna relação com os homens.

E talvez seja esse o verdadeiro sentido da paz cristã: não apenas a ausência de guerra, mas a presença de uma humanidade reconciliada consigo própria.

Porque, se o homem só se realiza plenamente na relação com o outro, destruir o outro é também destruir alguma coisa da nossa própria humanidade.

Amar a Deus com todo o coração e amar o próximo como a nós mesmos não são, afinal, dois caminhos distintos. São o mesmo caminho, percorrido em duas direções: para Deus, que é a origem do amor, e para o outro, que é o lugar onde esse amor se torna visível.

E é nesse encontro que começa a paz.

Uma paz que não precisa de vencer o outro para existir.

Uma paz que, antes de desarmar as mãos, procura desarmar os corações.

Uma paz que nos permite finalmente compreender que ninguém se salva verdadeiramente contra os outros, mas com os outros.

Francisco Vaz
25 de outubro de 2026







domingo, 18 de outubro de 2026

XXIX Domingo do Tempo Comum

«Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.»

Conhecemos tão bem estas palavras que talvez já não escutemos a pergunta que deixam em aberto: o que pertence verdadeiramente a cada um?

Jesus pede que Lhe mostrem a moeda do tributo. Nela estão gravadas a imagem e a inscrição de César. A moeda circula sob a sua autoridade, serve o comércio e paga as obrigações do império. Entregá-la é reconhecer uma responsabilidade na vida comum.

Também nós temos deveres para com a comunidade. A fé compromete-nos com a justiça, com o cuidado das instituições e com as necessidades dos outros. Dar a César o que lhe é devido faz parte dessa responsabilidade.

Mas Jesus acrescenta: «E a Deus o que é de Deus.» A resposta obriga-nos a levantar os olhos da moeda para a pessoa que a segura. Se o dinheiro traz a imagem do imperador, o ser humano foi criado à imagem de Deus. A sua dignidade precede qualquer lei, cargo ou reconhecimento público.

Por isso, a autoridade encontra um limite na pessoa sobre a qual se exerce. Pode exigir uma contribuição; deve respeitar a consciência. Pode organizar a vida coletiva; responde pela justiça com que trata cada um, sobretudo os mais frágeis.

Esta exigência alcança também quem governa. Por detrás do título permanece um ser humano: recebeu a vida, conhece a fragilidade e terá de responder pelas suas escolhas. O poder não lhe apaga a condição de criatura.

A moeda tem a imagem de César. Mas César, como aqueles que lhe pagam o tributo, traz a imagem de Deus.

Até César é de Deus.

Francisco Vaz

18 de outubro de 2026

domingo, 11 de outubro de 2026

XXVIII Domingo do Tempo Comum

Uma mesa onde há lugar para todos

Há uma imagem que atravessa as leituras deste domingo: a mesa preparada. Em Isaías, Deus oferece um banquete a todos os povos; no salmo, o pastor prepara a mesa para aquele que acompanha; no Evangelho, um rei convida para as bodas do seu filho. A mesa torna-se expressão de encontro, de pertença e de uma vida que só alcança plenitude quando pode ser partilhada.

É aqui que reconhecemos a pedagogia do Antigo Testamento. A promessa de Isaías educa o desejo humano: leva-nos a esperar um mundo onde as lágrimas sejam enxugadas e a morte vencida. O salmo transforma essa esperança em confiança pessoal. O Deus que reúne os povos é também aquele que acompanha cada pessoa pelos seus caminhos, incluindo os mais sombrios.

Este encadeamento permite-nos escutar a Escritura como uma história de relação. A promessa prepara o coração; a oração ensina-o a confiar; em Jesus Cristo, o convite adquire um rosto e pede uma resposta. O Antigo Testamento conserva a sua voz própria e ajuda-nos a compreender a profundidade daquilo que o Evangelho anuncia.

No Angelus de hoje, Leão XIV recordou, a partir de São Tomás de Aquino, que o bem tende a comunicar-se. A felicidade do pai que celebra as bodas do filho procura outros com quem possa ser partilhada. O Papa salientou também que a rejeição do bem não deve levar-nos ao desânimo: o convite alarga-se, e a alegria procura novos destinatários.

