CORO

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quinta-feira, 23 de abril de 2026

Leão VIX

 Autoridade moral global

O tempo que nos é dado viver em muito se assemelha com a Idade Média, em que reis e imperadores se insurgiam contra o pontífice romano e, sob o risco de excomunhão, fomentavam a ascensão de antipapas.

O ataque de Donald Trump a Robert Francis Prevost tem algo de tão desmedido que parece deslocar as relações internacionais para um plano quase irreal, próximo de uma Gotham City. Peter Thiel, o poderoso tecnocrata libertário embriagado pela pós-democracia, agora precisa decidir: ou o Papa é o Anticristo ou Trump é o Anticristo. 

A tensão atingiu tal grau que as soluções diplomáticas clássicas se tornam difíceis de imaginar. As imagens que surgem são deliberadamente excessivas: Trump em penitência pública às portas de Roma, ou, no extremo oposto, um Papa alvo de uma operação clandestina. Hipérboles, certamente — mas reveladoras da degradação do discurso e da crescente incapacidade de mediação racional.

Importa, por isso, ir além do ruído e fixar três ideias essenciais.

A primeira prende-se com o Conclave. Frequentemente descrito como um colégio envelhecido e distante do mundo contemporâneo, voltou a revelar uma notável lucidez geopolítica. Nas últimas décadas, com exceção da eleição de Joseph Ratzinger — menos vocacionado para a arena internacional —, os cardeais escolheram figuras com clara projeção global: Karol Wojtyła, no contexto da Guerra Fria; Jorge Mario Bergoglio, primeiro pontífice oriundo do Sul Global; e agora Leão XIV, um papa norte-americano com profundas ligações ao Peru. A sua eleição representa mais um passo na internacionalização da Igreja, impulsionada por um colégio cardinalício cada vez mais marcado pelo Sul Global — que, de forma significativa, escolheu um nome vindo da própria superpotência americana.

A segunda ideia diz respeito ao presidente dos Estados Unidos. As suas declarações, classificando o Papa como “fraco” ou “incompetente”, não são apenas desproporcionadas — são, para usar a célebre expressão de Charles-Maurice de Talleyrand, piores do que um erro: são uma imprudência. Ao atacar o chefe da Igreja Católica, Trump arrisca afastar não só setores progressistas, mas também parte do eleitorado conservador católico, já desconfortável com algumas das suas posições.

O efeito mais visível desse ataque é, aliás, paradoxal: acabou por transformar Leão XIV numa referência moral de oposição ao trumpismo. Não por escolha própria. O Papa procurou inicialmente manter a tradição diplomática da Santa Sé, evitando confrontos diretos. Mas a escalada retórica — incluindo ameaças de guerra — acabou por o obrigar a uma posição mais clara. As suas palavras, evocando o profeta Isaías ou apelando à rejeição de conflitos injustos, assinalam essa inflexão.

Quando confrontado diretamente com Trump, Leão XIV respondeu com sobriedade: não pretende entrar num confronto político, mas reafirma princípios que considera inegociáveis — a paz, a dignidade humana e a fidelidade à mensagem evangélica.

Resta uma última nota, talvez a mais significativa. Num mundo em rápida transformação, onde normas e equilíbrios se fragmentam, a Igreja Católica — com todas as suas imperfeições históricas — reaparece como um dos poucos atores com autoridade moral global. Sob a liderança de Leão XIV, afirma-se como voz de diálogo, de contenção e de defesa dos mais vulneráveis.

Num tempo marcado pelo ruído e pela radicalização, essa voz não é apenas relevante. É, talvez, indispensável.

Nota:

Reflexão inspirada no artigo de Marco Politi, publicado por Il Fatto Quotidiano em 13-04-2026.

Francisco Vaz

22 de Abril de 2026

O Coro amador

 

Lugar de cultura, comunidade e humanidade

Num tempo marcado pela fragmentação social e pela aceleração individualista, o coro — sobretudo o coro amador — surge como uma das mais discretas, mas profundas, formas de resistência cultural. As reflexões de Edgar Saramago conduzem-nos a uma compreensão mais ampla do fenómeno coral: não apenas como prática artística, mas como espaço de construção humana.1

A história do canto coral confunde-se com a própria história da civilização ocidental. Desde os primeiros cânticos litúrgicos até ao desenvolvimento da polifonia, o coro foi sempre mais do que som organizado — foi linguagem espiritual, memória coletiva e expressão de transcendência. A referência a Guido d'Arezzo não é apenas técnica; marca o momento em que a música se fixa, se transmite e se torna património. O coro, nesse sentido, é herdeiro de uma tradição milenar onde o indivíduo encontra o seu lugar numa harmonia maior.

