Não deixar adormecer a humanidade
Entre a sabedoria de Platão, a esperança cristã e o pensamento de Leão XIV
Há uma diferença fundamental entre estar acordado e estar vigilante. Estar acordado é uma condição física; estar vigilante é uma atitude espiritual, intelectual e ética. Podemos passar a vida inteira acordados e, todavia, nunca despertar verdadeiramente para aquilo que importa.
A vigilância não consiste em viver desconfiado, receoso do futuro ou obcecado com os perigos que nos rodeiam. Consiste, antes, em não perder de vista o essencial: o bem que devemos realizar, a verdade que devemos procurar e a humanidade que somos chamados a construir.
Talvez uma das maiores tragédias humanas não seja a ignorância do bem, mas a facilidade com que nos habituamos à sua ausência. Deixamos de reparar no sofrimento, toleramos a injustiça, relativizamos a verdade e acabamos por considerar normal aquilo que, em consciência, deveríamos recusar.
É precisamente aqui que a vigilância deixa de ser uma simples recomendação religiosa e se transforma numa exigência constitutiva da própria humanidade.
A sabedoria que procura quem a procura
A primeira leitura, do Livro da Sabedoria (6, 12-16), apresenta-nos uma ideia extraordinária: a sabedoria não é apenas procurada pelo ser humano; ela própria vem ao encontro de quem a deseja.
«Meditar sobre ela é prudência consumada.»
A sabedoria não é, portanto, simples acumulação de conhecimentos. É a capacidade de reconhecer o verdadeiro bem e orientar a existência para ele. Não basta saber muitas coisas. É necessário saber para que servem, a quem servem e que consequências têm para os outros.
O salmo deste domingo — «A minha alma tem sede de Vós, meu Deus» — acrescenta uma dimensão decisiva: o ser humano não é apenas aquele que conhece, mas aquele que procura. E procura porque nenhuma realização finita esgota a sua aspiração ao infinito.
A vigilância começa precisamente nesta consciência de que não possuímos definitivamente a verdade nem concluímos a tarefa de nos tornarmos plenamente humanos.
Platão e as quatro virtudes: a vigilância como harmonia da alma
Muito antes do cristianismo, Platão procurou compreender o que torna uma vida verdadeiramente boa. Na República, particularmente no Livro IV, identificou quatro virtudes fundamentais: a sabedoria, a coragem, a temperança e a justiça.
Estas virtudes, posteriormente acolhidas e desenvolvidas pela tradição cristã como virtudes cardeais — com a prudência a ocupar o lugar central da sabedoria prática —, não são qualidades isoladas. Constituem uma unidade moral.
A prudência permite discernir o bem; a justiça exige reconhecer e respeitar o bem do outro; a fortaleza dá-nos coragem para o realizar, mesmo perante dificuldades; e a temperança impede que os nossos desejos e interesses particulares se sobreponham àquilo que reconhecemos como justo.
A vigilância é, neste sentido, o exercício permanente destas virtudes.
De pouco serve conhecer o bem se não tivermos coragem para o praticar. De pouco serve sermos corajosos se a nossa coragem não estiver subordinada à justiça. E de pouco serve proclamarmos a justiça se não formos capazes de moderar o egoísmo que tantas vezes governa as nossas decisões.
Para Platão, uma alma justa é uma alma ordenada, na qual cada dimensão cumpre a sua função em harmonia com as restantes. Poderíamos acrescentar que uma alma vigilante é aquela que não permite que essa harmonia seja destruída pela indiferença, pela ambição ou pelo medo.
A vigilância não é, assim, uma quinta virtude. É a atitude que impede as outras quatro de adormecerem.
As dez virgens: a diferença entre esperar e estar preparado
No Evangelho de São Mateus (25, 1-13), Jesus apresenta a parábola das dez virgens. Cinco são prudentes e cinco insensatas. Todas aguardam o esposo. Todas possuem lâmpadas. E, significativamente, todas acabam por adormecer.
