CORO

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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Da Rerum Novarum à Magnifica Humanitas

a civilização do amor perante a cultura do poder

Ao ler a primeira encíclica de Leão XIV, Magnifica Humanitas, torna-se evidente a razão profunda da escolha do seu nome pontifício.  Ao escolher o nome de Leão XIV, Robert Francis Prevost parece evocar deliberadamente a figura de Vincenzo Gioacchino Pecci, o Papa Leão XIII, que enfrentou os desafios sociais e humanos da Revolução Industrial através da histórica encíclica Rerum Novarum (1891).

No final do século XIX, a humanidade encontrava-se mergulhada numa profunda transformação provocada pela Revolução Industrial. As novas máquinas multiplicavam a produção, criavam riqueza e inauguravam um mundo de possibilidades inéditas. Porém, o progresso técnico não era acompanhado por um progresso equivalente na ordem moral e social. Milhões de trabalhadores viviam em condições indignas, submetidos a jornadas extenuantes, salários miseráveis e ausência de proteção social. O capitalismo industrial, entregue a si próprio, tendia a transformar o trabalhador num simples instrumento de produção.

Foi nesse contexto que Leão XIII ergueu a sua voz. A Rerum Novarum não constituiu apenas uma denúncia das injustiças do seu tempo; representou uma afirmação vigorosa da dignidade da pessoa humana contra todas as formas de redução do homem a objeto económico. Ao fazê-lo, inaugurou aquilo que viria a ser conhecido como Doutrina Social da Igreja, hoje mais frequentemente designado por Pensamento Social Cristão.

Mais de um século depois, Leão XIV parece reconhecer um paralelismo histórico. A revolução industrial deu lugar à revolução digital. Os motores a vapor foram substituídos pelos algoritmos, pela inteligência artificial, pelas plataformas digitais e pelas redes globais de comunicação. Tal como no século XIX, as novas tecnologias prometem benefícios extraordinários. Contudo, também hoje emergem novas formas de desigualdade, de controlo e de alienação.

A grande questão já não é apenas a exploração do corpo humano, mas também a colonização da consciência, da atenção e da própria identidade. O ser humano corre o risco de ser reduzido a dados, perfis estatísticos, consumidor previsível ou recurso manipulável por sistemas tecnológicos cada vez mais poderosos. A desumanização assume novas formas, mas conserva a mesma raiz: esquecer que a pessoa humana possui uma dignidade que não pode ser medida pela utilidade, pela eficiência ou pelo poder.

É precisamente nesta perspetiva que ganha especial significado o primeiro número da encíclica. Leão XIV apresenta a humanidade diante de uma escolha decisiva: construir uma nova Babel ou edificar uma cidade onde Deus e a humanidade habitem juntos.

A referência à Torre de Babel é particularmente sugestiva. Na narrativa bíblica, Babel simboliza a tentação permanente do ser humano de alcançar o poder absoluto através das suas próprias capacidades, dispensando qualquer referência a uma verdade superior ou a uma ordem moral transcendente. O problema não era a construção em si, mas a pretensão de domínio que a inspirava.

Também a nossa época conhece essa tentação. A tecnologia oferece ao homem um poder sem precedentes sobre a natureza, sobre a informação e até sobre a própria vida humana. Nunca houve tantos meios para controlar, vigiar, influenciar ou destruir. O risco consiste em confundir poder com sabedoria, capacidade técnica com legitimidade moral, progresso científico com progresso humano.

Esta lógica manifesta-se igualmente na persistência da guerra como instrumento de afirmação política. Apesar dos avanços científicos e tecnológicos, continuamos a assistir a conflitos devastadores, à corrida armamentista e à utilização crescente da tecnologia para fins militares. A inteligência artificial, concebida para ampliar as capacidades humanas, pode também ser utilizada para aperfeiçoar mecanismos de vigilância, manipulação e destruição.

A cultura do poder funda-se precisamente nesta convicção: a segurança nasce da força, a ordem nasce da dominação e o futuro pertence aos mais fortes. É uma visão da história construída sobre a competição permanente, sobre a lógica do vencedor e do vencido, sobre a instrumentalização do outro.

