no Mundo das redes sociais
Vivemos tempos estranhos. Nunca a humanidade dispôs de tantos meios para comunicar e nunca pareceu tão incapaz de verdadeiramente se encontrar. Multiplicam-se as guerras entre povos, entre culturas e religiões. Mas talvez as mais perigosas sejam as guerras silenciosas, travadas dentro de cada consciência, onde a verdade cede facilmente lugar ao ruído, a memória ao instante e a esperança à ansiedade.
As redes sociais não inventaram a divisão humana. O conflito acompanha a história desde Caim e Abel. Mas ampliaram-no até uma escala inédita. Cada ecrã tornou-se uma trincheira; cada opinião, uma identidade; cada diferença, uma fronteira. O homem contemporâneo corre o risco de viver permanentemente ligado ao mundo e, paradoxalmente, profundamente desligado da realidade.
Homero descreveu este perigo há quase três mil anos.
Na Odisseia, Ulisses aporta à terra dos Lotófagos. Os habitantes alimentavam-se do fruto do lótus. Quem o provava esquecia imediatamente a pátria, a família, os amigos e até o desejo de regressar. Não havia sofrimento, mas também não havia futuro. Não existia projeto, nem missão, nem fidelidade. Apenas um presente contínuo, indiferente e sem horizonte.
É difícil não reconhecer nesta narrativa uma poderosa metáfora da nossa época.
Também hoje somos constantemente convidados a consumir um outro tipo de lótus. Não cresce em árvores; nasce dos algoritmos, do entretenimento incessante, da sucessão infinita de notícias, imagens e opiniões. Alimenta-se da distração permanente. Pouco a pouco vai enfraquecendo a memória, dissolvendo a capacidade de contemplação e tornando dispensável qualquer pergunta sobre o sentido da existência.
O homem então deixa de caminhar. Vive na insustentável leveza do ser. Perde o peso da memória, da responsabilidade e da esperança.
A consequência não é apenas cultural ou política; é profundamente antropológica. Porque o homem só é verdadeiramente humano quando se lembra de quem é e para onde caminha.
É significativo que uma das primeiras definições de humanidade apareça precisamente na Epopeia de Gilgamesh. Quando Enkidu abandona o estado selvagem, torna-se homem ao comer pão e beber vinho. O pão e o vinho não são apenas alimentos. Representam a entrada na cultura, na comunhão, na hospitalidade, no trabalho partilhado, na celebração e na transcendência. O homem nasce verdadeiramente quando participa numa mesa.
O homem é, desde o princípio da civilização, aquele que come pão e bebe vinho.
Nunca aquele que come lótus.
O pão exige trabalho. O vinho pede tempo. Ambos pressupõem memória, comunidade e esperança. O lótus, pelo contrário, oferece apenas esquecimento.
Talvez por isso Fernando Pessoa tenha descrito o homem sem horizonte como “o cadáver adiado que procria”. A expressão permanece inquietante. Não fala da morte física, mas de uma existência que perdeu a capacidade de desejar, de criar, de amar e de esperar. Uma vida biologicamente activa, mas espiritualmente suspensa.
E, no entanto, nem tudo está perdido.
Ao longo da história sempre existiram homens e mulheres que resistiram à terra do esquecimento. Não foram necessariamente grandes governantes, filósofos ou conquistadores. Foram, muitas vezes, pessoas anónimas.
Recordo a Rosa Fadista, a parteira que ajudou a trazer-me ao mundo. Penso nos antigos médicos de província que passavam décadas na mesma aldeia, conhecendo cada família, acompanhando o nascimento das crianças, consolando os doentes, permanecendo junto dos moribundos. Nunca apareceram nas manchetes dos jornais. Talvez nunca tenham tido milhares de seguidores. Mas deixaram uma marca profunda na vida concreta das pessoas.
Viviam numa geografia pequena, mas habitavam um universo infinitamente maior.
Sabiam que a felicidade não nasce da notoriedade, mas da fidelidade.
Hoje continuamos a precisar dessas pessoas. Homens e mulheres capazes de cultivar a memória, de construir comunidade, de permanecer quando todos passam, de cuidar quando todos comentam.
Porque a verdadeira resistência talvez consista simplesmente em não esquecer.
Não esquecer quem somos.
Não esquecer aqueles que nos precederam.
Não esquecer os que caminham connosco.
E não esquecer Aquele que caminha à nossa frente.
A esperança cristã começa precisamente onde termina o esquecimento. Na Eucaristia, Cristo não oferece o fruto do lótus, mas o pão e o vinho transformados na sua própria presença. E fá-lo dizendo: «Fazei isto em memória de Mim.»
A memória cristã não é nostalgia do passado. É a presença viva de uma promessa que continua a abrir o futuro.
Enquanto houver homens que partam o pão, partilhem o vinho, guardem a memória e permaneçam fiéis ao bem, a terra do esquecimento jamais terá a última palavra.
Porque a última palavra pertence sempre à Ressurreição.
Francisco Vaz
19 de julho de 2026