Mas é na contemporaneidade que o coro amador revela a sua singular relevância. Num país como Portugal, onde a profissionalização musical é limitada, o tecido coral sustenta grande parte da vida musical. E fá-lo de forma silenciosa, muitas vezes invisível, sem o reconhecimento institucional que outras áreas culturais recebem. Esta ausência levanta uma questão estrutural: pode uma sociedade aspirar à coesão e ao desenvolvimento sem investir na sua cultura?

O coro amador responde, na prática, a essa interrogação. Ele é um espaço de democratização cultural, onde não há exigência de elite, mas sim abertura à participação. Cantar em coro é um exercício de escuta, disciplina e integração. Cada voz conta, mas nenhuma se impõe. Há aqui uma pedagogia implícita: aprender a estar com os outros, a ajustar-se, a construir algo comum sem apagar a singularidade.

Mais ainda, o coro funciona como uma verdadeira comunidade. Não por acaso, muitos o descrevem como uma “família”. Num mundo onde a solidão cresce como problema social, esta dimensão torna-se essencial. O canto coletivo cria vínculos, atravessa gerações, aproxima idades e experiências. Jovens e idosos partilham o mesmo espaço sonoro, o mesmo tempo, a mesma respiração.

A ciência começa, aliás, a confirmar aquilo que a experiência sempre soube. Estudos divulgados por organizações como a BBC World Service mostram que o canto coral promove o bem-estar físico e psicológico: reduz o stress, estimula a memória, ativa hormonas associadas ao prazer e à confiança. Mais do que uma atividade artística, o coro é um instrumento de saúde pública — acessível, inclusivo e eficaz.

Mas talvez a sua maior virtude resida noutra dimensão, mais difícil de quantificar: a capacidade de dar sentido. Num coro, a relação entre texto e música — seja na sobriedade da escrita silábica ou na expressividade do melisma — revela que a palavra pode ser ampliada, iluminada, transfigurada. Cantar é, nesse sentido, interpretar o mundo. E fazê-lo em conjunto é reconhecer que o sentido não é propriedade individual, mas construção partilhada.

Neste contexto, a escassez de investimento cultural não é apenas uma falha política; é uma miopia civilizacional. Ignorar o valor do canto coral é ignorar um dos mais eficazes meios de coesão social, educação estética e equilíbrio humano. Promover coros amadores não é um luxo — é uma necessidade.

Talvez por isso a pergunta mais pertinente não seja por que razão existem poucos coros profissionais, mas por que razão não reconhecemos plenamente o valor dos coros amadores. Neles reside uma forma de riqueza que não se mede em indicadores económicos, mas em qualidade de vida, em densidade cultural e em humanidade partilhada.

No fim, o coro não é apenas metáfora — é prova. Prova de que a harmonia não nasce da uniformidade, mas da diferença reconciliada; de que a comunidade não se decreta, constrói-se; de que a cultura não é ornamento, é fundamento. Onde uma sociedade deixa morrer o canto comum, começa a perder a sua própria voz.

E, no entanto, basta um acorde sustentado no ar para lembrar o essencial: que somos feitos para escutar, para responder, para nos inscrever numa música que nos ultrapassa. No coro, cada voz é limite e possibilidade; cada silêncio, promessa. Ali, no entrelaçar das respirações, a humanidade reencontra-se — não como soma de indivíduos, mas como presença partilhada.

Que não nos falte, pois, esta coragem humilde: cantar juntos. Porque enquanto houver vozes que se levantam em comum, haverá futuro.

Francisco Vaz

14 de Abril de 2026

Nota

1. Edgar Saramago, Música Coral, A importância Sócio-cultural do coro amador na sociedade moderna, Auditório do Centro Comercial da Portela, 11 de Junho de 2024.

sábado, 4 de abril de 2026

Páscoa e silêncio de Deus

Entre a cruz e a ressurreição

A Páscoa cristã coloca-nos diante de um dos paradoxos mais exigentes da experiência humana: o triunfo da vida que nasce do silêncio. Entre a cruz e a ressurreição estende-se um tempo denso — o intervalo do Sábado Santo — em que Deus parece ausente, a história suspensa e o sentido obscurecido. É precisamente nesse silêncio que se joga, de modo decisivo, a compreensão de Deus e do próprio humano.