Em contraste, a encíclica propõe aquilo que a tradição cristã designa como civilização do amor. Expressão particularmente desenvolvida por João XXIII e Paulo VI, os papas do Concílio, e pelos papas que os sucederam, ela não representa uma utopia sentimental, mas uma verdadeira alternativa antropológica e política.

A civilização do amor assenta na convicção de que a pessoa humana é sempre um fim e nunca um meio. O seu fundamento não é o domínio, mas a relação; não é a imposição, mas o encontro; não é a força, mas a dignidade. Nela, o desenvolvimento tecnológico encontra o seu sentido ao serviço da pessoa; a economia orienta-se para o bem comum; a política torna-se espaço de construção da justiça; e a cultura promove o reconhecimento mútuo entre seres humanos.

A afirmação central da encíclica — “o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente” — aponta precisamente para esta visão. Em Cristo, Deus não se apresenta como poder que domina, mas como amor que se oferece. A encarnação constitui a negação radical de toda a lógica de desumanização. Deus não salva a humanidade através da força, mas através da proximidade; não através da imposição, mas através da comunhão.

A verdadeira alternativa do nosso tempo talvez não seja entre tecnologia e tradição, nem entre progresso e conservação. A escolha decisiva é outra: colocar o poder ao serviço da pessoa ou sacrificar a pessoa ao poder. É esta a nova questão social que Leão XIV parece identificar.

Tal como Leão XIII falou à humanidade industrial, Leão XIV procura falar à humanidade digital. Ambos recordam a mesma verdade fundamental: nenhuma sociedade será verdadeiramente justa se esquecer que cada ser humano possui uma dignidade inviolável. E nenhuma civilização sobreviverá se trocar a cultura do amor pela cultura do poder.

Perante a nova Babel tecnológica, a Magnifica Humanitas apresenta-se assim como um convite a reconstruir o humano, não contra o progresso, mas orientando-o para aquilo que verdadeiramente o justifica: a promoção da dignidade, da justiça, da fraternidade e da paz.


Francisco Vaz

30 de Maio de 2026

domingo, 10 de maio de 2026

Homília 10 de Maio de 2026

Reflexão a partir da homilia do Cónego Gianfranco Bianco

A homilia do cónego Gianfranco Bianco apresenta uma visão profundamente humana e espiritual da Igreja. Mais do que uma instituição, a Igreja surge como presença viva de Cristo no meio das fragilidades da existência humana. Através da figura do Paráclito — o Espírito Santo como defensor, consolador e companheiro — a homilia recorda que ninguém enfrenta sozinho o peso da vida, das injustiças, das incompreensões ou da solidão.

Um dos pontos mais fortes da reflexão é precisamente a solidão contemporânea. Mesmo rodeado de pessoas, o homem pode sentir-se abandonado. Por isso, o Espírito Santo aparece como aquele que “permanece ao lado”, continuando hoje a obra de Cristo na história. A Igreja é chamada a ser sinal concreto dessa presença: não apenas ensinar, mas acompanhar, escutar, permanecer.

A homilia insiste também que o amor cristão não é abstrato nem genérico. Amar “a humanidade” é fácil; difícil é amar concretamente cada pessoa, com a sua história e as suas feridas. O amor de Cristo é encarnado, pessoal e próximo. É um amor que permanece junto da cruz e não abandona o homem no sofrimento.

No fundo, esta reflexão apresenta a Igreja como lugar de companhia e esperança num mundo marcado pelo medo da solidão. O Espírito Santo é a força viva que sustenta a história e renova continuamente o coração humano. Cristo não abandona os seus: permanece presente através do Espírito e através daqueles que sabem estar ao lado dos outros.

Francisco Vaz

10 de Maio de 2026

domingo, 3 de maio de 2026

Ser Mãe

O ato radical de dizer ‘Sim’ à Vida

Num tempo em que o “não” parece ter ganho prestígio — como sinal de inteligência crítica, de distanciamento ou até de poder —, talvez valha a pena recuperar o valor esquecido do “sim”. Não o “sim” ingénuo ou acrítico, mas aquele que afirma, que cria, que sustenta. Um “sim” que, mais do que uma palavra, é um gesto fundador.

