CORO

CORO

domingo, 11 de outubro de 2026

XXVIII Domingo do Tempo Comum

Uma mesa onde há lugar para todos

Há uma imagem que atravessa as leituras deste domingo: a mesa preparada. Em Isaías, Deus oferece um banquete a todos os povos; no salmo, o pastor prepara a mesa para aquele que acompanha; no Evangelho, um rei convida para as bodas do seu filho. A mesa torna-se expressão de encontro, de pertença e de uma vida que só alcança plenitude quando pode ser partilhada.

É aqui que reconhecemos a pedagogia do Antigo Testamento. A promessa de Isaías educa o desejo humano: leva-nos a esperar um mundo onde as lágrimas sejam enxugadas e a morte vencida. O salmo transforma essa esperança em confiança pessoal. O Deus que reúne os povos é também aquele que acompanha cada pessoa pelos seus caminhos, incluindo os mais sombrios.

Este encadeamento permite-nos escutar a Escritura como uma história de relação. A promessa prepara o coração; a oração ensina-o a confiar; em Jesus Cristo, o convite adquire um rosto e pede uma resposta. O Antigo Testamento conserva a sua voz própria e ajuda-nos a compreender a profundidade daquilo que o Evangelho anuncia.

No Angelus de hoje, Leão XIV recordou, a partir de São Tomás de Aquino, que o bem tende a comunicar-se. A felicidade do pai que celebra as bodas do filho procura outros com quem possa ser partilhada. O Papa salientou também que a rejeição do bem não deve levar-nos ao desânimo: o convite alarga-se, e a alegria procura novos destinatários.

Podemos encontrar nesta leitura uma interrogação sobre a nossa vida. Quando recebemos alguma coisa boa, sentimos vontade de a repartir? O conhecimento que adquirimos, o tempo de que dispomos, a experiência que acumulámos e a fé que professamos tornam-se possibilidades de encontro? Ou guardamo-los como bens cuja segurança depende de permanecerem exclusivamente nossos?

A recusa dos primeiros convidados merece igualmente atenção. Alguns continuam ocupados com os seus campos e negócios. Reconhecemos aí uma dificuldade familiar: podemos estar tão absorvidos pelo que fazemos que deixamos de perceber quem nos chama. O quotidiano enche-se de obrigações, e aquilo que dá sentido à existência vai sendo adiado. A pergunta interior talvez seja esta: a que convites essenciais tenho respondido que não tenho tempo?

A segunda leitura acrescenta uma dimensão decisiva. Paulo conhece a abundância e a privação, encontra força em Cristo e agradece aos que participaram na sua tribulação. A confiança em Deus convive com a necessidade dos outros. A fé amadurece também na capacidade de aceitar ajuda e de reconhecer, com gratidão, quem permanece ao nosso lado.

Quanto ao traje de festa, podemos lê-lo como a exigência de deixar que o encontro transforme a vida. Entrar na sala implica aprender a viver com os que nela se encontram. A pertença religiosa pede coerência: a oração deve ganhar expressão na atenção, na justiça, na misericórdia e na disponibilidade para servir.

Leão XIV aproximou esta alegria das nossas casas e dos lugares onde vivemos, relacionando-a com os gestos concretos de bondade que nos aproximam uns dos outros. Podemos, por isso, começar por uma mesa muito próxima: aquela onde escutamos alguém sem pressa, acolhemos uma fragilidade ou reconciliamos uma relação.

A liturgia deste domingo convida-nos a esse exame sereno. Quem encontra lugar na minha vida? Quem fica habitualmente à porta? Que mudança preciso de acolher para que a minha presença seja mais hospitaleira?

A promessa do banquete começa a tornar-se visível quando alguém deixa de estar sozinho. E a nossa resposta ao convite de Deus ganha corpo quando ajudamos outra pessoa a descobrir que também há lugar para ela.

Francisco Vaz

11 de outubro de 2026


domingo, 4 de outubro de 2026

XXVII Domingo do Tempo Comum

 A vida como dom, a liberdade como responsabilidade

Neste XXVII Domingo do Tempo Comum, a imagem da vinha atravessa as leituras e coloca-nos diante de uma pergunta: que fazemos da vida que recebemos?

