CORO

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terça-feira, 14 de julho de 2026

Do Génesis à Divina Comédia

Uma alegoria sobre o humor divino, a liberdade humana e as eternas azelhices da criatura.

Há uma hipótese que, naturalmente, não consta em qualquer tratado de teologia, mas que merece, pelo menos, um sorriso filosófico: talvez a história da humanidade possa ser lida como a mais longa comédia alguma vez representada.

Não porque Deus tenha criado o homem para dele troçar, mas porque só um infinito sentido de humor poderia acompanhar, sem desistir da obra, a sucessão interminável de equívocos produzidos pela criatura dotada de liberdade.

Tudo começa no Génesis. O cenário é perfeito. O jardim é paradisíaco. A criação termina com uma exclamação de satisfação: «E Deus viu que tudo era muito bom.» A peça parecia destinada ao género da contemplação. Mas bastaram poucas páginas para surgir o primeiro ato cómico. Deus diz: «De toda a árvore podes comer, menos desta.» O ser humano, com a criatividade que o acompanhará para sempre, conclui imediatamente que a única árvore realmente interessante só pode ser precisamente essa.

É o primeiro grande momento da comédia humana: transformar a única exceção na única prioridade.

Segue-se o célebre interrogatório. «Adão, onde estás?» Como se Deus ignorasse a resposta. A pergunta não procura informação; procura consciência. Mas Adão responde como responderão milhões dos seus descendentes: não assume a responsabilidade, procura um culpado: «A mulher que me deste…». Eva, por sua vez, remete a culpa para a serpente. A serpente, infelizmente, não dispõe de advogado.

Desde então, a humanidade aperfeiçoou o método. Descobrimos a política, onde a culpa pertence sempre ao governo anterior; a economia, onde a responsabilidade é dos mercados; a meteorologia, onde tudo se explica pelas alterações climáticas; e as redes sociais, onde cada um possui a verdade absoluta durante quinze minutos.

Entretanto, Deus continua, por assim dizer, a assistir à representação. Não como um espectador que se diverte com o sofrimento das personagens, mas como um autor paciente que sabe que a liberdade implica a possibilidade permanente do disparate. Um criador de marionetas controla os fios; um criador de pessoas aceita o risco da improvisação.

Talvez seja precisamente aí que reside o humor divino: conceder inteligência suficiente para descobrir as leis do universo e, ao mesmo tempo, observar os mesmos seres humanos discutirem por um pedaço de terra, uma herança ou um lugar de honra à mesa.

Construímos telescópios capazes de observar galáxias a milhares de milhões de anos-luz e, logo a seguir, perdemos meia hora à procura dos óculos que temos pousados na cabeça. Inventamos a penicilina e a inteligência artificial, mas continuamos incapazes de ler as instruções e montar uma simples estante sem sobrarem meia dúzia de parafusos.

A história torna-se assim uma sucessão de atos em que convivem o sublime e o ridículo. A mesma humanidade que ergue catedrais, compõe sinfonias, escreve Shakespeare, pinta Miguel Ângelo ou descobre a estrutura do ADN é também capaz de iniciar guerras por vaidade, destruir o que levou séculos a construir e repetir, geração após geração, os mesmos erros com uma surpreendente convicção de originalidade.

Talvez por isso a expressão Divina Comédia encerre uma intuição mais profunda do que parece. Não porque a criação seja uma piada, mas porque o drama humano é frequentemente atravessado por um humor involuntário. Somos simultaneamente heróis e trapalhões, sábios e distraídos, criados à imagem do Logos e continuamente tentados pelo absurdo.

O Génesis pode, assim, ser entendido como o prólogo desta imensa representação. Não uma comédia destinada a ridicularizar o homem, mas uma comédia onde a liberdade humana revela, a cada passo, a distância entre aquilo que somos e aquilo que poderíamos ser.

E talvez o riso de Deus — se é legítimo imaginá-lo — não seja um riso de escárnio, mas de infinita ternura. O mesmo sorriso de um pai que vê o filho cair pela centésima vez enquanto aprende a caminhar. Sabe que a queda faz parte do caminho. E continua, pacientemente, a estender-lhe a mão.

No fim, a verdadeira graça da história não está nas nossas azelhices, mas no facto de, apesar delas, a criação continuar aberta à esperança. Afinal, se o Génesis inaugura a grande comédia da liberdade, é porque o Autor nunca deixou de acreditar que a última palavra não pertencerá ao ridículo, mas ao amor.

