3º Domingo da Quaresma
O Evangelho segundo São João apresenta-nos hoje uma das páginas mais profundas de todo o Novo Testamento: o encontro de Jesus com a Samaritana junto ao poço.
O cenário não é indiferente. Jesus Cristo encontra-se em território inimigo, na terra dos Samaritanos. Judeus e Samaritanos evitavam-se mutuamente, desconfiavam uns dos outros, mantinham uma distância antiga e profunda. E, no entanto, é precisamente aí que Jesus decide passar. Jesus não escolhe apenas os lugares seguros; atravessa também os territórios onde há divisão, feridas e desconfiança.
Jesus aproxima-se de um poço. E ali chega uma mulher Samaritana. Vem buscar água à hora em que normalmente não está ninguém. Não vem de manhã cedo, quando todas as outras mulheres da aldeia se encontram. Vem sozinha. A tradição diz-nos porquê: sabe-se pecadora. Teve cinco maridos e vive agora com um homem que não é o seu. Carrega consigo o peso da sua história e talvez também o olhar julgador da comunidade.
E é com esta mulher que começa um diálogo extraordinário.
Ao longo da conversa vemos um caminho interior a acontecer. No início, a mulher olha para Jesus e diz simplesmente: “Tu és Judeu.” Vê nele apenas um homem de um povo estrangeiro. Depois, à medida que o diálogo avança, diz: “Vejo que és um profeta.” Já percebe que há nele algo mais profundo. E, finalmente, reconhece: “Será este o Messias?”
Há aqui um percurso espiritual. Um caminho de descoberta. Um encontro que passa da estranheza inicial à intimidade mais profunda com Cristo.
Quem é este homem que fala com ela? Quem é este homem que conhece a sua vida inteira e, mesmo assim, não a rejeita? Quem é este homem que pede água, mas afinal é fonte de água viva?
A primeira leitura recorda-nos também outro momento da história do povo de Israel. O povo já tinha sido salvo do faraó, já tinha sido libertado da escravidão do Egito. E, no entanto, no deserto começa a murmurar, começa a duvidar: “Está Deus no meio de nós ou não?”
Mesmo depois de tantos sinais, o povo duvida.
E se formos sinceros, também nós conhecemos bem esta experiência. Quantas vezes já vimos a presença de Deus na nossa vida e, ainda assim, voltamos a duvidar? Quantas vezes murmuramos, como o povo no deserto?
Não devemos escandalizar-nos com isso. Moisés também duvidou. Os profetas também duvidaram. Os discípulos vão duvidar. A dúvida faz parte do caminho humano.
O verdadeiro problema não é a dúvida. O verdadeiro problema é esquecermo-nos do nosso coração. Porque é no coração que cada um encontra Deus. É no interior da nossa vida que nasce a verdadeira adoração.
Jesus diz à Samaritana que chegará o tempo em que os verdadeiros adoradores não adorarão apenas neste monte ou em Jerusalém, mas “adorarão o Pai em espírito e verdade.”
A primeira decisão daquela mulher foi reconhecer essa verdade no seu coração. Reconhecer quem estava diante dela.
E, depois disso, acontece algo muito belo: ela corre para a aldeia.
Não consegue guardar para si aquela descoberta. Diz aos outros: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz.”
Quem encontra verdadeiramente Cristo não consegue ficar calado. Uma notícia destas não se guarda para si próprio.
Este é o grande convite deste terceiro domingo da Quaresma. Apesar das nossas dúvidas, apesar das nossas fraquezas, apesar das nossas histórias complicadas, a fonte de água viva não esmorece. Cristo continua a aproximar-se de nós, como se aproximou daquela mulher junto ao poço.
E continua a convidar-nos a beber dessa água que não se esgota.
Se a acolhermos no nosso coração, então acontecerá connosco o mesmo que aconteceu com a Samaritana: sentiremos vontade de correr e de anunciar aos outros que encontrámos alguém que dá sentido à nossa vida.
Que nesta Quaresma possamos também nós reconhecer essa presença no nosso coração e tornar-nos testemunhas dessa água viva no meio do mundo.
João Maia
Diácono
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