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domingo, 13 de setembro de 2026

XXIV Domingo do Tempo Comum

Reflexão para o XXIV Domingo do Tempo Comum

«Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?»
(Mt 18,33)

O tema que a Palavra de Deus nos propõe é fácil de enunciar, mas difícil de viver: o perdão. Todos reconhecemos a sua beleza quando somos nós a recebê-lo; descobrimos, porém, a sua exigência quando somos chamados a concedê-lo.

A primeira leitura adverte-nos: «O rancor e a ira são coisas detestáveis». Não porque a dor causada pela ofensa seja imaginária ou insignificante, mas porque o ressentimento, quando consentido e alimentado, prolonga dentro de nós o poder daquele que nos feriu. A ofensa aconteceu num determinado momento; o ressentimento encarrega-se de a repetir todos os dias.

Perdoar não significa afirmar que o mal não aconteceu. Não é esquecer por obrigação, desculpar o indesculpável ou renunciar à justiça. Também não implica necessariamente restabelecer uma relação que se tornou perigosa ou moralmente destrutiva. Há situações em que perdoar exige distância, prudência e proteção. O perdão não transforma o mal em bem nem retira ao culpado a sua responsabilidade. Impede, isso sim, que o mal recebido se converta no mal que passamos a transportar e, porventura, a transmitir aos outros.

É neste sentido que perdoar significa abdicar do direito ao ressentimento.

Quem foi ofendido pode sentir que adquiriu o direito de conservar a mágoa, alimentar a indignação e desejar que o outro sofra. Humanamente, esse sentimento parece compreensível. Mas Cristo chama-nos a uma liberdade maior: não permitir que a injustiça determine definitivamente aquilo em que nos tornamos.

Abdicar do ressentimento não é renunciar à dignidade; é recuperá-la. É dizer: “O que me fizeste foi real e foi injusto, mas não concederei a esse mal o poder de governar o meu coração.” O perdão não altera o passado, mas liberta o futuro.

Pedro pergunta a Jesus quantas vezes deverá perdoar: «Até sete vezes?» Julgava já propor uma medida generosa. Jesus responde: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.» Não se trata de substituir um limite por outro mais elevado. Na linguagem bíblica, trata-se de retirar ao perdão qualquer contabilidade. O amor não conserva um livro de débitos para decidir quando termina a misericórdia.

A parábola do servo impiedoso mostra-nos a desproporção entre a dívida imensa que lhe foi perdoada e a pequena dívida que ele se recusou a perdoar. O problema daquele servo não está apenas na crueldade do seu comportamento. Está no facto de ter recebido misericórdia sem permitir que ela transformasse a sua maneira de olhar o próximo.

Também nós podemos receber o perdão de Deus e continuar a viver como cobradores implacáveis das dívidas alheias. Podemos aproximar-nos da confissão, escutar as palavras da absolvição e, apesar disso, conservar cuidadosamente os nossos “pecados de estimação”: juízos, rancores, desprezos e antigas feridas que não desejamos entregar verdadeiramente a Deus.

É por isso que o perdão tem uma dimensão pessoal, mas também comunitária. O pecado nunca fica inteiramente fechado naquele que o pratica. Rompe relações, envenena ambientes, endurece palavras e instala silêncios. Numa família onde ninguém perdoa, até uma refeição pode tornar-se irrespirável. Numa comunidade dominada pelo ressentimento, as pessoas podem permanecer exteriormente juntas, mas já não vivem em comunhão.

Ao contrário, uma comunidade que aprende a perdoar é uma comunidade que respira.

Como recordou o cónego Gianfranco Bianco, quem não perdoa acaba por ficar parado. Transporta, por vezes durante toda a vida, as humilhações da infância, as desilusões familiares, as amizades perdidas ou as injustiças sofridas. O passado deixa de ser memória e transforma-se numa prisão. A pessoa já não vive a partir do que é, mas reage continuamente ao que lhe fizeram.

Por isso, o primeiro beneficiário do perdão é aquele que perdoa. Mesmo que o ofensor não reconheça a culpa, não peça desculpa ou não aceite a reconciliação, aquele que perdoa entra num espaço interior novo. Deixa de entregar ao outro a chave da sua paz.

Contudo, esta liberdade não nasce apenas do esforço humano. A nossa reação espontânea é defender-nos, retribuir e conservar a ofensa como argumento contra o outro. O perdão cristão é sobrenatural porque nasce da presença de Cristo em nós. Não perdoamos porque somos insensíveis ao mal, mas porque fomos alcançados por um amor maior do que o mal.

O segredo está em recordar quantas vezes fomos perdoados pelo Senhor. O cristão não perdoa a partir de uma superioridade moral, como se fosse melhor do que aquele que o ofendeu. Perdoa como alguém que sabe viver de uma misericórdia recebida.

O Papa Francisco comparava o perdão a uma ressurreição: quando alguém, esmagado pela culpa, recebe a misericórdia de Deus, volta à vida. A graça não apaga magicamente as consequências dos atos, mas restitui à pessoa a possibilidade de recomeçar. «A vossa graça, Senhor, vale mais do que a vida», canta o salmista, porque é a graça que reconstrói aquilo que o pecado destruiu.

Perdoar é, portanto, um ato pascal. É recusar que a morte tenha a última palavra numa relação ou dentro de nós. É atravessar a memória dolorosa sem permanecer sepultado nela. É entregar a Deus o desejo de vingança e pedir-lhe que faça nascer vida onde apenas parecia existir ruína.

Talvez não consigamos perdoar tudo de uma só vez. Há perdões que não são um instante, mas um caminho; não são uma emoção, mas uma decisão renovada diariamente. Podemos ainda sentir a ferida depois de termos decidido perdoar. Isso não significa que o perdão tenha sido falso. Significa apenas que a vontade já escolheu a liberdade, enquanto o coração continua lentamente a aprender a paz.

Neste domingo, a pergunta decisiva não é apenas: “Quem me ofendeu?” É também: “Que ressentimento continuo a considerar um direito meu?” E ainda: “Que dívida continuo a cobrar, depois de Deus me ter perdoado uma dívida incomparavelmente maior?”

Perdoar é colocar a justiça nas mãos de Deus e recusar tornar-nos prisioneiros do mal que sofremos. É libertar o outro da nossa vingança e libertarmo-nos da presença corrosiva do outro dentro de nós.

Quem perdoa não declara que nada aconteceu. Declara que o mal acontecido não decidirá o futuro.

Perdoar é devolver a vida. É permitir que o coração volte a respirar. É abdicar do direito ao ressentimento para receber, das mãos de Deus, o dom maior da paz.

Francisco Vaz

13 de setembro de 2026

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