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domingo, 23 de agosto de 2026

Eucaristia — XXI Domingo do Tempo Comum

«E vós, quem dizeis que Eu sou?»

A liturgia deste domingo coloca-nos diante de duas imagens que, à primeira vista, poderiam parecer distintas: a chave e a pergunta. Isaías fala-nos da chave da casa de David, colocada sobre os ombros de Eliacim; o Evangelho apresenta-nos Jesus perguntando aos discípulos: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». A homilia do Padre Tiago ajuda-nos a perceber que ambas convergem numa mesma questão: quem é Jesus para mim e que faço eu da missão que Ele me confia?

Na primeira leitura, do Livro de Isaías, encontramos Sobna, administrador do palácio, a quem Deus anuncia que será destituído. Em seu lugar será chamado Eliacim, filho de Helcias. Deus revesti-lo-á com a túnica, colocar-lhe-á a faixa e confiar-lhe-á a autoridade. Mas há uma expressão particularmente significativa: «ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá».

A autoridade aparece, assim, não como privilégio, mas como responsabilidade. Sobna julgara talvez possuir aquilo que apenas lhe tinha sido confiado. Eliacim, pelo contrário, é apresentado por Deus como «meu servo». Eis a primeira inversão da lógica do mundo: aquele que recebe autoridade não recebe simplesmente pessoas que o sirvam; recebe pessoas a quem deve servir.

É então que surge a imagem decisiva da leitura: «Eu o farei levar aos ombros a chave da casa de David; ele abrirá, e ninguém poderá fechar; ele fechará, e ninguém poderá abrir».

A chave significa poder, mas significa sobretudo responsabilidade. Eliacim pode abrir e fechar, mas não é dono da casa. A casa continua a ser de David. Ele é o administrador.

É precisamente esta imagem que reaparece no Evangelho quando Jesus diz a Pedro: «Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus». Também Pedro não se torna proprietário do Reino. O Reino continua a ser de Deus. Pedro recebe uma missão dentro dele.

Mas antes de lhe entregar as chaves, Jesus faz-lhe uma pergunta.

É neste ponto que a homilia do Padre Tiago nos conduz ao centro da liturgia: «Quem dizem os homens que Eu sou?» E depois, de forma muito mais exigente: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» As primeiras respostas — João Baptista, Elias, Jeremias ou algum dos profetas — dizem alguma coisa verdadeira acerca de Jesus, mas nenhuma chega ao essencial. É Pedro quem responde: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo».

Jesus não faz esta pergunta porque tenha dúvidas acerca da sua identidade. Como sublinhou o Padre Tiago, Jesus sabe quem é e conhece a sua missão. A dificuldade está em nós: somos nós que precisamos de descobrir quem Ele é. E Ele conhece-nos muito mais profundamente do que nós próprios: conhece a nossa história, as nossas memórias, as nossas feridas e capacidades, incluindo aquilo que ainda não conseguimos reconhecer em nós mesmos.

Por isso, a pergunta de Cesareia de Filipe atravessa os séculos e chega até nós:

Quem é Jesus para mim?

Não quem é Jesus para a Igreja, para a teologia, para os historiadores ou para os outros. Quem é Jesus para mim, hoje?

Podemos conhecer o Evangelho, frequentar a Missa, saber o Credo, conhecer os mandamentos e, apesar disso, deixar esta pergunta sem uma verdadeira resposta pessoal. Porque responder «Tu és o Cristo» não significa apenas formular correctamente uma profissão de fé. Significa permitir que essa resposta transforme a vida.

É por isso que, logo depois da profissão de fé, vem a missão.

Pedro reconhece Jesus e Jesus confia-lhe as chaves. A fé não termina no reconhecimento; transforma-se em responsabilidade. A tradição cristã viu justamente nesta passagem o fundamento da missão de Pedro e do ministério do Papa. Mas, como recordava a homilia, o Evangelho não diz respeito apenas a Pedro ou à autoridade da Igreja. Diz respeito também a cada cristão: reconhecer Cristo implica colocar os dons recebidos ao serviço dos outros.