A reflexão torna-se particularmente pertinente no Dia da Mãe. Num plano mais profundo do que o meramente biológico ou emocional, a maternidade pode ser entendida como uma das formas mais radicais de mediação: acolher o outro, dar-lhe corpo, permitir que a vida aconteça. Nesse sentido, cada mãe participa, à sua escala, de um gesto originário — o gesto de dizer “sim” à possibilidade de que o bem exista.

Vivemos, porém, num ambiente cultural onde a negação ganhou centralidade. A crítica constante, a suspeita generalizada e a recusa tornaram-se, muitas vezes, mais valorizadas do que a capacidade de afirmar. Esta inversão não é neutra. Quando o “não” se torna dominante, arrisca a transformar-se num instrumento de esterilidade: nega-se, mas não se cria; recusa-se, mas não se constrói.

É neste contexto que o “sim” assume uma dimensão quase subversiva. Afirmar o bem, acolher a vida, aceitar a responsabilidade de cuidar — tudo isto exige mais coragem do que simplesmente negar. E é precisamente isso que a maternidade, no seu sentido mais profundo, representa. Não apenas dar à luz, mas sustentar, proteger, educar, formar. Não apenas iniciar a vida, mas acompanhá-la na sua fragilidade e potencial.

O “sim” materno não é um ato isolado. É uma decisão que se renova todos os dias, muitas vezes em silêncio, longe do reconhecimento público. Está presente nos gestos pequenos, repetidos, aparentemente banais, mas que sustentam o tecido invisível da sociedade. É um “sim” que não se impõe, mas que resiste; que não domina, mas que transforma.

Num mundo onde o mal não se vence pela simples negação — porque o “não” ao mal pode facilmente tornar-se mais uma forma de negação estéril —, é a afirmação do bem que se revela decisiva. O verdadeiro contrário do mal não é o “não”, mas um “sim” mais forte, mais consistente, mais enraizado.

Celebrar o Dia da Mãe é, assim, mais do que um gesto simbólico ou afetivo. É reconhecer a importância desse “sim” fundamental que permite que a vida — e o bem — continuem a ter lugar. É reconhecer que, sem esse “sim”, o mundo se torna não apenas mais pobre, mas ontologicamente mais frágil.

Num tempo de tantas incertezas e fragmentações, talvez seja esse o ensinamento mais urgente: reaprender a dizer “sim”. E, nesse caminho, reconhecer nas mães não apenas figuras de afeto, mas verdadeiras guardiãs da possibilidade de que o bem se torne realidade.

Francisco Vaz

3 de Maio de 2026

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Leão VIX

 Autoridade moral global

O tempo que nos é dado viver em muito se assemelha com a Idade Média, em que reis e imperadores se insurgiam contra o pontífice romano e, sob o risco de excomunhão, fomentavam a ascensão de antipapas.

O ataque de Donald Trump a Robert Francis Prevost tem algo de tão desmedido que parece deslocar as relações internacionais para um plano quase irreal, próximo de uma Gotham City. Peter Thiel, o poderoso tecnocrata libertário embriagado pela pós-democracia, agora precisa decidir: ou o Papa é o Anticristo ou Trump é o Anticristo. 

A tensão atingiu tal grau que as soluções diplomáticas clássicas se tornam difíceis de imaginar. As imagens que surgem são deliberadamente excessivas: Trump em penitência pública às portas de Roma, ou, no extremo oposto, um Papa alvo de uma operação clandestina. Hipérboles, certamente — mas reveladoras da degradação do discurso e da crescente incapacidade de mediação racional.

Importa, por isso, ir além do ruído e fixar três ideias essenciais.