Podemos encontrar nesta leitura uma interrogação sobre a nossa vida. Quando recebemos alguma coisa boa, sentimos vontade de a repartir? O conhecimento que adquirimos, o tempo de que dispomos, a experiência que acumulámos e a fé que professamos tornam-se possibilidades de encontro? Ou guardamo-los como bens cuja segurança depende de permanecerem exclusivamente nossos?

A recusa dos primeiros convidados merece igualmente atenção. Alguns continuam ocupados com os seus campos e negócios. Reconhecemos aí uma dificuldade familiar: podemos estar tão absorvidos pelo que fazemos que deixamos de perceber quem nos chama. O quotidiano enche-se de obrigações, e aquilo que dá sentido à existência vai sendo adiado. A pergunta interior talvez seja esta: a que convites essenciais tenho respondido que não tenho tempo?

A segunda leitura acrescenta uma dimensão decisiva. Paulo conhece a abundância e a privação, encontra força em Cristo e agradece aos que participaram na sua tribulação. A confiança em Deus convive com a necessidade dos outros. A fé amadurece também na capacidade de aceitar ajuda e de reconhecer, com gratidão, quem permanece ao nosso lado.

Quanto ao traje de festa, podemos lê-lo como a exigência de deixar que o encontro transforme a vida. Entrar na sala implica aprender a viver com os que nela se encontram. A pertença religiosa pede coerência: a oração deve ganhar expressão na atenção, na justiça, na misericórdia e na disponibilidade para servir.

Leão XIV aproximou esta alegria das nossas casas e dos lugares onde vivemos, relacionando-a com os gestos concretos de bondade que nos aproximam uns dos outros. Podemos, por isso, começar por uma mesa muito próxima: aquela onde escutamos alguém sem pressa, acolhemos uma fragilidade ou reconciliamos uma relação.

A liturgia deste domingo convida-nos a esse exame sereno. Quem encontra lugar na minha vida? Quem fica habitualmente à porta? Que mudança preciso de acolher para que a minha presença seja mais hospitaleira?

A promessa do banquete começa a tornar-se visível quando alguém deixa de estar sozinho. E a nossa resposta ao convite de Deus ganha corpo quando ajudamos outra pessoa a descobrir que também há lugar para ela.

Francisco Vaz

11 de outubro de 2026


domingo, 4 de outubro de 2026

XXVII Domingo do Tempo Comum

 A vida como dom, a liberdade como responsabilidade

Neste XXVII Domingo do Tempo Comum, a imagem da vinha atravessa as leituras e coloca-nos diante de uma pergunta: que fazemos da vida que recebemos?

Em Isaías, Deus cuida da sua vinha com dedicação: prepara a terra, escolhe as plantas, protege-as e espera frutos. Tudo começa na bondade de quem dá. Mas, onde esperava justiça, encontra violência; onde desejava retidão, escuta o sofrimento dos oprimidos. O amor recebido pede uma resposta que se torne visível na maneira como vivemos e tratamos os outros.

O Evangelho acrescenta a confiança. O proprietário entrega a vinha aos vinhateiros, dando-lhes espaço para trabalhar e liberdade para agir. Eles, porém, transformam essa confiança em pretensão de posse, chegando a matar o filho para se apropriarem da herança.

Como acentuou o padre João Maia na homilia de hoje, segundo o testemunho que aqui recolhemos, esta conduta interpela a nossa própria vida. Também nós nos consideramos, muitas vezes, senhores de nós mesmos e dos outros, esquecendo que não nos criámos. A existência precede qualquer conquista nossa: somos seres criados pela bondade de Deus. Reconhecer esta origem convida-nos à gratidão e dá à liberdade uma responsabilidade: cuidar do que nos foi confiado.

São Paulo ajuda-nos a percorrer esse caminho. Convida-nos a apresentar a Deus as inquietações e a orientar o pensamento para a verdade, a justiça e a bondade. Aquilo que cultivamos interiormente prepara os frutos dos nossos atos. A paz amadurece também nesta atenção ao coração.