A diferença não está, portanto, em umas terem dormido e outras permanecido acordadas. Está no facto de umas se terem preparado para a espera e outras não.
As prudentes levaram azeite suficiente. As insensatas confiaram que bastaria a lâmpada.
É uma imagem extraordinariamente atual.
Quantas vezes confundimos a aparência do bem com a sua realidade? Quantas vezes julgamos que basta professar determinados valores, pertencer a uma comunidade religiosa, defender publicamente a justiça ou manifestar sentimentos de solidariedade?
Mas a lâmpada, por mais bela que seja, não ilumina sem azeite.
O azeite pode ser compreendido, numa leitura moral da parábola, como a consistência interior de uma vida construída pela prática do bem. Não se improvisa uma existência virtuosa no momento em que ela é posta à prova.
Também não se pode pedir emprestada a consciência, a responsabilidade ou a fidelidade que não cultivámos.
A parábola não pretende ensinar-nos a viver com medo da chegada de Deus. Pretende ensinar-nos a não desperdiçar o tempo que nos é dado.
Estar vigilante é viver de tal modo que a chegada do inesperado não nos encontre despreparados para fazer o bem.
Leão XIV: as virtudes e a responsabilidade pelo bem comum
Esta leitura encontra uma correspondência particularmente significativa no pensamento de Leão XIV.
Na mensagem dirigida à Academia Pontifícia das Ciências Sociais, datada de 9 de abril de 2026, o Papa recupera explicitamente a importância das virtudes morais no exercício da autoridade.
Afirma que a sabedoria permite discernir o verdadeiro bem, distinguindo-o dos bens aparentes, e sublinha a indispensabilidade da justiça e da fortaleza para decidir e executar corretamente. Acrescenta que a temperança é essencial para impedir a exaltação desmedida do próprio poder.
É difícil encontrar uma aplicação mais atual das virtudes platónicas.
A autoridade, seja política, religiosa, militar ou simplesmente familiar, não se legitima apenas pela capacidade de decidir. Legitima-se pelo bem que procura realizar e pela forma como respeita a dignidade daqueles sobre quem exerce responsabilidade.
A vigilância torna-se, assim, também uma obrigação ética de quem governa ou comanda: vigiar sobre as próprias intenções, reconhecer os limites do poder, resistir à tentação de confundir autoridade com domínio e não permitir que a eficácia se substitua à justiça.
Na encíclica Magnifica Humanitas, de maio de 2026, Leão XIV desenvolve esta preocupação perante os desafios tecnológicos e sociais, insistindo na necessidade de salvaguardar a dignidade humana e de subordinar o progresso ao bem de todas as pessoas.
E, já em junho de 2025, perante a Conferência Episcopal Italiana, associara a construção da paz a uma presença vigilante e fecunda, feita de paciência, coragem, escuta e ação.
Não basta, portanto, vigiar para conservar aquilo que existe. É necessário vigiar para transformar aquilo que ainda não corresponde à dignidade humana.
A esperança não é uma espera passiva
Na segunda leitura (1 Ts 4, 13-18), São Paulo recorda que os cristãos não devem enfrentar a morte como aqueles que não têm esperança.
Mas a esperança cristã não é uma promessa destinada a dispensar-nos das responsabilidades presentes. Pelo contrário, é precisamente porque a existência humana não se esgota na morte que cada gesto de amor adquire uma dimensão que ultrapassa o instante em que é praticado.
A esperança não elimina a incerteza. Permite habitá-la sem sucumbir ao desespero.
E aqui se encontra uma das mais profundas diferenças entre a vigilância cristã e a simples prudência utilitária: não estamos vigilantes apenas para evitar o mal que nos possa acontecer, mas sobretudo para não deixar de realizar o bem que depende de nós.