A primeira prende-se com o Conclave. Frequentemente descrito como um colégio envelhecido e distante do mundo contemporâneo, voltou a revelar uma notável lucidez geopolítica. Nas últimas décadas, com exceção da eleição de Joseph Ratzinger — menos vocacionado para a arena internacional —, os cardeais escolheram figuras com clara projeção global: Karol Wojtyła, no contexto da Guerra Fria; Jorge Mario Bergoglio, primeiro pontífice oriundo do Sul Global; e agora Leão XIV, um papa norte-americano com profundas ligações ao Peru. A sua eleição representa mais um passo na internacionalização da Igreja, impulsionada por um colégio cardinalício cada vez mais marcado pelo Sul Global — que, de forma significativa, escolheu um nome vindo da própria superpotência americana.

A segunda ideia diz respeito ao presidente dos Estados Unidos. As suas declarações, classificando o Papa como “fraco” ou “incompetente”, não são apenas desproporcionadas — são, para usar a célebre expressão de Charles-Maurice de Talleyrand, piores do que um erro: são uma imprudência. Ao atacar o chefe da Igreja Católica, Trump arrisca afastar não só setores progressistas, mas também parte do eleitorado conservador católico, já desconfortável com algumas das suas posições.

O efeito mais visível desse ataque é, aliás, paradoxal: acabou por transformar Leão XIV numa referência moral de oposição ao trumpismo. Não por escolha própria. O Papa procurou inicialmente manter a tradição diplomática da Santa Sé, evitando confrontos diretos. Mas a escalada retórica — incluindo ameaças de guerra — acabou por o obrigar a uma posição mais clara. As suas palavras, evocando o profeta Isaías ou apelando à rejeição de conflitos injustos, assinalam essa inflexão.

Quando confrontado diretamente com Trump, Leão XIV respondeu com sobriedade: não pretende entrar num confronto político, mas reafirma princípios que considera inegociáveis — a paz, a dignidade humana e a fidelidade à mensagem evangélica.

Resta uma última nota, talvez a mais significativa. Num mundo em rápida transformação, onde normas e equilíbrios se fragmentam, a Igreja Católica — com todas as suas imperfeições históricas — reaparece como um dos poucos atores com autoridade moral global. Sob a liderança de Leão XIV, afirma-se como voz de diálogo, de contenção e de defesa dos mais vulneráveis.

Num tempo marcado pelo ruído e pela radicalização, essa voz não é apenas relevante. É, talvez, indispensável.

Nota:

Reflexão inspirada no artigo de Marco Politi, publicado por Il Fatto Quotidiano em 13-04-2026.

Francisco Vaz

22 de Abril de 2026

O Coro amador

 

Lugar de cultura, comunidade e humanidade

Num tempo marcado pela fragmentação social e pela aceleração individualista, o coro — sobretudo o coro amador — surge como uma das mais discretas, mas profundas, formas de resistência cultural. As reflexões de Edgar Saramago conduzem-nos a uma compreensão mais ampla do fenómeno coral: não apenas como prática artística, mas como espaço de construção humana.1

A história do canto coral confunde-se com a própria história da civilização ocidental. Desde os primeiros cânticos litúrgicos até ao desenvolvimento da polifonia, o coro foi sempre mais do que som organizado — foi linguagem espiritual, memória coletiva e expressão de transcendência. A referência a Guido d'Arezzo não é apenas técnica; marca o momento em que a música se fixa, se transmite e se torna património. O coro, nesse sentido, é herdeiro de uma tradição milenar onde o indivíduo encontra o seu lugar numa harmonia maior.

Mas é na contemporaneidade que o coro amador revela a sua singular relevância. Num país como Portugal, onde a profissionalização musical é limitada, o tecido coral sustenta grande parte da vida musical. E fá-lo de forma silenciosa, muitas vezes invisível, sem o reconhecimento institucional que outras áreas culturais recebem. Esta ausência levanta uma questão estrutural: pode uma sociedade aspirar à coesão e ao desenvolvimento sem investir na sua cultura?

O coro amador responde, na prática, a essa interrogação. Ele é um espaço de democratização cultural, onde não há exigência de elite, mas sim abertura à participação. Cantar em coro é um exercício de escuta, disciplina e integração. Cada voz conta, mas nenhuma se impõe. Há aqui uma pedagogia implícita: aprender a estar com os outros, a ajustar-se, a construir algo comum sem apagar a singularidade.