No Angelus de hoje, Leão XIV recordou que a rejeição do Filho não interrompe a misericórdia do Pai. Cristo, a pedra rejeitada, torna-se o alicerce de uma vida nova. Por isso, mesmo perante as nossas quedas, permanece esta certeza: «Deus nunca descarta a nossa vida!» A confiança divina abre-nos a possibilidade de reconhecer o erro, reparar o mal e recomeçar.

Neste dia de São Francisco de Assis, o Papa apresentou-o como um trabalhador fecundo na vinha do Senhor. Francisco respondeu ao chamamento de reparar a Igreja começando pela própria vida, fundada em Cristo, e pelo amor fraterno capaz de sanar a discórdia.

O seu exemplo convida-nos a receber o mundo com gratidão e a habitar nele com respeito. A vida, as pessoas e a criação pedem mãos que cuidem. A fraternidade começa quando reconhecemos que o outro tem uma dignidade que não depende da nossa vontade nem dos nossos interesses.

Na Eucaristia, recebemos o Filho que se entrega por nós. O dom de Deus torna-se alimento para aprendermos a dar: tempo, atenção, perdão, presença. É nestes gestos que a vinha da nossa vida pode produzir fruto.

Senhor, ensina-nos a reconhecer a vida como dom. Que a confiança que depositas em nós se transforme em cuidado, justiça e fraternidade. E que, com São Francisco, aprendamos a agradecer, a servir e a construir a paz.

Ámen.

Francisco Vaz

4 de outubro de 2026

domingo, 20 de setembro de 2026

D. Paulo Romeu Dantas Bastos


Nascido em Nova Soure, no estado da Bahia, em 20 de agosto de 1955, estudou inicialmente na sua terra natal e em Alagoinhas. Formou-se como técnico agropecuário e trabalhou na Embrapa antes de ingressar no seminário. Estudou Filosofia no Seminário Central da Bahia e Teologia no Seminário de Viamão.

Foi ordenado sacerdote em 18 de maio de 1985, na cidade de Barreiras. Durante o ministério presbiteral, exerceu funções paroquiais, acompanhou a Pastoral da Juventude e a pastoral familiar, foi coordenador diocesano de pastoral, pároco da Catedral de São João Batista e vigário-geral da Diocese de Barreiras.

Nomeado bispo de Alagoinhas por São João Paulo II, em 24 de abril de 2002, recebeu a ordenação episcopal em 27 de julho desse ano. Depois de quase duas décadas em Alagoinhas, foi transferido pelo Papa Francisco para a Diocese de Jequié, em 13 de janeiro de 2021, tendo tomado posse em 19 de março.

A sua formação, que inclui a experiência profissional anterior ao sacerdócio e um longo percurso pastoral, ajuda a compreender o tom simples, próximo e concreto da sua pregação, muito centrada na bondade de Deus, na confiança e na vida quotidiana das comunidades. (síntese biográfica)

Nota:

https://www.amissanobrasil.com.br/bispos/dom-paulo-romeu-dantas-bastos

XXV Domingo do Tempo Comum

«Para mim, viver é Cristo»

Na Eucaristia deste domingo, presidida por D. Paulo Romeu, bispo de Jequié, na Bahia, ficaram-me particularmente presentes duas ideias que atravessam as leituras: a bondade de Deus ultrapassa os nossos cálculos e a vida cristã só encontra o seu sentido pleno quando pode afirmar, com São Paulo: «Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro».

Paulo escreve estas palavras aos cristãos de Filipos, cidade da Macedónia e colónia romana. Ali fundara, cerca do ano 50, a primeira comunidade cristã conhecida em território europeu. Os Filipenses conservaram por ele uma especial afeição e apoiaram-no materialmente durante a sua missão. Paulo escreve-lhes da prisão, agradecendo a ajuda recebida, exortando-os à unidade e preparando-os para a possibilidade da sua morte.