Francisco Vaz

1 de julho de 2026

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Êthos: Uma visita a Milão

Êthos: Uma visita a Milão: A Cidade onde a Ciência, a Arte e a Religião se Encontram Há cidades que se distinguem pela sua riqueza económica, outras pelo seu poder po...

sexta-feira, 5 de junho de 2026

A dimensão litúrgica do Coro



 
Momentos da liturgia
 
 
 
"A liturgia, como exercício da função  sacerdotal  de  Cristo, comporta  um  duplo movimento: de Deus aos homens, para operar a sua santificação, e dos  homens a Deus, para que eles possam adorá-lo em espírito e verdade."
 
 
 
Por isso a liturgia, de um modo geral, pode ser entendida como um diálogo  entre o Deus-Trindade e o Homem-Comunidade.  Este  diálogo  é  composto  de  vários momentos. Cada momento tem o seu "espírito" próprio, seu sentimento  peculiar, e portanto uma expressão diferenciada. Ninguém pede  perdão  de  forma  triunfal, nem dá um Viva tímido. Cada momento da liturgia  exige  um  tipo  de  expressão musical.   Sem   conhecer   o   espírito  de  cada  momento  do  diálogo  litúrgico, corremos o risco de dar um Viva tão tímido que ninguém  se  sinta  estimulado  a responder.
 
 
 
 
Cada Música da Celebração Eucarística tem seu  papel  e  Inspiração  própria  de cada momento litúrgico dentro da celebração. Estes momentos são os seguintes:
 



 
1. Ritos iniciais
 
 
Preparação
 
 
É um momento que foi esquecido durante algum tempo e agora está  voltando  ao uso. Enquanto alguns "acolhem" os irmãos que estão chegando para  a  festa  da Eucaristia,  o  maestro do coro  pode  preencher  o  ambiente  com  um  solo instrumental. Alguns, neste momento costumam  ensaiar  as  canções  que  farão parte da celebração. Pode-se também colocar um  disco  de  meditação,  ou  das músicas que se irá ensaiar. O importante é  criar  um  ambiente  de  vida,  pois  é Cristo, Verdade e Vida, que iremos celebrar.
 
 
Entrada
 
 
Toda a assembleia, unida em uma só  voz,  canta  a  alegria  festiva  de  reunir-se como irmãos em torno do  Cristo.  Esta  canção  deve  deixar  claro  para  toda  a assembleia, que festa, ou mistério do  Tempo  Litúrgico  (A  segunda  "perna"  do tripé litúrgico") iremos celebrar. Toda a assembleia  deverá  ser  envolvida  na  execução deste cântico.
 
 
A primeira impressão sempre marca  todo  o  relacionamento.  Assim  também  o canto inicial marcará toda a celebração.
 
 
Os instrumentos terão a função de unir, incentivar e apoiar o canto.  Não  deverão cobrir as vozes dificultando a compreensão do texto. Ninguém  participa  de  uma celebração para  ser  admirado,  ou  para  aumentar  seu  prestígio  na  comunidade. "Tocar na Missa" é um serviço e uma oração. Todo este canto como a  procissão do sacerdote não deverão ser demasiado longas. O canto deve terminar quando o sacerdote chega ao altar.
 
 
Acto Penitencial
 
 
Neste canto aclamamos a Cristo como "Nosso  Senhor"  e  lhe  pedimos  perdão. É um canto de repouso. Sua melodia deve  traduzir  a  contrição  de  quem  pede perdão. Toda a assembleia  deve  participar  deste  canto,  mas  admite-se  um  diálogo solista-assembleia.
 
 
Não é necessário que este canto seja muito "Florido". A simplicidade é a  melhor forma de expressar o arrependimento. O instrumentista deve traduzir este espírito de confiança e invocação  acompanhado  de  modo  suave,  quase  imperceptível. Para isto pode-se até excluir a percussão deste momento.
 
 
Glória
 
 
Esta é a canção da alegria, o  canto  que  os  anjos  e  pastores   cantaram  para saudar o nascimento do redentor (cf. Lc 2,14). Desde o século IV que os  cristãos cantam. Houve uma época que só os bispos o podiam cantar. Hoje recomenda-se que toda assembleia cante o "glória" com ânimo e alegria.
 
 
Este canto é excluído no advento e na  quaresma,  nos  outros  tempos  deve  ser executado e de preferência "Cantado". Não é  bom  que  seja  parte  exclusiva  do coral. Este poderá cantá-lo em diálogo com o povo.
 