Em Isaías, Deus cuida da sua vinha com dedicação: prepara a terra, escolhe as plantas, protege-as e espera frutos. Tudo começa na bondade de quem dá. Mas, onde esperava justiça, encontra violência; onde desejava retidão, escuta o sofrimento dos oprimidos. O amor recebido pede uma resposta que se torne visível na maneira como vivemos e tratamos os outros.

O Evangelho acrescenta a confiança. O proprietário entrega a vinha aos vinhateiros, dando-lhes espaço para trabalhar e liberdade para agir. Eles, porém, transformam essa confiança em pretensão de posse, chegando a matar o filho para se apropriarem da herança.

Como acentuou o padre João Maia na homilia de hoje, segundo o testemunho que aqui recolhemos, esta conduta interpela a nossa própria vida. Também nós nos consideramos, muitas vezes, senhores de nós mesmos e dos outros, esquecendo que não nos criámos. A existência precede qualquer conquista nossa: somos seres criados pela bondade de Deus. Reconhecer esta origem convida-nos à gratidão e dá à liberdade uma responsabilidade: cuidar do que nos foi confiado.

São Paulo ajuda-nos a percorrer esse caminho. Convida-nos a apresentar a Deus as inquietações e a orientar o pensamento para a verdade, a justiça e a bondade. Aquilo que cultivamos interiormente prepara os frutos dos nossos atos. A paz amadurece também nesta atenção ao coração.

No Angelus de hoje, Leão XIV recordou que a rejeição do Filho não interrompe a misericórdia do Pai. Cristo, a pedra rejeitada, torna-se o alicerce de uma vida nova. Por isso, mesmo perante as nossas quedas, permanece esta certeza: «Deus nunca descarta a nossa vida!» A confiança divina abre-nos a possibilidade de reconhecer o erro, reparar o mal e recomeçar.

Neste dia de São Francisco de Assis, o Papa apresentou-o como um trabalhador fecundo na vinha do Senhor. Francisco respondeu ao chamamento de reparar a Igreja começando pela própria vida, fundada em Cristo, e pelo amor fraterno capaz de sanar a discórdia.

O seu exemplo convida-nos a receber o mundo com gratidão e a habitar nele com respeito. A vida, as pessoas e a criação pedem mãos que cuidem. A fraternidade começa quando reconhecemos que o outro tem uma dignidade que não depende da nossa vontade nem dos nossos interesses.

Na Eucaristia, recebemos o Filho que se entrega por nós. O dom de Deus torna-se alimento para aprendermos a dar: tempo, atenção, perdão, presença. É nestes gestos que a vinha da nossa vida pode produzir fruto.

Senhor, ensina-nos a reconhecer a vida como dom. Que a confiança que depositas em nós se transforme em cuidado, justiça e fraternidade. E que, com São Francisco, aprendamos a agradecer, a servir e a construir a paz.

Ámen.

Francisco Vaz

4 de outubro de 2026

domingo, 20 de setembro de 2026

D. Paulo Romeu Dantas Bastos


Nascido em Nova Soure, no estado da Bahia, em 20 de agosto de 1955, estudou inicialmente na sua terra natal e em Alagoinhas. Formou-se como técnico agropecuário e trabalhou na Embrapa antes de ingressar no seminário. Estudou Filosofia no Seminário Central da Bahia e Teologia no Seminário de Viamão.

Foi ordenado sacerdote em 18 de maio de 1985, na cidade de Barreiras. Durante o ministério presbiteral, exerceu funções paroquiais, acompanhou a Pastoral da Juventude e a pastoral familiar, foi coordenador diocesano de pastoral, pároco da Catedral de São João Batista e vigário-geral da Diocese de Barreiras.

Nomeado bispo de Alagoinhas por São João Paulo II, em 24 de abril de 2002, recebeu a ordenação episcopal em 27 de julho desse ano. Depois de quase duas décadas em Alagoinhas, foi transferido pelo Papa Francisco para a Diocese de Jequié, em 13 de janeiro de 2021, tendo tomado posse em 19 de março.

