In memoriam — homenagem a um homem que fez da defesa dos mais pobres uma forma de viver o Evangelho
Entre 2015 e 2018, tive o privilégio de acompanhar Eugénio Fonseca na Direção da Cáritas Portuguesa. Esse tempo permitiu-me conhecer, para além do dirigente e do homem público, uma pessoa profundamente comprometida com o bem, inteiramente dedicada aos mais pobres e sempre inconformada perante as situações que feriam a dignidade humana.
Eugénio Fonseca não se limitava a conhecer a pobreza através de relatórios, estatísticas ou indicadores económicos. Procurava conhecê-la nos rostos, nas histórias e nas circunstâncias concretas das pessoas. Vivia e sentia o sofrimento dos mais desfavorecidos. A pobreza, para ele, nunca foi uma abstração sociológica: tinha um nome, uma família, uma casa, uma história de abandono e, tantas vezes, uma esperança quase perdida.
A sua dedicação a fazer o bem possuía uma dimensão profundamente cristã. Entendia a caridade como proximidade, escuta e resposta concreta, mas também como exigência de justiça. Sabia que ajudar uma pessoa a ultrapassar uma necessidade imediata constitui um dever; transformar as condições que produzem e perpetuam essa necessidade constitui uma responsabilidade de toda a sociedade.
Foi esta convicção que fez dele um defensor incansável de uma comunidade mais solidária e justa. Para Eugénio Fonseca, a solidariedade ultrapassava o gesto ocasional ou a emoção passageira. Era um compromisso permanente com a construção do bem comum. Exigia responsabilidade pessoal, participação das instituições, mobilização da sociedade civil e políticas públicas orientadas para a promoção integral de cada ser humano.
Mantinha uma confiança firme na capacidade do poder político para melhorar as condições de vida das populações. Considerava o Estado um instrumento decisivo na concretização da justiça social. Essa convicção estava longe de significar assistencialismo ou dependência. Pelo contrário, defendia políticas capazes de empoderar as pessoas, desenvolver as suas capacidades e proporcionar-lhes os meios necessários para recuperarem a autonomia.
Não pretendia apenas retirar alguém de uma dificuldade momentânea. Queria criar condições para que cada pessoa pudesse reconstruir a própria vida, participar na comunidade e assumir o seu destino com liberdade e responsabilidade. A verdadeira política social, na sua perspetiva, deveria transformar o beneficiário numa pessoa plenamente reconhecida como sujeito da sua existência e participante ativo na sociedade.
Por isso, atribuiu sempre uma importância central ao trabalho digno e ao salário justo. O trabalho representava, para ele, muito mais do que uma fonte de rendimento. Era uma dimensão fundamental da realização humana, da integração social e da participação no bem comum. Um emprego precário, um salário insuficiente ou condições laborais injustas constituíam formas de desvalorização da pessoa e de enfraquecimento da própria democracia.
Defender um salário justo significava reconhecer que o trabalhador possui uma família, responsabilidades, aspirações e direito a uma vida digna. Uma sociedade que aceita que alguém trabalhe e permaneça na pobreza contradiz o princípio elementar segundo o qual a economia deve servir a pessoa. Eugénio Fonseca compreendia bem esta verdade central do pensamento social cristão: o ser humano deve ocupar o centro da vida económica, política e social.
Foi também um grande impulsionador do estudo e da divulgação da Doutrina Social da Igreja, hoje mais amplamente designada por Pensamento Social Cristão. Esta expressão sublinha que estamos perante um pensamento vivo, aberto ao diálogo e em permanente aprofundamento, capaz de iluminar os problemas do presente e de estabelecer uma relação fecunda entre a fé, a dignidade humana, a justiça, a economia, o trabalho e a responsabilidade política. Eugénio Fonseca sabia que a ação precisa de fundamentos e que a boa vontade, embora indispensável, carece de reflexão, conhecimento e discernimento.
Para ele, estudar o Pensamento Social Cristão significava preparar a ação. As encíclicas, os documentos da Igreja e a reflexão dos grandes pensadores sociais cristãos deviam descer das estantes, entrar no debate público e inspirar decisões concretas. A fé, quando verdadeiramente vivida, manifesta-se na forma como tratamos aqueles que a sociedade empurra para as margens.
A sua ação à frente da Confederação Portuguesa do Voluntariado prolongou esta mesma visão. Eugénio Fonseca reconhecia no voluntariado uma extraordinária escola de cidadania e de humanidade. Via nele uma expressão da liberdade orientada para o serviço: pessoas que oferecem tempo, competências e presença para cuidar dos outros e fortalecer a comunidade. Ao mesmo tempo, compreendia que o voluntariado complementa a responsabilidade pública e desperta a consciência coletiva; jamais poderia servir de pretexto para o recuo das obrigações sociais do Estado.
Toda a sua vida foi, assim, atravessada por uma coerência profunda entre pensamento, fé e ação. Estudava para compreender melhor, compreendia para agir com maior justiça e agia porque reconhecia em cada pessoa a dignidade inviolável de um filho de Deus.
A morte de Eugénio Fonseca deixa um vazio nas instituições que serviu, na Igreja portuguesa, no movimento do voluntariado e entre todos aqueles que com ele trabalharam. Deixa também um legado exigente. Recordá-lo significa perguntar o que estamos dispostos a fazer pelos que vivem na pobreza, pelos trabalhadores que recebem salários insuficientes, pelas famílias privadas de condições dignas e por todos aqueles cuja voz raramente alcança os lugares onde se decide.
A homenagem mais verdadeira consistirá em prosseguir esse combate: transformar a compaixão em compromisso, a solidariedade em justiça e a indignação em políticas capazes de libertar e dignificar.
Guardo com gratidão os anos em que partilhei com Eugénio Fonseca responsabilidades na Direção da Cáritas Portuguesa. Recordo a sua determinação, a sua capacidade de trabalho, a sua proximidade aos mais frágeis e a fidelidade a uma convicção que orientou toda a sua vida: nenhuma sociedade pode considerar-se verdadeiramente desenvolvida enquanto aceitar que alguns dos seus membros vivam em condições indignas.
Eugénio Fonseca partiu, mas permanece o seu testemunho. Permanece em cada pessoa que ajudou, em cada instituição que fortaleceu, em cada voluntário que mobilizou e em cada consciência que despertou. Permanece, sobretudo, no apelo que a sua vida nos dirige: olhar os pobres como irmãos, defender a dignidade como princípio e fazer do bem uma responsabilidade quotidiana.
Que o Senhor acolha Eugénio Fonseca na Sua paz. E que a memória da sua vida nos dê coragem para continuar a construir a sociedade solidária, justa e fraterna pela qual incansavelmente trabalhou.
Francisco Vaz
Nota: Os principais dados do percurso institucional de Eugénio Fonseca foram confirmados nas homenagens publicadas pela Presidência da República e pela Agência Ecclesia.
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