Vivemos numa cultura que tende a rejeitar o silêncio. Procuramos respostas imediatas, explicações rápidas, soluções eficazes. O sofrimento é frequentemente marginalizado, tratado como anomalia a eliminar ou a ocultar. No entanto, a experiência pascal introduz uma outra lógica: não a fuga ao silêncio, mas a sua habitação. O silêncio de Deus não é vazio nem indiferença; é uma presença que não se impõe, que respeita a liberdade e a fragilidade humanas. Um Deus que não violenta nem se substitui ao humano, mas que abre espaço para uma resposta livre.

Neste horizonte, a cruz deixa de ser apenas um símbolo religioso para se tornar um espelho da condição humana. Nela se inscrevem a dor, a injustiça, o abandono — tudo aquilo que marca a vulnerabilidade do viver. Mas o silêncio que a envolve não anula essa realidade; antes, confere-lhe uma profundidade inesperada. Não se trata de justificar o sofrimento, mas de reconhecer que, mesmo nele, permanece a possibilidade de relação, de compaixão e de sentido.

É aqui que a Páscoa revela a sua dimensão antropológica mais radical. O ser humano manifesta-se como um ser capaz de permanecer na noite, de suportar o não-sentido sem sucumbir ao desespero. A esperança pascal não é evasão, mas travessia. Num tempo que valoriza a eficiência e a visibilidade, reaprende-se a importância da espera, da fidelidade e da confiança no invisível.

Mas a Páscoa é também uma interpelação teológica profunda. O silêncio de Deus não significa ausência, mas um modo distinto de presença. Um Deus que não se impõe pela força, mas que se revela na fragilidade; que não domina a história de fora, mas a habita por dentro, até às suas zonas mais obscuras. A ressurreição não apaga o silêncio da cruz — confirma-o como parte integrante de um mistério maior, onde a vida emerge não apesar da morte, mas através dela.

Por fim, há uma dimensão ontológica que não pode ser ignorada. A cruz expõe o risco inscrito no próprio ser: a possibilidade de negação, de violência, de destruição. O silêncio de Deus torna-se, então, o espaço onde o humano é chamado a decidir. Ou reconhece o outro na sua dignidade irrepetível, ou cede à tentação de o reduzir a meio, a número, a obstáculo. Quando esse reconhecimento falha, não estamos apenas perante uma crise moral, mas perante uma verdadeira fratura do ser.

É neste ponto que a reflexão pascal se torna particularmente atual. Vivemos uma mudança de época marcada por avanços tecnológicos, tensões geopolíticas e transformações culturais profundas. No entanto, a crise mais inquietante não é apenas externa — é uma crise do próprio humano. Multiplicam-se sinais de desumanização: a indiferença perante o sofrimento, a polarização que transforma o outro em inimigo, a incapacidade de reconhecer no rosto alheio uma dignidade comum.

Perante este cenário, o silêncio de Deus não pode ser interpretado como legitimação da indiferença. Pelo contrário, ele intensifica a responsabilidade humana. Se Deus não intervém de modo evidente para impedir a violência, é porque confia ao humano a tarefa de a superar. O tempo entre a cruz e a ressurreição torna-se, assim, o tempo da escolha: permanecer junto dos que sofrem ou passar ao largo.

A ressurreição, por sua vez, não é apenas promessa futura; é critério para o presente. Afirma que nenhuma forma de desumanização tem a última palavra. Mas essa afirmação não se realiza automaticamente: exige mediação concreta, gestos, escolhas, compromissos. Exige homens e mulheres capazes de reconhecer no outro — sobretudo no mais vulnerável — um apelo irrecusável.

Num mundo que parece esquecer o que significa ser humano, a Páscoa recorda que é precisamente no silêncio — esse lugar incómodo e exigente — que o humano se define. Não como ideia abstrata, mas como prática viva: permanecer, reconhecer, responder. Entre a cruz e a ressurreição, joga-se, ainda hoje, o destino da nossa humanidade.