Mais ainda, o coro funciona como uma verdadeira comunidade. Não por acaso, muitos o descrevem como uma “família”. Num mundo onde a solidão cresce como problema social, esta dimensão torna-se essencial. O canto coletivo cria vínculos, atravessa gerações, aproxima idades e experiências. Jovens e idosos partilham o mesmo espaço sonoro, o mesmo tempo, a mesma respiração.

A ciência começa, aliás, a confirmar aquilo que a experiência sempre soube. Estudos divulgados por organizações como a BBC World Service mostram que o canto coral promove o bem-estar físico e psicológico: reduz o stress, estimula a memória, ativa hormonas associadas ao prazer e à confiança. Mais do que uma atividade artística, o coro é um instrumento de saúde pública — acessível, inclusivo e eficaz.

Mas talvez a sua maior virtude resida noutra dimensão, mais difícil de quantificar: a capacidade de dar sentido. Num coro, a relação entre texto e música — seja na sobriedade da escrita silábica ou na expressividade do melisma — revela que a palavra pode ser ampliada, iluminada, transfigurada. Cantar é, nesse sentido, interpretar o mundo. E fazê-lo em conjunto é reconhecer que o sentido não é propriedade individual, mas construção partilhada.

Neste contexto, a escassez de investimento cultural não é apenas uma falha política; é uma miopia civilizacional. Ignorar o valor do canto coral é ignorar um dos mais eficazes meios de coesão social, educação estética e equilíbrio humano. Promover coros amadores não é um luxo — é uma necessidade.

Talvez por isso a pergunta mais pertinente não seja por que razão existem poucos coros profissionais, mas por que razão não reconhecemos plenamente o valor dos coros amadores. Neles reside uma forma de riqueza que não se mede em indicadores económicos, mas em qualidade de vida, em densidade cultural e em humanidade partilhada.

No fim, o coro não é apenas metáfora — é prova. Prova de que a harmonia não nasce da uniformidade, mas da diferença reconciliada; de que a comunidade não se decreta, constrói-se; de que a cultura não é ornamento, é fundamento. Onde uma sociedade deixa morrer o canto comum, começa a perder a sua própria voz.

E, no entanto, basta um acorde sustentado no ar para lembrar o essencial: que somos feitos para escutar, para responder, para nos inscrever numa música que nos ultrapassa. No coro, cada voz é limite e possibilidade; cada silêncio, promessa. Ali, no entrelaçar das respirações, a humanidade reencontra-se — não como soma de indivíduos, mas como presença partilhada.

Que não nos falte, pois, esta coragem humilde: cantar juntos. Porque enquanto houver vozes que se levantam em comum, haverá futuro.

Francisco Vaz

14 de Abril de 2026

Nota

1. Edgar Saramago, Música Coral, A importância Sócio-cultural do coro amador na sociedade moderna, Auditório do Centro Comercial da Portela, 11 de Junho de 2024.

sábado, 4 de abril de 2026

Páscoa e silêncio de Deus

Entre a cruz e a ressurreição

A Páscoa cristã coloca-nos diante de um dos paradoxos mais exigentes da experiência humana: o triunfo da vida que nasce do silêncio. Entre a cruz e a ressurreição estende-se um tempo denso — o intervalo do Sábado Santo — em que Deus parece ausente, a história suspensa e o sentido obscurecido. É precisamente nesse silêncio que se joga, de modo decisivo, a compreensão de Deus e do próprio humano.

Vivemos numa cultura que tende a rejeitar o silêncio. Procuramos respostas imediatas, explicações rápidas, soluções eficazes. O sofrimento é frequentemente marginalizado, tratado como anomalia a eliminar ou a ocultar. No entanto, a experiência pascal introduz uma outra lógica: não a fuga ao silêncio, mas a sua habitação. O silêncio de Deus não é vazio nem indiferença; é uma presença que não se impõe, que respeita a liberdade e a fragilidade humanas. Um Deus que não violenta nem se substitui ao humano, mas que abre espaço para uma resposta livre.