 
O glória "não constitui uma aclamação trinitária",  Mas  deve  ser  antes  de  tudo uma manifestação da louvor a Deus-Pai e ao Cordeiro.
 
 
Os instrumentos têm papel importantíssimo neste canto. A percussão poderá ser bem explorada. É claro que a  "parte  não  deverá  sobressair  em  detrimento  do todo", mas neste canto os instrumentos poderão destacar-se um pouco mais.
 



 
II - Liturgia da Palavra
 
 
Salmo Responsorial
 
 
Dentro do diálogo litúrgico, este canto é a resposta da assembléia  ao  Deus  que falou na primeira leitura. Como diz  o  próprio  nome,  trata-se  de  um  salmo,  no entanto admite-se também um canto de meditação,  contanto que seja de origem bíblica e signifique uma resposta coerente  com  a  proposta  divina  expressa  na primeira leitura. 
 
 
Pode  ser  executado  por  um  solista  nas  estrofes  com  a  adesão  de  toda  a assembleia no refrão. O acompanhamento dos  instrumentos  deve  ser  discreto, exceto quando o salmo for festivo e acompanhado por todo o povo.
 
 
Aclamação ao Evangelho
 
 
Geralmente (menos no advento e na  quaresma)  a  aclamação  mais  usada  é  o Aleluia, seguido de uma pequena estrofe que prepara a leitura do Evangelho.  Não é um canto obrigatório mas sendo executado, é preciso que seja uma aclamação pessoal e comunitária ao Verbo de Deus .  Ao  contrário  do  Salmo,  este  canto permite   movimento   e   participação  vibrante  dos  instrumentos.  Poderá  haver solista, mas o Aleluia deverá ser cantado por toda a assembleia.
 
 
Depois da Homilia
 
 
Em missas com crianças, ou em outras celebrações onde  a  reflexão  silenciosa seja difícil, pode ser entoado um cântico, no estilo  do  Salmo  Responsorial,  que venha a trazer uma manifestação em sintonia com o tema do evangelho.
 
 
Profissão de Fé
 
 
O Creio é uma resposta de fé e de compromisso da comunidade e do  indivíduo  à palavra de Deus. Nele  recordamos  toda  a  história  da  salvação.  Por  isso  não convém a utilização de formas abreviadas que  sejam  profissão  de  fé,  mas  que não resumam a fé cristã. Quando cantada,  deve  contar  com  a  participação  de toda a assembleia. No entanto pela estrutura rítmica da letra, isso se torna  muito  difícil. Uma opção seria cantar um refrão popular, entre uma recitação e outra do Creio.
 
 
Oração dos Fiéis
 
 
Esta oração poderá adquirir um tom mais solene quando cantada. As  invocações devem ser executadas por um solista, ao que o povo responde cantando.  Aqui  a participação dos instrumentistas é  suavíssima  e  até  dispensável,  podendo  ser usado apenas o teclado com som de órgão.
 



 
III - Liturgia Eucarística
 
 
Preparação das oferendas
 
 
Este  é  um  dos  cantos  menos  importantes  da  missa.   Neste  momento  preparamo-nos para  oferecer  ao  Pai,  o  Cristo  "ao  qual  nos  unimos  oferecendo as nossas vidas, o nosso corpo como culto espiritual  agradável  a  Deus". Portanto, o grande ofertório da missa é após a consagração quando já não oferecemos o pão, o  vinho,  nossa   vida,  nosso   trabalho,  mas  o  próprio  Cristo  e  todo  o  resto transfigurado "Por Ele, com Ele e n’Ele".
 
 
Durante o canto de ofertório normalmente também ocorre a coleta , momento  em que colocamos um pouco do que é  nosso  em  comum.  Portanto  o  objetivo  do canto "de ofertório" é criar  uma  atmosfera  de  alegria,  partilha  e  generosidade. Pode-se dispensar o canto e os instrumentos fazerem um solo apropriado para  o momento litúrgico. Ou ainda participar com um canto de  oferta  que  o  povo  não conheça, desde que este não venha a distrair a atenção da assembleia.
 
 
Oração Eucarística
 
 
Tanto  o  diálogo  introdutório,  como  o  prefácio  e  demais  orações  podem  ser cantados e  dependendo  da  sintonia  entre  músicos  e  celebrante,  podem  ser acompanhadas pelos instrumentos. Desde que o celebrante ache  conveniente.
 