A sua formação, que inclui a experiência profissional anterior ao sacerdócio e um longo percurso pastoral, ajuda a compreender o tom simples, próximo e concreto da sua pregação, muito centrada na bondade de Deus, na confiança e na vida quotidiana das comunidades. (síntese biográfica)

Nota:

https://www.amissanobrasil.com.br/bispos/dom-paulo-romeu-dantas-bastos

XXV Domingo do Tempo Comum

«Para mim, viver é Cristo»

Na Eucaristia deste domingo, presidida por D. Paulo Romeu, bispo de Jequié, na Bahia, ficaram-me particularmente presentes duas ideias que atravessam as leituras: a bondade de Deus ultrapassa os nossos cálculos e a vida cristã só encontra o seu sentido pleno quando pode afirmar, com São Paulo: «Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro».

Paulo escreve estas palavras aos cristãos de Filipos, cidade da Macedónia e colónia romana. Ali fundara, cerca do ano 50, a primeira comunidade cristã conhecida em território europeu. Os Filipenses conservaram por ele uma especial afeição e apoiaram-no materialmente durante a sua missão. Paulo escreve-lhes da prisão, agradecendo a ajuda recebida, exortando-os à unidade e preparando-os para a possibilidade da sua morte.

As suas palavras não exprimem desprezo pela vida, nem uma atração pelo sofrimento. Quando afirma que «morrer é lucro», Paulo proclama que a morte já não possui a última palavra. Para quem vive em Cristo, morrer não é cair no nada, mas alcançar a plenitude da comunhão com aquele que já dá sentido à existência. Contudo, Paulo reconhece que permanecer vivo pode ser necessário para continuar a servir os irmãos. A sua vida já não lhe pertence inteiramente: tornou-se missão.

As cartas de Paulo entraram no Novo Testamento porque as primeiras comunidades reconheceram nelas um testemunho autorizado da fé apostólica. Escritas inicialmente para responder a situações concretas, foram depois lidas nas assembleias, copiadas e partilhadas entre as Igrejas. A formação do cânone foi gradual: as cartas paulinas já circulavam como coleção entre o final do século I e o início do século II; no século IV, a lista dos 27 livros do Novo Testamento ficou claramente estabelecida, aparecendo na Carta Festal de Santo Atanásio, em 367, e sendo posteriormente confirmada pelos sínodos de Hipona e de Cartago.

Na homilia de D. Paulo Romeu, a parábola dos trabalhadores da vinha foi apresentada como revelação da bondade de Deus. O proprietário sai repetidamente à procura de trabalhadores: de manhã cedo, ao longo do dia e quase ao cair da tarde. A sua preocupação não é apenas o rendimento da vinha. Ele não quer que nenhum homem termine o dia sem trabalho, sem salário e sem pão para levar para casa.

À hora do pagamento, todos recebem o mesmo denário. Os primeiros protestam, não porque tenham recebido menos do que lhes fora prometido, mas porque os últimos receberam o mesmo. A sua revolta nasce da comparação. Desejam para si a justiça do contrato, mas recusam aos outros a generosidade.

É aqui que a parábola nos atinge. Aceitamos facilmente a bondade de Deus quando somos os seus beneficiários; temos maior dificuldade em aceitá-la quando alcança aqueles que julgamos menos merecedores. Todavia, como recorda Isaías, os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos, nem os seus caminhos são os nossos caminhos. A bondade divina rompe os nossos esquemas, ultrapassa a contabilidade dos méritos e não se deixa aprisionar pelas hierarquias que construímos.

Deus não ama por comparação. Aquilo que concede ao outro nada retira ao amor que me oferece. A misericórdia concedida a quem chegou tarde não representa uma injustiça para quem trabalhou desde a primeira hora. Diante de Deus, ninguém fica definitivamente reduzido aos seus atrasos, fracassos ou desvios. Enquanto durar o dia, permanece aberto o chamamento para a vinha.

Reunidos em torno do altar, somos também aqueles trabalhadores chamados pelo Senhor. Mas não comparecemos como assalariados que exigem um pagamento proporcional ao serviço realizado. Aproximamo-nos como filhos que recebem gratuitamente o amor do Pai. O nosso verdadeiro denário é o próprio Cristo.