Neste horizonte, a cruz deixa de ser apenas um símbolo religioso para se tornar um espelho da condição humana. Nela se inscrevem a dor, a injustiça, o abandono — tudo aquilo que marca a vulnerabilidade do viver. Mas o silêncio que a envolve não anula essa realidade; antes, confere-lhe uma profundidade inesperada. Não se trata de justificar o sofrimento, mas de reconhecer que, mesmo nele, permanece a possibilidade de relação, de compaixão e de sentido.

É aqui que a Páscoa revela a sua dimensão antropológica mais radical. O ser humano manifesta-se como um ser capaz de permanecer na noite, de suportar o não-sentido sem sucumbir ao desespero. A esperança pascal não é evasão, mas travessia. Num tempo que valoriza a eficiência e a visibilidade, reaprende-se a importância da espera, da fidelidade e da confiança no invisível.

Mas a Páscoa é também uma interpelação teológica profunda. O silêncio de Deus não significa ausência, mas um modo distinto de presença. Um Deus que não se impõe pela força, mas que se revela na fragilidade; que não domina a história de fora, mas a habita por dentro, até às suas zonas mais obscuras. A ressurreição não apaga o silêncio da cruz — confirma-o como parte integrante de um mistério maior, onde a vida emerge não apesar da morte, mas através dela.

Por fim, há uma dimensão ontológica que não pode ser ignorada. A cruz expõe o risco inscrito no próprio ser: a possibilidade de negação, de violência, de destruição. O silêncio de Deus torna-se, então, o espaço onde o humano é chamado a decidir. Ou reconhece o outro na sua dignidade irrepetível, ou cede à tentação de o reduzir a meio, a número, a obstáculo. Quando esse reconhecimento falha, não estamos apenas perante uma crise moral, mas perante uma verdadeira fratura do ser.

É neste ponto que a reflexão pascal se torna particularmente atual. Vivemos uma mudança de época marcada por avanços tecnológicos, tensões geopolíticas e transformações culturais profundas. No entanto, a crise mais inquietante não é apenas externa — é uma crise do próprio humano. Multiplicam-se sinais de desumanização: a indiferença perante o sofrimento, a polarização que transforma o outro em inimigo, a incapacidade de reconhecer no rosto alheio uma dignidade comum.

Perante este cenário, o silêncio de Deus não pode ser interpretado como legitimação da indiferença. Pelo contrário, ele intensifica a responsabilidade humana. Se Deus não intervém de modo evidente para impedir a violência, é porque confia ao humano a tarefa de a superar. O tempo entre a cruz e a ressurreição torna-se, assim, o tempo da escolha: permanecer junto dos que sofrem ou passar ao largo.

A ressurreição, por sua vez, não é apenas promessa futura; é critério para o presente. Afirma que nenhuma forma de desumanização tem a última palavra. Mas essa afirmação não se realiza automaticamente: exige mediação concreta, gestos, escolhas, compromissos. Exige homens e mulheres capazes de reconhecer no outro — sobretudo no mais vulnerável — um apelo irrecusável.

Num mundo que parece esquecer o que significa ser humano, a Páscoa recorda que é precisamente no silêncio — esse lugar incómodo e exigente — que o humano se define. Não como ideia abstrata, mas como prática viva: permanecer, reconhecer, responder. Entre a cruz e a ressurreição, joga-se, ainda hoje, o destino da nossa humanidade.

Francisco Vaz

4 de Abril de 2026

Sábado Santo

domingo, 15 de março de 2026

IV Domingo da Quaresma (15 de março de 2026)

Reflexão a partir da homilia do Cónego Gianfranco Bianco

A liturgia deste IV Domingo da Quaresma convida-nos a refletir sobre a forma como Deus olha para o homem e sobre a maneira como o homem aprende a ver Deus. A homilia começou com uma pergunta aparentemente simples: qual é o país onde Jesus nasceu? A resposta remete-nos para Israel, cuja bandeira branca ostenta uma estrela azul conhecida como Estrela de David. Esta estrela recorda a figura do rei David, um dos grandes protagonistas da história bíblica.