Francisco Vaz

4 de Abril de 2026

Sábado Santo

domingo, 15 de março de 2026

IV Domingo da Quaresma (15 de março de 2026)

Reflexão a partir da homilia do Cónego Gianfranco Bianco

A liturgia deste IV Domingo da Quaresma convida-nos a refletir sobre a forma como Deus olha para o homem e sobre a maneira como o homem aprende a ver Deus. A homilia começou com uma pergunta aparentemente simples: qual é o país onde Jesus nasceu? A resposta remete-nos para Israel, cuja bandeira branca ostenta uma estrela azul conhecida como Estrela de David. Esta estrela recorda a figura do rei David, um dos grandes protagonistas da história bíblica.

A escolha de David como rei de Israel revela um traço fundamental da lógica de Deus. A pedido divino, o profeta Samuel foi à casa de Jessé para escolher aquele que deveria governar o povo. Humanamente, os irmãos mais velhos de David pareciam possuir melhores qualidades: eram mais fortes, mais imponentes, mais adequados aos critérios humanos de poder. No entanto, Deus escolheu o mais improvável. David estava no campo a guardar o rebanho.

Este episódio ensina-nos que Deus não escolhe segundo os critérios humanos de prestígio ou força. Muitas vezes manifesta a sua vontade precisamente através da fraqueza e da humildade. Aquilo que parece pequeno aos olhos do mundo pode tornar-se grande quando é chamado por Deus. A escolha divina não é um privilégio, mas uma missão. Por isso, o essencial não é procurar grandeza, mas pedir a Deus a graça de aceitar a missão que Ele nos confia.

Fazer a vontade de Deus significa, no fundo, escolher o caminho da verdadeira felicidade. Foi isso que aconteceu com David: Deus escolheu o mais fraco e depois fortaleceu-o.

A homilia conduziu então ao Evangelho deste domingo, que narra a cura do cego de nascença. Jesus Cristo aproxima-se daquele homem, cospe no chão, mistura a saliva com a terra e faz barro. Depois coloca-o nos olhos do cego e manda-o lavar-se na piscina de Siloé. O homem obedece e regressa vendo.

Este gesto possui um significado profundo. O cego de nascença representa a condição humana. De certo modo, todos nós nascemos cegos: não conhecemos plenamente Deus nem compreendemos inteiramente o sentido da vida.

Existem duas formas de ver. Podemos ver apenas com os olhos do corpo ou aprender a ver com os olhos do coração. A verdadeira visão começa quando nos deixamos tocar pela palavra de Cristo. A saliva de Jesus, no gesto simbólico do Evangelho, representa precisamente essa palavra viva que purifica o coração humano.

Contudo, a visão torna-se plena quando mergulhamos nas águas do batismo. Nessas águas morre o homem velho e nasce o homem novo. A tradição cristã recorda que Jesus foi batizado no Rio Jordão, um dos lugares mais baixos da terra. Este detalhe possui um forte simbolismo: Cristo desceu até ao ponto mais baixo para poder resgatar o homem e elevá-lo novamente.

Nesta linha, o Papa Francisco afirmou que ninguém deveria morrer sem ter sido verdadeiramente tocado por Cristo. A vida cristã consiste precisamente em permanecer permeável à sua palavra, permitindo que ela transforme progressivamente o coração humano.

Mas o Evangelho recorda também que seguir Cristo tem um preço. A experiência do homem curado é tão radical que ele corre o risco de ser expulso da sinagoga. Algo semelhante acontece ainda hoje: quando alguém assume com clareza a sua fé cristã, pode encontrar incompreensão ou rejeição.

Contudo, o Evangelho revela algo decisivo: Jesus não abandona aquele que o encontrou. Quando o homem é rejeitado pelos outros, Jesus volta a procurá-lo. A relação com Cristo é uma relação de fidelidade. Quando aderimos a Ele, é como se o nosso próprio ego assinasse um cheque em branco: confiamos a nossa vida àquele que nos chamou.

A fé é, portanto, um caminho de confiança. Pedimos a Jesus que nos dê olhos novos para podermos dizer com verdade: “Eu creio”. Mesmo que hoje a nossa visão ainda seja imperfeita, sabemos que um dia poderemos contemplar plenamente aquilo em que acreditamos.

Como ensinava Ireneu de Lyon, a verdadeira visão do homem consiste precisamente em acreditar em Cristo. A fé abre uma nova forma de ver o mundo.

A sabedoria humana também pressentiu esta verdade. Um antigo provérbio chinês afirma que o sábio não é aquele que apenas contempla a montanha, mas aquele que procura ver o que existe para lá dela.