 
Santo
 
 
É dos canto principais, se não o principal, da liturgia. Nele toda a  assembleia  se une aos anjos e santos para proclamar as maravilhas do Deus Uno  e  Trino.  É  o primeiro canto em ordem de importância. É o canto dos anjos (Is 6,2s) e  também dos homens (Lc 19,38). Não teria sentido convidar os céus e a terra,  os  anjos  e os santos para cantar em uma só voz, e depois somente um coral ou  um  solista executar o canto. Este é essencialmente um canto  da  assembleia.  É desejavel  a participação dos instrumentos para  solenizar  esta  vibrante  saudação:  SANTO, SANTO, SANTO!
 
 
Aclamações em particular
 
 
Há uma série de aclamações durante a  celebração  eucarística  que  poderia  ser cantadas. A Oração Eucarística para  missas  com crianças,  ou  sobre  a  Reconciliação,  o  "Amém"  poderia  ser  cantado  muitas vezes, especialmente depois da doxologia (Por Cristo, com Cristo e em Cristo ...) que é o grande amém da  missa.. Durante  a  consagração  é  melhor  o  silêncio, nem mesmo solos devem distrair a  atenção  da  assembleia  naquele  momento. Pode-se cantar sim a aclamação após a consagração (Eis o mistério da fé ...).
 
 
Pai-nosso
 
 
O Pai-nosso cantado por toda a assembleia tem grande força e significado. É um dos grandes pontos da  Missa,  exprimindo  de  modo  maravilhoso  a  comunhão entre os irmãos. Se não for cantado por todos, é preferível que  seja  recitado. Os instrumentos têm papel de sustentação, evitando distrair a atenção da oração.
 
 
Abraço da paz
 
 
Pode cantar-se uma canção alegre cuja  letra  lembre  fraternidade  e  caridade como fundamento da vida cristã. Deverá ser uma melodia  contagiante. Entretanto não é essencial que a assembleia cante.
 
 
Cordeiro de Deus
 
 
Esta prece, de origem Bíblica (Jo 1,29), faz alusão  ao  Cordeiro  Pascal,  que  se imola e tira o pecado do mundo. Pode ser cantado pelo coral  ou  solista,  mas  a assembleia deve participar da última petição: dai-nos a paz.
 
 
Comunhão
 
 
É o canto mais antigo da missa. Por ele, através da união  das  vozes,  queremos expressar nossa comum-união espiritual  em  torno  de  Jesus  Cristo.  Todos  ao redor da mesma mesa, congregados numa mesma igreja, participam  do  mesmo pão. A função do canto de comunhão é alinhavar esta união.
 
 
É comum escutarmos que se deveria fazer silêncio durante a comunhão para que um  pudesse  se  entreter  num  encontro  pessoal  com  Cristo.  Ë  certo  que  a comunhão dos Cristãos é um ato pessoal, mas deve manifestar-se através de um ato comunitário. E o canto de  comunhão  deve  propiciar  esta  manifestação  de comunidade. Por isso toda a assembleia deve participar entusiasticamente deste canto.
 
 
O Silêncio Eucarístico necessário ao encontro e oração pessoal com Cristo se dá no próximo momento.
 
 
Ação de Graças
 
 
Após a comunhão a assembleia, em silêncio, adora  e  agradece  a  presença  do Cristo Eucarístico. Após este breve silêncio pode-se  cantar  um  salmo  ou  outro canto de louvor ou de ação de graças. Este canto não pode e não deve  excluir  o momento de silêncio após a comunhão.
 
 
É preferível que este canto seja breve e executado por todos.  Por  isso,  também para os instrumentos, não convém longas introduções e interlúdios. É preciso que o maestro tenha a devida sensibilidade e discernimento para saber se este  canto é conveniente em tal momento. Evite-se o canto  de  ação  de  graças  quando  a celebração já estiver por demais prolongada
 



 
IV - Ritos Finais
 
 
Canto Final
 
 
Antes da benção entoa-se uma ou duas estrofes de um canto alegre e que cause a última impressão que se  irá  levar  da  celebração.  Pode  ser  executado  com maestria, porém não deve ser muito prolongado. Um costume muito comum,  é  o de se aproveitar este canto final para  fazer  uma  homenagem  a  Maria,  mãe  de Deus e nossa.
 
 
Após a benção  pode-se  continuar  as  demais  estrofes  do  canto  final,  sem  a necessidade da participação da assembleia. Utilizem-se todos  os  recursos  disponíveis para que este encerramento crie a predisposição  para  o  povo  retornar  à  Festa Eucarística.
 

Adaptado de www.cantemos.com.br