«Não vos conformeis com este mundo»
As leituras deste domingo colocam-nos perante uma questão essencial: como reconhecer o caminho de Deus quando ele não coincide com aquele que desejaríamos?
Jeremias confessa: «Seduziste-me, Senhor, e eu deixei-me seduzir». O encontro com Deus não lhe trouxe uma vida mais fácil, mas acendeu nele um fogo que já não conseguia apagar. O salmo exprime a mesma experiência: «A minha alma tem sede de Vós, meu Deus.» Há no homem uma sede que as coisas do mundo não conseguem preencher.
São Paulo dá-nos então uma chave fundamental: «Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente.»
É precisamente esta transformação que ainda falta a Pedro no Evangelho. Ele ama Jesus, mas, quando Cristo anuncia que irá sofrer e morrer, tenta mostrar-Lhe outro caminho. Jesus responde-lhe: «Não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens.»
Como salientou o padre Noé na homilia, também nós fazemos muitas vezes o mesmo. Rezamos a Deus, mas ao mesmo tempo queremos indicar-Lhe aquilo que deveria acontecer. Queremos segui-Lo, mas gostaríamos de ser nós a escolher o caminho.
Jesus inverte esta lógica: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.»
A cruz não significa procurar o sofrimento nem pensar que Deus o deseja. Significa não abandonar o amor quando amar começa a ter um preço.
Não escolhemos tudo aquilo que nos acontece. Não conseguimos evitar todas as perdas, dificuldades ou sofrimentos. Mas permanece uma liberdade fundamental: podemos escolher aquilo que fazemos com aquilo que nos acontece.
É também por isso que São Paulo fala da nossa vida como «sacrifício vivo». O sacrifício cristão não é destruição: é oferta. Cristo não oferece simplesmente alguma coisa. Oferece-Se.
«Não vos conformeis com este mundo» não significa, portanto, fugir dele. Significa não aceitar que o mundo determine completamente aquilo que somos. Significa conservar a liberdade de escolher o bem, de olhar para quem sofre, de não virar a cara, de permanecer fiel e de amar.
No fundo, todos falam do mesmo caminho: sair de nós próprios para encontrar Deus e o outro.
Porque talvez a vida não se encontre apenas naquilo que conseguimos conservar, mas sobretudo naquilo que fomos capazes de transformar em dom.
Reflexão a partir das leituras do XXII Domingo do Tempo Comum e da homilia do Padre Noé.
Francisco Vaz
30 de agosto de 2026
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