Na Eucaristia, Cristo não morre e ressuscita novamente: o seu único sacrifício pascal torna-se sacramentalmente presente. E todos recebem o mesmo Senhor — aquele que chegou primeiro e aquele que chegou mais tarde, o fiel e o que regressou, o forte e o ferido. Cristo entrega-se inteiramente a cada um.

«Viver é Cristo» significa, portanto, abandonar a contabilidade espiritual e aprender a olhar os outros com a generosidade de Deus. Significa transformar a vida recebida em serviço, gratidão e entrega. Mesmo na tribulação, permanece esta certeza: Deus pode não nos poupar a todas as dificuldades, mas nunca nos deixa faltar o seu amor.

Regressamos, assim, às nossas casas com alegria. Não apenas porque recebemos a bondade de Deus, mas porque somos enviados para a tornar presente. Quem recebeu gratuitamente Cristo na Eucaristia é chamado a ser, no mundo, testemunha da mesma bondade que não exclui ninguém e que ultrapassa todos os nossos cálculos.

Francisco Vaz

20 de setembro de 2026

domingo, 13 de setembro de 2026

XXIV Domingo do Tempo Comum

Reflexão para o XXIV Domingo do Tempo Comum

«Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?»
(Mt 18,33)

O tema que a Palavra de Deus nos propõe é fácil de enunciar, mas difícil de viver: o perdão. Todos reconhecemos a sua beleza quando somos nós a recebê-lo; descobrimos, porém, a sua exigência quando somos chamados a concedê-lo.

A primeira leitura adverte-nos: «O rancor e a ira são coisas detestáveis». Não porque a dor causada pela ofensa seja imaginária ou insignificante, mas porque o ressentimento, quando consentido e alimentado, prolonga dentro de nós o poder daquele que nos feriu. A ofensa aconteceu num determinado momento; o ressentimento encarrega-se de a repetir todos os dias.

Perdoar não significa afirmar que o mal não aconteceu. Não é esquecer por obrigação, desculpar o indesculpável ou renunciar à justiça. Também não implica necessariamente restabelecer uma relação que se tornou perigosa ou moralmente destrutiva. Há situações em que perdoar exige distância, prudência e proteção. O perdão não transforma o mal em bem nem retira ao culpado a sua responsabilidade. Impede, isso sim, que o mal recebido se converta no mal que passamos a transportar e, porventura, a transmitir aos outros.

É neste sentido que perdoar significa abdicar do direito ao ressentimento.

Quem foi ofendido pode sentir que adquiriu o direito de conservar a mágoa, alimentar a indignação e desejar que o outro sofra. Humanamente, esse sentimento parece compreensível. Mas Cristo chama-nos a uma liberdade maior: não permitir que a injustiça determine definitivamente aquilo em que nos tornamos.

Abdicar do ressentimento não é renunciar à dignidade; é recuperá-la. É dizer: “O que me fizeste foi real e foi injusto, mas não concederei a esse mal o poder de governar o meu coração.” O perdão não altera o passado, mas liberta o futuro.

Pedro pergunta a Jesus quantas vezes deverá perdoar: «Até sete vezes?» Julgava já propor uma medida generosa. Jesus responde: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.» Não se trata de substituir um limite por outro mais elevado. Na linguagem bíblica, trata-se de retirar ao perdão qualquer contabilidade. O amor não conserva um livro de débitos para decidir quando termina a misericórdia.

A parábola do servo impiedoso mostra-nos a desproporção entre a dívida imensa que lhe foi perdoada e a pequena dívida que ele se recusou a perdoar. O problema daquele servo não está apenas na crueldade do seu comportamento. Está no facto de ter recebido misericórdia sem permitir que ela transformasse a sua maneira de olhar o próximo.

Também nós podemos receber o perdão de Deus e continuar a viver como cobradores implacáveis das dívidas alheias. Podemos aproximar-nos da confissão, escutar as palavras da absolvição e, apesar disso, conservar cuidadosamente os nossos “pecados de estimação”: juízos, rancores, desprezos e antigas feridas que não desejamos entregar verdadeiramente a Deus.