Também a fé cristã nos convida a olhar para além do imediato, para além do visível, para além das limitações do presente. A Quaresma é precisamente este tempo de aprendizagem do olhar: aprender a ver com os olhos do coração, para que um dia possamos contemplar plenamente a luz que já começou a iluminar a nossa vida.


Francisco Vaz

15 de março de 2026

domingo, 8 de março de 2026

III Domingo da quaresma - 8 de Março 2026

Reflexão a partir da homilia do Diácono João Maia

O Evangelho segundo São João apresenta-nos hoje uma das páginas mais profundas de todo o Novo Testamento: o encontro de Jesus com a Samaritana junto ao poço.

O cenário não é indiferente. Jesus Cristo encontra-se em território inimigo, na terra dos Samaritanos. Judeus e Samaritanos evitavam-se mutuamente, desconfiavam uns dos outros, mantinham uma distância antiga e profunda. E, no entanto, é precisamente aí que Jesus decide passar. Jesus não escolhe apenas os lugares seguros; atravessa também os territórios onde há divisão, feridas e desconfiança.

Jesus aproxima-se de um poço. E ali chega uma mulher Samaritana. Vem buscar água à hora em que normalmente não está ninguém. Não vem de manhã cedo, quando todas as outras mulheres da aldeia se encontram. Vem sozinha. A tradição diz-nos porquê: sabe-se pecadora. Teve cinco maridos e vive agora com um homem que não é o seu. Carrega consigo o peso da sua história e talvez também o olhar julgador da comunidade.

E é com esta mulher que começa um diálogo extraordinário.

Ao longo da conversa vemos um caminho interior a acontecer. No início, a mulher olha para Jesus e diz simplesmente: “Tu és Judeu.” Vê nele apenas um homem de um povo estrangeiro. Depois, à medida que o diálogo avança, diz: “Vejo que és um profeta.” Já percebe que há nele algo mais profundo. E, finalmente, reconhece: “Será este o Messias?”

Há aqui um percurso espiritual. Um caminho de descoberta. Um encontro que passa da estranheza inicial à intimidade mais profunda com Cristo.

Quem é este homem que fala com ela? Quem é este homem que conhece a sua vida inteira e, mesmo assim, não a rejeita? Quem é este homem que pede água, mas afinal é fonte de água viva?

A primeira leitura recorda-nos também outro momento da história do povo de Israel. O povo já tinha sido salvo do faraó, já tinha sido libertado da escravidão do Egito. E, no entanto, no deserto começa a murmurar, começa a duvidar: “Está Deus no meio de nós ou não?”

Mesmo depois de tantos sinais, o povo duvida.

E se formos sinceros, também nós conhecemos bem esta experiência. Quantas vezes já vimos a presença de Deus na nossa vida e, ainda assim, voltamos a duvidar? Quantas vezes murmuramos, como o povo no deserto?

Não devemos escandalizar-nos com isso. Moisés também duvidou. Os profetas também duvidaram. Os discípulos vão duvidar. A dúvida faz parte do caminho humano.

O verdadeiro problema não é a dúvida. O verdadeiro problema é esquecermo-nos do nosso coração. Porque é no coração que cada um encontra Deus. É no interior da nossa vida que nasce a verdadeira adoração.

Jesus diz à Samaritana que chegará o tempo em que os verdadeiros adoradores não adorarão apenas neste monte ou em Jerusalém, mas “adorarão o Pai em espírito e verdade.”

A primeira decisão daquela mulher foi reconhecer essa verdade no seu coração. Reconhecer quem estava diante dela.

E, depois disso, acontece algo muito belo: ela corre para a aldeia.

Não consegue guardar para si aquela descoberta. Diz aos outros: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz.”

Quem encontra verdadeiramente Cristo não consegue ficar calado. Uma notícia destas não se guarda para si próprio.

Este é o grande convite deste terceiro domingo da Quaresma. Apesar das nossas dúvidas, apesar das nossas fraquezas, apesar das nossas histórias complicadas, a fonte de água viva não esmorece. Cristo continua a aproximar-se de nós, como se aproximou daquela mulher junto ao poço.

E continua a convidar-nos a beber dessa água que não se esgota.

Se a acolhermos no nosso coração, então acontecerá connosco o mesmo que aconteceu com a Samaritana: sentiremos vontade de correr e de anunciar aos outros que encontrámos alguém que dá sentido à nossa vida.