O cristão não espera o futuro de braços cruzados. Prepara-o, tanto quanto lhe é possível, através do amor.
É por isso que a vigilância não pode reduzir-se à preocupação com a própria salvação. Quem se preocupa exclusivamente consigo próprio pode até possuir uma lâmpada muito brilhante, mas corre o risco de não iluminar ninguém.
Estar vigilante é estar disponível para amar
A vigilância encontra a sua expressão mais radical na atenção ao outro.
O sacerdote e o levita da parábola do Bom Samaritano viram o homem caído no caminho, mas passaram ao largo. O samaritano viu-o e aproximou-se.
Todos tiveram conhecimento da situação. Apenas um transformou esse conhecimento em responsabilidade.
É nesta passagem do ver ao agir que se manifesta a verdadeira vigilância ética.
O amor não é uma emoção agradável perante o sofrimento alheio. É a decisão de não permanecer indiferente.
Podemos sentir pena e continuar o nosso caminho. Podemos reconhecer a injustiça e permanecer silenciosos. Podemos proclamar a paz e alimentar diariamente a hostilidade. Podemos falar de fraternidade e recusar o encontro com quem pensa de maneira diferente.
Em todos estes casos, a lâmpada existe. O que falta é o azeite.
E talvez seja esta a interrogação mais exigente do Evangelho de hoje: de que serve afirmar que esperamos Cristo, se não estamos disponíveis para O reconhecer no ser humano concreto que encontramos?
A vigilância cristã é inseparável do amor porque o amor exige uma atenção permanente à existência do outro.
A vigilância como fidelidade à nossa humanidade
Há, finalmente, uma dimensão antropológica que importa não esquecer.
O ser humano é um ser inacabado. Não porque lhe falte dignidade, mas porque a sua existência se realiza continuamente através de escolhas livres e responsáveis.
Não nascemos justos, prudentes, fortes ou temperantes no sentido pleno destas virtudes. Tornamo-nos progressivamente capazes de as exercer, através da educação, da experiência, da reflexão e, sobretudo, da prática.
A virtude não é uma medalha que se recebe. É uma maneira de ser que se constrói.
E esta construção nunca está definitivamente concluída.
A vigilância é, por isso, a recusa de considerar terminada a nossa responsabilidade de nos tornarmos melhores.
Não se trata de alcançar uma perfeição impossível, mas de não desistir do bem possível.
Platão recorda-nos que uma vida boa exige a harmonia das virtudes. São Paulo ensina-nos que a esperança ultrapassa a morte. Leão XIV insiste na responsabilidade de traduzir as virtudes em justiça, paz e serviço do bem comum. E Cristo, na parábola das dez virgens, recorda-nos que a fidelidade se prepara na vida quotidiana, antes de chegar o momento decisivo.
Todos estes caminhos convergem numa exigência: não permitir que a nossa humanidade adormeça.
Porque a maior ameaça à vida moral talvez não seja a prática deliberada do mal, mas a progressiva habituação à ausência do bem.
Estar vigilante é não aceitar essa habituação.
É continuar a procurar a verdade quando a mentira parece mais conveniente. É defender a justiça quando a injustiça parece mais vantajosa. É preservar a temperança quando tudo convida ao excesso. É ter a fortaleza necessária para amar quando seria mais fácil passar ao largo.
E é, sobretudo, compreender que o tempo da nossa existência não nos foi dado apenas para esperar alguma coisa, mas para realizar alguma coisa.
Talvez, quando o esposo chegar, a pergunta decisiva não seja quanto tempo permanecemos acordados, quantas orações pronunciámos ou quantas verdades proclamámos.
Talvez seja simplesmente esta:
Que fizeste da luz que te foi confiada?
Porque estar vigilante não é viver à espera de que Deus venha.
É viver de tal modo que, quando Ele vier, nos encontre a amar.
Francisco Vaz
8 de novembro de 2026
Sem comentários:
Enviar um comentário