«Para mim, viver é Cristo»
Na Eucaristia deste domingo, presidida por D. Paulo Romeu, bispo de Jequié, na Bahia, ficaram-me particularmente presentes duas ideias que atravessam as leituras: a bondade de Deus ultrapassa os nossos cálculos e a vida cristã só encontra o seu sentido pleno quando pode afirmar, com São Paulo: «Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro».
Paulo escreve estas palavras aos cristãos de Filipos, cidade da Macedónia e colónia romana. Ali fundara, cerca do ano 50, a primeira comunidade cristã conhecida em território europeu. Os Filipenses conservaram por ele uma especial afeição e apoiaram-no materialmente durante a sua missão. Paulo escreve-lhes da prisão, agradecendo a ajuda recebida, exortando-os à unidade e preparando-os para a possibilidade da sua morte.
As suas palavras não exprimem desprezo pela vida, nem uma atração pelo sofrimento. Quando afirma que «morrer é lucro», Paulo proclama que a morte já não possui a última palavra. Para quem vive em Cristo, morrer não é cair no nada, mas alcançar a plenitude da comunhão com aquele que já dá sentido à existência. Contudo, Paulo reconhece que permanecer vivo pode ser necessário para continuar a servir os irmãos. A sua vida já não lhe pertence inteiramente: tornou-se missão.
As cartas de Paulo entraram no Novo Testamento porque as primeiras comunidades reconheceram nelas um testemunho autorizado da fé apostólica. Escritas inicialmente para responder a situações concretas, foram depois lidas nas assembleias, copiadas e partilhadas entre as Igrejas. A formação do cânone foi gradual: as cartas paulinas já circulavam como coleção entre o final do século I e o início do século II; no século IV, a lista dos 27 livros do Novo Testamento ficou claramente estabelecida, aparecendo na Carta Festal de Santo Atanásio, em 367, e sendo posteriormente confirmada pelos sínodos de Hipona e de Cartago.
Na homilia de D. Paulo Romeu, a parábola dos trabalhadores da vinha foi apresentada como revelação da bondade de Deus. O proprietário sai repetidamente à procura de trabalhadores: de manhã cedo, ao longo do dia e quase ao cair da tarde. A sua preocupação não é apenas o rendimento da vinha. Ele não quer que nenhum homem termine o dia sem trabalho, sem salário e sem pão para levar para casa.
À hora do pagamento, todos recebem o mesmo denário. Os primeiros protestam, não porque tenham recebido menos do que lhes fora prometido, mas porque os últimos receberam o mesmo. A sua revolta nasce da comparação. Desejam para si a justiça do contrato, mas recusam aos outros a generosidade.
É aqui que a parábola nos atinge. Aceitamos facilmente a bondade de Deus quando somos os seus beneficiários; temos maior dificuldade em aceitá-la quando alcança aqueles que julgamos menos merecedores. Todavia, como recorda Isaías, os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos, nem os seus caminhos são os nossos caminhos. A bondade divina rompe os nossos esquemas, ultrapassa a contabilidade dos méritos e não se deixa aprisionar pelas hierarquias que construímos.
Deus não ama por comparação. Aquilo que concede ao outro nada retira ao amor que me oferece. A misericórdia concedida a quem chegou tarde não representa uma injustiça para quem trabalhou desde a primeira hora. Diante de Deus, ninguém fica definitivamente reduzido aos seus atrasos, fracassos ou desvios. Enquanto durar o dia, permanece aberto o chamamento para a vinha.
Reunidos em torno do altar, somos também aqueles trabalhadores chamados pelo Senhor. Mas não comparecemos como assalariados que exigem um pagamento proporcional ao serviço realizado. Aproximamo-nos como filhos que recebem gratuitamente o amor do Pai. O nosso verdadeiro denário é o próprio Cristo.
Na Eucaristia, Cristo não morre e ressuscita novamente: o seu único sacrifício pascal torna-se sacramentalmente presente. E todos recebem o mesmo Senhor — aquele que chegou primeiro e aquele que chegou mais tarde, o fiel e o que regressou, o forte e o ferido. Cristo entrega-se inteiramente a cada um.
«Viver é Cristo» significa, portanto, abandonar a contabilidade espiritual e aprender a olhar os outros com a generosidade de Deus. Significa transformar a vida recebida em serviço, gratidão e entrega. Mesmo na tribulação, permanece esta certeza: Deus pode não nos poupar a todas as dificuldades, mas nunca nos deixa faltar o seu amor.
Regressamos, assim, às nossas casas com alegria. Não apenas porque recebemos a bondade de Deus, mas porque somos enviados para a tornar presente. Quem recebeu gratuitamente Cristo na Eucaristia é chamado a ser, no mundo, testemunha da mesma bondade que não exclui ninguém e que ultrapassa todos os nossos cálculos.
Francisco Vaz
20 de setembro de 2026
Sem comentários:
Enviar um comentário