Que nesta Quaresma possamos também nós reconhecer essa presença no nosso coração e tornar-nos testemunhas dessa água viva no meio do mundo.

Francisco Vaz

8 de março de 2026

quinta-feira, 5 de março de 2026

Pater Noster

Mais do que uma oração

A oração do Pai Nosso, ensinada por Jesus Cristo aos seus discípulos, não é apenas uma fórmula devocional, mas uma síntese pedagógica de extraordinária densidade. Nela se condensa uma visão do ser humano e uma compreensão profunda da comunidade. Mais do que um conjunto de pedidos dirigidos a Deus, o Pai Nosso constitui uma verdadeira escola de humanidade.

Educar cristãmente não significa apenas transmitir conteúdos doutrinais; significa introduzir numa forma de relação: com Deus, com os outros e consigo mesmo. O Pai Nosso estrutura essa relação de modo simples e exigente.

A oração começa com uma invocação que já é reveladora: “Pai nosso”. Deus não é apresentado como uma força distante ou um princípio abstrato, mas como Pai. Esta palavra inaugura uma experiência de confiança e proximidade. Ao mesmo tempo, o “nosso” impede qualquer apropriação individualista. A relação com Deus é imediatamente comunitária. Ninguém reza sozinho; mesmo quando está só, o crente reza inserido numa comunhão.

Esta consciência tem profundas consequências educativas. Educar é ensinar a reconhecer-se filho — não absoluto, não autossuficiente, mas recebido. A filiação funda a dignidade e liberta da ilusão de autocriação. Ao mesmo tempo, educar é ensinar a reconhecer o outro como irmão. Se Deus é Pai, então a fraternidade não é opção sentimental, mas consequência ontológica.

Os pedidos que se seguem ampliam esta pedagogia. “Santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade.” A vida humana é orientada para um sentido que a ultrapassa. A educação cristã não fecha o horizonte na eficácia imediata nem no sucesso individual; abre-o a um bem maior, a uma vontade que chama à confiança e à responsabilidade. Aprender a desejar que a vontade de Deus se cumpra é aprender a sair do egocentrismo.

Depois, a oração desce ao concreto: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje.” Aqui aparece a dimensão material e quotidiana da existência. O pão é sustento, trabalho, justiça. Ao pedir o pão “nosso”, reconhece-se que os bens da terra têm destino comum. A educação cristã forma para esta consciência social: ninguém pode apropriar-se indiferentemente do que é necessário à vida de todos.

Segue-se o pedido do perdão: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos.” Este é talvez o ponto mais exigente da oração. O perdão não é apenas algo que se recebe; é algo que se pratica. A educação cristã inclui a aprendizagem da reconciliação, da superação do ressentimento, da reconstrução dos laços quebrados. Numa sociedade marcada pela polarização e pela exclusão, esta dimensão torna-se particularmente urgente.

Por fim, “não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.” Reconhece-se a fragilidade humana e a presença real do mal. Educar não é idealizar o ser humano, mas ajudá-lo a enfrentar a própria vulnerabilidade. A maturidade cristã nasce da lucidez: somos capazes de bem e de mal, e precisamos de auxílio.

O Pai Nosso revela-se, assim, um itinerário formativo completo. Ensina a relação justa com Deus — confiança filial; a relação justa com os outros — fraternidade e perdão; e a relação justa com o mundo — responsabilidade partilhada pelos bens e pelo sentido da história.

Mais do que recitação, esta oração é exercício de transformação. Ao aprendê-la, a criança aprende uma gramática espiritual que molda a sua visão do mundo. Ao rezá-la, o adulto é continuamente chamado a converter-se ao que professa com os lábios. A educação cristã encontra aqui o seu núcleo: formar pessoas que saibam viver como filhos confiantes, irmãos solidários e homens e mulheres responsáveis.

O Pai Nosso não é apenas uma oração entre outras. É um programa de vida condensado em poucas palavras. E talvez resida aí a sua força intemporal: na simplicidade que contém uma visão inteira do humano à luz de Deus.

Francisco Vaz

4 de Março de 2026

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O mito de origem

Narrativa de sentido

A reflexão sobre a origem do universo, exige que se compreenda o mito não como ficção ilusória, mas como forma própria de conhecimento. O mito é uma narrativa fundadora, estruturada por arquétipos e imagens simbólicas, que visa exprimir aquilo que não pode ser plenamente captado pelo discurso conceptual ou científico. Ele situa-se no “tempo das origens”, esse horizonte que escapa à experiência empírica e ao controlo humano.

