Narrativas Fundadoras do Oriente Antigo
Entre os textos mais antigos da humanidade, a Epopeia de Gilgamesh e o Livro de Job ocupam um lugar absolutamente singular. Provenientes de universos culturais distintos — a Mesopotâmia e a tradição hebraica — ambos se erguem como marcos fundadores da reflexão sobre o que é o ser humano. Não se trata apenas de narrativas míticas ou religiosas, mas de investigações radicais acerca da condição humana, da liberdade, do sofrimento, da morte e do sentido último da existência. Em ambos os textos está em jogo o absoluto do acto humano, isto é, aquilo que define o ser humano quando tudo o que é acidental lhe é retirado.
Na Epopeia de Gilgamesh, o momento decisivo ocorre com a morte de Enkidu. Até então, Gilgamesh vivera na expansão da sua força, da sua inteligência e da sua ambição. A amizade com Enkidu tinha transformado a sua tirania inicial numa forma mais elevada de humanidade, fundada na comunhão e no bem-comum. Contudo, quando Enkidu morre, Gilgamesh confronta-se, pela primeira vez, com a evidência da finitude. A morte deixa de ser um acontecimento exterior e torna-se possibilidade pessoal. O pânico que se instala não é meramente emocional; é ontológico. Se o amigo, seu igual em grandeza, pôde morrer, então também ele está destinado ao mesmo fim. Inicia-se, assim, a busca desesperada pela imortalidade. Gilgamesh percorre desertos, atravessa o túnel escuro, encontra o casal sobrevivente do dilúvio, falha a prova da vigília e, por fim, perde a planta da vida eterna. A sua tragédia não reside na falta de poder, mas na incapacidade de compreender que a eternidade não se reduz à sobrevivência biológica. Distrai-se, adormece, esquece-se do essencial. A sua falha é espiritual: nunca coincide plenamente consigo mesmo no acto presente.
No Livro de Job, a experiência-limite assume outra forma. Job não procura a imortalidade; é-lhe retirado tudo o que possui. Perde os bens, os filhos, a saúde, o reconhecimento social. O que está em causa não é apenas a sua resistência psicológica, mas a verdade ontológica da sua bondade. O desafio lançado por Satanás é claro: será Job bom em si mesmo ou apenas porque a vida lhe corre bem? Ao contrário de Gilgamesh, Job não entra numa fuga desesperada. Sofre, lamenta-se, questiona, mas permanece fiel ao bem que reconhece como constitutivo do seu próprio ser. Quando os amigos o acusam, interpretando o seu sofrimento como castigo merecido, acrescentam-lhe uma dimensão política ao sofrimento: a violência do julgamento humano. Ainda assim, Job não abdica da sua integridade interior. Mesmo quando Deus parece juntar-se aos acusadores, manifestando-se de modo incompreensível e esmagador, Job mantém-se fiel ao núcleo ontológico do seu acto. A sua grandeza consiste precisamente nessa fidelidade radical, nessa liberdade que resiste mesmo quando todas as circunstâncias parecem determinar o contrário.
Ambos os textos mostram que a verdade do ser humano se revela na experiência-limite. Quando o acessório desaparece, resta o essencial. Em Gilgamesh, a morte do amigo revela a fragilidade da grandeza humana e a tensão entre o desejo de infinito e a condição finita. Em Job, o sofrimento revela que o bem pode subsistir independentemente de qualquer recompensa externa. Nos dois casos, a interioridade é decisiva: é no acto íntimo que o ser humano se constitui como pessoa. Não é o que possui, nem o poder que exerce, mas o modo como age diante do limite que o define.
Há também uma profunda articulação entre ética e política nas duas narrativas. Gilgamesh começa como tirano e descobre, na amizade com Enkidu, o fundamento do verdadeiro laço político: o bem-comum. A força isolada é destrutiva; a força em comunhão torna-se criadora. Já em Job, a dimensão política manifesta-se na relação com os outros que interpretam, julgam e ampliam o sofrimento. O ser humano não é um ser isolado; a sua existência é constitutivamente relacional. A ética interior encontra sempre a política da convivência.
A diferença decisiva entre as duas obras emerge na questão da eternidade. Gilgamesh procura escapar à morte física e falha. Termina apoiado nas muralhas de Uruk, símbolo de uma perenidade exterior que não resolve o drama interior. O seu percurso revela a grandeza e o desespero do humano que aspira ao infinito, mas não compreende que a eternidade não se conquista por acumulação ou conquista. Job, por sua vez, não vence a morte biológica, mas vence a dissolução do sentido. A sua fidelidade restaura a relação com Deus e reafirma que o bem possui fundamento. A eternidade, aqui, não é prolongamento temporal, mas densidade espiritual do acto.
Assim, tanto a Epopeia de Gilgamesh quanto o Livro de Job podem ser lidos como momentos inaugurais da autoconsciência ética da humanidade. Em ambos, nasce a pergunta pelo sentido do mundo e da vida. Gilgamesh encarna o drama da busca; Job encarna a radicalidade da fidelidade. Um revela a tensão trágica do desejo humano de infinito; o outro afirma a possibilidade de uma resposta fundada na liberdade e na integridade do acto. Juntos, constituem dois pilares da reflexão sobre o que significa ser humano: um ser capaz de aspirar ao divino, de sofrer, de escolher e de, no interior do seu próprio acto, decidir o sentido da sua existência.
Francisco Vaz
24 de fevereiro de 2026