É por isso que o perdão tem uma dimensão pessoal, mas também comunitária. O pecado nunca fica inteiramente fechado naquele que o pratica. Rompe relações, envenena ambientes, endurece palavras e instala silêncios. Numa família onde ninguém perdoa, até uma refeição pode tornar-se irrespirável. Numa comunidade dominada pelo ressentimento, as pessoas podem permanecer exteriormente juntas, mas já não vivem em comunhão.

Ao contrário, uma comunidade que aprende a perdoar é uma comunidade que respira.

Como recordou o cónego Gianfranco Bianco, quem não perdoa acaba por ficar parado. Transporta, por vezes durante toda a vida, as humilhações da infância, as desilusões familiares, as amizades perdidas ou as injustiças sofridas. O passado deixa de ser memória e transforma-se numa prisão. A pessoa já não vive a partir do que é, mas reage continuamente ao que lhe fizeram.

Por isso, o primeiro beneficiário do perdão é aquele que perdoa. Mesmo que o ofensor não reconheça a culpa, não peça desculpa ou não aceite a reconciliação, aquele que perdoa entra num espaço interior novo. Deixa de entregar ao outro a chave da sua paz.

Contudo, esta liberdade não nasce apenas do esforço humano. A nossa reação espontânea é defender-nos, retribuir e conservar a ofensa como argumento contra o outro. O perdão cristão é sobrenatural porque nasce da presença de Cristo em nós. Não perdoamos porque somos insensíveis ao mal, mas porque fomos alcançados por um amor maior do que o mal.

O segredo está em recordar quantas vezes fomos perdoados pelo Senhor. O cristão não perdoa a partir de uma superioridade moral, como se fosse melhor do que aquele que o ofendeu. Perdoa como alguém que sabe viver de uma misericórdia recebida.

O Papa Francisco comparava o perdão a uma ressurreição: quando alguém, esmagado pela culpa, recebe a misericórdia de Deus, volta à vida. A graça não apaga magicamente as consequências dos atos, mas restitui à pessoa a possibilidade de recomeçar. «A vossa graça, Senhor, vale mais do que a vida», canta o salmista, porque é a graça que reconstrói aquilo que o pecado destruiu.

Perdoar é, portanto, um ato pascal. É recusar que a morte tenha a última palavra numa relação ou dentro de nós. É atravessar a memória dolorosa sem permanecer sepultado nela. É entregar a Deus o desejo de vingança e pedir-lhe que faça nascer vida onde apenas parecia existir ruína.

Talvez não consigamos perdoar tudo de uma só vez. Há perdões que não são um instante, mas um caminho; não são uma emoção, mas uma decisão renovada diariamente. Podemos ainda sentir a ferida depois de termos decidido perdoar. Isso não significa que o perdão tenha sido falso. Significa apenas que a vontade já escolheu a liberdade, enquanto o coração continua lentamente a aprender a paz.

Neste domingo, a pergunta decisiva não é apenas: “Quem me ofendeu?” É também: “Que ressentimento continuo a considerar um direito meu?” E ainda: “Que dívida continuo a cobrar, depois de Deus me ter perdoado uma dívida incomparavelmente maior?”

Perdoar é colocar a justiça nas mãos de Deus e recusar tornar-nos prisioneiros do mal que sofremos. É libertar o outro da nossa vingança e libertarmo-nos da presença corrosiva do outro dentro de nós.

Quem perdoa não declara que nada aconteceu. Declara que o mal acontecido não decidirá o futuro.

Perdoar é devolver a vida. É permitir que o coração volte a respirar. É abdicar do direito ao ressentimento para receber, das mãos de Deus, o dom maior da paz.

Francisco Vaz

13 de setembro de 2026

domingo, 6 de setembro de 2026

XXIII Domingo do Tempo Comum

Ganhar o irmão

Há uma pergunta antiga que atravessa as leituras deste domingo: «Sou eu o guarda do meu irmão?»