No caso cristão, o relato da criação presente no livro do Génesis (Gn 1–11) constitui um mito de origem no sentido mais pleno: não pretende competir com a cosmologia científica, mas oferecer uma interpretação totalizante da realidade. A expressão inaugural — “No princípio” — não indica apenas um ponto cronológico inicial; designa o fundamento ontológico de tudo o que existe. O universo não surge do acaso cego, mas de um acto criador livre e intencional de Deus.

1. O mito como intuição unitária da totalidade

Segundo o texto, o mito é fruto de uma intuição profunda, não redutível nem à imaginação pura nem ao raciocínio dedutivo. O mitógrafo apreende numa visão unitária a totalidade do real e exprime-a por meio de imagens articuladas numa narrativa coerente. Assim, no mito cristão da criação, elementos como a luz, o caos primordial, o jardim, a árvore, o homem e a mulher, a serpente, não são fragmentos isolados; constituem uma rede relacional que só adquire sentido na totalidade do relato.

A criação em sete dias, por exemplo, não é uma cronologia científica, mas uma estrutura simbólica que revela ordem, distinção e harmonia. O caos é vencido pela palavra divina; a luz separa-se das trevas; as águas são delimitadas; a terra torna-se fértil. O universo aparece como cosmos — isto é, como ordem significativa.

2. Criação como relação e dependência radical

O mito cristão afirma que o mundo tem origem na palavra criadora de Deus. Isso significa que o ser do universo é relacional: não é absoluto em si mesmo, mas recebido. A criatura não se funda a si própria; é chamada à existência.

Esta dimensão relacional manifesta-se de modo particular no ser humano, criado “à imagem e semelhança” de Deus. A humanidade é apresentada como sexuada, comunitária e responsável. A diferença homem-mulher, a vocação ao cuidado da terra, a liberdade capaz de obedecer ou transgredir — tudo isso aparece como estrutura constitutiva da existência.

O mito, portanto, não explica apenas “como” o universo começou, mas “o que significa” existir. Ele interpreta a finitude, a mortalidade, o trabalho, o sofrimento e a esperança como dimensões que remontam ao tempo primordial.

3. O carácter etiológico e existencial do mito

Os mitos de origem são relatos etiológicos: explicam o presente remetendo-o ao princípio. No caso de Gn 2–3, o drama da transgressão ilumina a experiência universal da ambiguidade humana: desejo de plenitude e simultânea ruptura; aspiração ao bem e experiência do mal.

A árvore da vida, a árvore do conhecimento, a serpente e a nudez não são simples imagens isoladas; são nós simbólicos que condensam questões fundamentais: liberdade, limite, responsabilidade, vulnerabilidade. O sentido não reside numa frase particular, mas na totalidade narrativa que comunica uma visão integrada da condição humana.

4. O mito cristão e a verdade

Importa sublinhar que o mito, no seu sentido originário (como já em Homero ou em Platão), não significava necessariamente falsidade. Era discurso portador de verdade. O mito cristão da criação afirma uma verdade religiosa: o universo tem fundamento no amor criador de Deus; o ser humano é querido e chamado à comunhão; o mal não é originário, mas resultado de uma liberdade ferida.

A verdade do mito não é experimental, mas existencial e simbólica. Ele não substitui a ciência; responde a outra ordem de questões — aquelas que dizem respeito ao sentido último.

5. A origem como acto permanente

Por fim, a criação, no horizonte cristão, não é apenas um acontecimento passado, mas uma dependência contínua. O “princípio” é permanente: o universo permanece sustentado pelo acto criador. Assim, a origem não é apenas um ponto inicial, mas a fonte constante do ser.

O mito cristão da origem do universo revela, portanto:

  • que o real é dom;

  • que o cosmos é ordem e não absurdo;

  • que o ser humano é relacional e responsável;

  • que a história humana está inscrita numa relação originária com o sagrado.

Longe de ser uma fabulação gratuita, o mito apresenta-se como mediação narrativa de uma intuição profunda: o universo não é apenas um facto, é um sentido. E é precisamente nessa dimensão de sentido que o mito cristão continua a falar ao ser humano contemporâneo, convidando-o a reencontrar-se com o fundamento que o precede e o sustenta.


Francisco Vaz

20 de Fevereiro 2026