A escolha de David como rei de Israel revela um traço fundamental da lógica de Deus. A pedido divino, o profeta Samuel foi à casa de Jessé para escolher aquele que deveria governar o povo. Humanamente, os irmãos mais velhos de David pareciam possuir melhores qualidades: eram mais fortes, mais imponentes, mais adequados aos critérios humanos de poder. No entanto, Deus escolheu o mais improvável. David estava no campo a guardar o rebanho.

Este episódio ensina-nos que Deus não escolhe segundo os critérios humanos de prestígio ou força. Muitas vezes manifesta a sua vontade precisamente através da fraqueza e da humildade. Aquilo que parece pequeno aos olhos do mundo pode tornar-se grande quando é chamado por Deus. A escolha divina não é um privilégio, mas uma missão. Por isso, o essencial não é procurar grandeza, mas pedir a Deus a graça de aceitar a missão que Ele nos confia.

Fazer a vontade de Deus significa, no fundo, escolher o caminho da verdadeira felicidade. Foi isso que aconteceu com David: Deus escolheu o mais fraco e depois fortaleceu-o.

A homilia conduziu então ao Evangelho deste domingo, que narra a cura do cego de nascença. Jesus Cristo aproxima-se daquele homem, cospe no chão, mistura a saliva com a terra e faz barro. Depois coloca-o nos olhos do cego e manda-o lavar-se na piscina de Siloé. O homem obedece e regressa vendo.

Este gesto possui um significado profundo. O cego de nascença representa a condição humana. De certo modo, todos nós nascemos cegos: não conhecemos plenamente Deus nem compreendemos inteiramente o sentido da vida.

Existem duas formas de ver. Podemos ver apenas com os olhos do corpo ou aprender a ver com os olhos do coração. A verdadeira visão começa quando nos deixamos tocar pela palavra de Cristo. A saliva de Jesus, no gesto simbólico do Evangelho, representa precisamente essa palavra viva que purifica o coração humano.

Contudo, a visão torna-se plena quando mergulhamos nas águas do batismo. Nessas águas morre o homem velho e nasce o homem novo. A tradição cristã recorda que Jesus foi batizado no Rio Jordão, um dos lugares mais baixos da terra. Este detalhe possui um forte simbolismo: Cristo desceu até ao ponto mais baixo para poder resgatar o homem e elevá-lo novamente.

Nesta linha, o Papa Francisco afirmou que ninguém deveria morrer sem ter sido verdadeiramente tocado por Cristo. A vida cristã consiste precisamente em permanecer permeável à sua palavra, permitindo que ela transforme progressivamente o coração humano.

Mas o Evangelho recorda também que seguir Cristo tem um preço. A experiência do homem curado é tão radical que ele corre o risco de ser expulso da sinagoga. Algo semelhante acontece ainda hoje: quando alguém assume com clareza a sua fé cristã, pode encontrar incompreensão ou rejeição.

Contudo, o Evangelho revela algo decisivo: Jesus não abandona aquele que o encontrou. Quando o homem é rejeitado pelos outros, Jesus volta a procurá-lo. A relação com Cristo é uma relação de fidelidade. Quando aderimos a Ele, é como se o nosso próprio ego assinasse um cheque em branco: confiamos a nossa vida àquele que nos chamou.

A fé é, portanto, um caminho de confiança. Pedimos a Jesus que nos dê olhos novos para podermos dizer com verdade: “Eu creio”. Mesmo que hoje a nossa visão ainda seja imperfeita, sabemos que um dia poderemos contemplar plenamente aquilo em que acreditamos.

Como ensinava Ireneu de Lyon, a verdadeira visão do homem consiste precisamente em acreditar em Cristo. A fé abre uma nova forma de ver o mundo.

A sabedoria humana também pressentiu esta verdade. Um antigo provérbio chinês afirma que o sábio não é aquele que apenas contempla a montanha, mas aquele que procura ver o que existe para lá dela.

Também a fé cristã nos convida a olhar para além do imediato, para além do visível, para além das limitações do presente. A Quaresma é precisamente este tempo de aprendizagem do olhar: aprender a ver com os olhos do coração, para que um dia possamos contemplar plenamente a luz que já começou a iluminar a nossa vida.


Francisco Vaz

15 de março de 2026