A resposta cristã é clara: não podemos ser indiferentes ao destino do outro. Mas cuidar do irmão não significa julgá-lo ou condená-lo. Significa aproximarmo-nos dele com verdade e caridade.

É esse o sentido da correção fraterna proposta por Jesus. Perante o erro, o primeiro gesto não é falar do outro, mas falar com o outro. A sós, com respeito pela sua dignidade, procurando recuperar e não humilhar.

Por isso, talvez a frase mais bela do Evangelho seja: «Se te escutar, terás ganho o teu irmão.»

Não se trata de ganhar uma discussão. Não se trata de provar que temos razão. Trata-se de ganhar o irmão.

Na homilia deste domingo, o Padre Noé recordava precisamente que corrigir exige humildade, escuta e prudência. E Leão XIV, no Angelus, sublinhava que até os conflitos podem transformar-se em oportunidades de crescimento quando são vividos na sinceridade e na caridade.

Num tempo em que tantas divergências terminam em afastamento, o Evangelho propõe outro caminho: aproximar, escutar, perdoar, reconstruir.

Talvez seja por isso que Jesus termina dizendo: «Onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles.»

Quando conseguimos atravessar a distância criada pela ofensa, pelo orgulho ou pela incompreensão e voltamos a reconhecer-nos como irmãos, Cristo volta a estar no meio de nós.

Essa é a verdadeira vitória cristã: não vencer o outro, mas ganhar o irmão.

Francisco Vaz

6 de setembro de 2026


domingo, 30 de agosto de 2026

XXII Domingo do Tempo Comum

«Não vos conformeis com este mundo»

As leituras deste domingo colocam-nos perante uma questão essencial: como reconhecer o caminho de Deus quando ele não coincide com aquele que desejaríamos?

Jeremias confessa: «Seduziste-me, Senhor, e eu deixei-me seduzir». O encontro com Deus não lhe trouxe uma vida mais fácil, mas acendeu nele um fogo que já não conseguia apagar. O salmo exprime a mesma experiência: «A minha alma tem sede de Vós, meu Deus.» Há no homem uma sede que as coisas do mundo não conseguem preencher.

São Paulo dá-nos então uma chave fundamental: «Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente.»

É precisamente esta transformação que ainda falta a Pedro no Evangelho. Ele ama Jesus, mas, quando Cristo anuncia que irá sofrer e morrer, tenta mostrar-Lhe outro caminho. Jesus responde-lhe: «Não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens.»

Como salientou o padre Noé na homilia, também nós fazemos muitas vezes o mesmo. Rezamos a Deus, mas ao mesmo tempo queremos indicar-Lhe aquilo que deveria acontecer. Queremos segui-Lo, mas gostaríamos de ser nós a escolher o caminho.

Jesus inverte esta lógica: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.»

A cruz não significa procurar o sofrimento nem pensar que Deus o deseja. Significa não abandonar o amor quando amar começa a ter um preço.

Não escolhemos tudo aquilo que nos acontece. Não conseguimos evitar todas as perdas, dificuldades ou sofrimentos. Mas permanece uma liberdade fundamental: podemos escolher aquilo que fazemos com aquilo que nos acontece.

É também por isso que São Paulo fala da nossa vida como «sacrifício vivo». O sacrifício cristão não é destruição: é oferta. Cristo não oferece simplesmente alguma coisa. Oferece-Se.

«Não vos conformeis com este mundo» não significa, portanto, fugir dele. Significa não aceitar que o mundo determine completamente aquilo que somos. Significa conservar a liberdade de escolher o bem, de olhar para quem sofre, de não virar a cara, de permanecer fiel e de amar.

Jeremias fala de um fogo.
O salmista fala de sede.
Paulo fala de transformação.
Cristo fala da cruz.

No fundo, todos falam do mesmo caminho: sair de nós próprios para encontrar Deus e o outro.

Porque talvez a vida não se encontre apenas naquilo que conseguimos conservar, mas sobretudo naquilo que fomos capazes de transformar em dom.

Reflexão a partir das leituras do XXII Domingo do Tempo Comum e da homilia do Padre Noé.

Francisco Vaz

30 de agosto de 2026