As suas palavras não exprimem desprezo pela vida, nem uma atração pelo sofrimento. Quando afirma que «morrer é lucro», Paulo proclama que a morte já não possui a última palavra. Para quem vive em Cristo, morrer não é cair no nada, mas alcançar a plenitude da comunhão com aquele que já dá sentido à existência. Contudo, Paulo reconhece que permanecer vivo pode ser necessário para continuar a servir os irmãos. A sua vida já não lhe pertence inteiramente: tornou-se missão.

As cartas de Paulo entraram no Novo Testamento porque as primeiras comunidades reconheceram nelas um testemunho autorizado da fé apostólica. Escritas inicialmente para responder a situações concretas, foram depois lidas nas assembleias, copiadas e partilhadas entre as Igrejas. A formação do cânone foi gradual: as cartas paulinas já circulavam como coleção entre o final do século I e o início do século II; no século IV, a lista dos 27 livros do Novo Testamento ficou claramente estabelecida, aparecendo na Carta Festal de Santo Atanásio, em 367, e sendo posteriormente confirmada pelos sínodos de Hipona e de Cartago.

Na homilia de D. Paulo Romeu, a parábola dos trabalhadores da vinha foi apresentada como revelação da bondade de Deus. O proprietário sai repetidamente à procura de trabalhadores: de manhã cedo, ao longo do dia e quase ao cair da tarde. A sua preocupação não é apenas o rendimento da vinha. Ele não quer que nenhum homem termine o dia sem trabalho, sem salário e sem pão para levar para casa.

À hora do pagamento, todos recebem o mesmo denário. Os primeiros protestam, não porque tenham recebido menos do que lhes fora prometido, mas porque os últimos receberam o mesmo. A sua revolta nasce da comparação. Desejam para si a justiça do contrato, mas recusam aos outros a generosidade.

É aqui que a parábola nos atinge. Aceitamos facilmente a bondade de Deus quando somos os seus beneficiários; temos maior dificuldade em aceitá-la quando alcança aqueles que julgamos menos merecedores. Todavia, como recorda Isaías, os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos, nem os seus caminhos são os nossos caminhos. A bondade divina rompe os nossos esquemas, ultrapassa a contabilidade dos méritos e não se deixa aprisionar pelas hierarquias que construímos.

Deus não ama por comparação. Aquilo que concede ao outro nada retira ao amor que me oferece. A misericórdia concedida a quem chegou tarde não representa uma injustiça para quem trabalhou desde a primeira hora. Diante de Deus, ninguém fica definitivamente reduzido aos seus atrasos, fracassos ou desvios. Enquanto durar o dia, permanece aberto o chamamento para a vinha.

Reunidos em torno do altar, somos também aqueles trabalhadores chamados pelo Senhor. Mas não comparecemos como assalariados que exigem um pagamento proporcional ao serviço realizado. Aproximamo-nos como filhos que recebem gratuitamente o amor do Pai. O nosso verdadeiro denário é o próprio Cristo.

Na Eucaristia, Cristo não morre e ressuscita novamente: o seu único sacrifício pascal torna-se sacramentalmente presente. E todos recebem o mesmo Senhor — aquele que chegou primeiro e aquele que chegou mais tarde, o fiel e o que regressou, o forte e o ferido. Cristo entrega-se inteiramente a cada um.

«Viver é Cristo» significa, portanto, abandonar a contabilidade espiritual e aprender a olhar os outros com a generosidade de Deus. Significa transformar a vida recebida em serviço, gratidão e entrega. Mesmo na tribulação, permanece esta certeza: Deus pode não nos poupar a todas as dificuldades, mas nunca nos deixa faltar o seu amor.

Regressamos, assim, às nossas casas com alegria. Não apenas porque recebemos a bondade de Deus, mas porque somos enviados para a tornar presente. Quem recebeu gratuitamente Cristo na Eucaristia é chamado a ser, no mundo, testemunha da mesma bondade que não exclui ninguém e que ultrapassa todos os nossos cálculos.

Francisco Vaz

20 de setembro de 2026