Encontramos aqui a ligação profunda com Isaías.

Todos recebemos alguma chave.

Uns receberam a responsabilidade de uma família. Outros, de uma comunidade. Outros receberam inteligência, capacidade de ensinar, de organizar, de cuidar, de escutar, de criar beleza, de administrar bens ou instituições. Há quem tenha recebido muito e quem julgue ter recebido pouco. Mas ninguém recebeu para guardar exclusivamente para si.

Talvez devamos perguntar: que portas estou a abrir com as chaves que Deus colocou nas minhas mãos?

Porque também podemos utilizá-las para fechar. Podemos fechar portas pela indiferença, pelo orgulho, pela recusa do perdão, pela vontade de dominar ou simplesmente pela omissão. Mas podemos abrir portas através de uma palavra, de um gesto, de uma presença, do conhecimento partilhado, do serviço à comunidade ou da atenção dada a quem ninguém vê.

É aqui que compreendemos a afirmação central da homilia do Padre Tiago: o verdadeiro poder é o serviço. O poder cristão não é domínio, prestígio ou imposição, mas serviço humilde e generoso.

Há, contudo, uma dificuldade. Podemos pensar: não estou preparado. Sou demasiado frágil. Falhei demasiadas vezes.

Também Pedro falhou.

O homem a quem Cristo entrega as chaves será o mesmo que, algumas páginas depois do Evangelho, afirmará três vezes que não conhece Jesus. A pedra terá medo. O homem escolhido vacilará.

E, no entanto, Cristo não desistirá dele.

A homilia recorda precisamente que as fragilidades de Pedro e até a sua negação não anulam definitivamente a missão. Havendo arrependimento e perseverança, é sempre possível regressar ao caminho.

Talvez esteja aqui uma das mais belas mensagens deste domingo. Deus não entrega as suas chaves aos perfeitos. Entrega-as a homens e mulheres frágeis que aceitam confiar n'Ele.

A pergunta inicial regressa então com maior força: «E vós, quem dizeis que Eu sou?»

Se Jesus for apenas uma personagem admirável da história, podemos estudá-Lo. Se for apenas um grande mestre moral, podemos escutá-Lo. Se for apenas um profeta, podemos respeitá-Lo.

Mas se, como Pedro, dissermos verdadeiramente: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo», então já não podemos permanecer exactamente como antes.

Porque reconhecer quem Ele é obriga-nos também a perguntar quem somos nós diante d'Ele.

E talvez descubramos que somos, afinal, administradores e não proprietários: da vida, do tempo, dos talentos, dos bens, das responsabilidades e das pessoas que Deus colocou no nosso caminho.

Isaías dizia que Eliacim receberia a chave da casa de David. Cristo entrega a Pedro as chaves do Reino. E cada um de nós recebeu também pequenas chaves que podem abrir grandes portas.

No fim, talvez Deus não nos pergunte quantas chaves tivemos nas mãos, mas quantas portas abrimos com elas.

A porta de alguém que precisava de ser acolhido.
A porta de alguém que precisava de ser perdoado.
A porta de alguém que precisava de esperança.
A porta de alguém que precisava simplesmente de não ficar sozinho.

E então percebemos que as duas perguntas deste domingo são, no fundo, uma só:

Quem é Jesus para mim — e que estou eu a fazer, por causa d'Ele, com aquilo que me foi confiado?

Porque a profissão de fé de Pedro não termina nas palavras «Tu és o Cristo». Continua numa vida colocada ao serviço. E talvez seja essa a profissão de fé mais difícil e mais verdadeira: transformar os dons, as responsabilidades e as relações de cada dia em oportunidades para abrir aos outros as portas do Reino.

Francisco Vaz

23 de agosto de 2026

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