**I Domingo da Quaresma**
Pe. Gianfranco Bianco
Neste primeiro domingo da Quaresma somos conduzidos ao coração do drama humano: o pecado como rutura de relação. O Génesis apresenta-nos o jardim — lugar da alegria, da comunhão, da amizade entre Deus e o homem. Em Gênesis, Adão e Eva representam a matriz de toda a humanidade. Foram criados para a vida, para a relação, para o amor.
Mas o pecado rompe relações. Amores e amizades perdem-se pelo cansaço, pela ilusão de que “não vale a pena”. Iludimo-nos com outros jardins, espaços onde imaginamos poder viver sem Deus. O pecado é, assim, experiência de morte — não apenas biológica, mas ontológica: é afastamento da fonte da vida. Fomos criados para a eternidade, mas escolhemos, tantas vezes, o fruto que promete autonomia e entrega solidão.
Havia duas árvores no jardim: a do conhecimento do bem e do mal e a árvore da vida. Deus desejava que o homem permanecesse na vida. Mas, na plenitude dos tempos, Ele próprio plantou uma nova árvore — a Cruz. Em Jesus Cristo surge a nova humanidade. Na árvore que é Cristo nasce o fruto da eternidade. Por isso a liturgia ousa cantar: “Ó feliz culpa, que nos trouxe tão grande Redentor.”
O Evangelho deste domingo leva-nos ao deserto (cf. Evangelho de Mateus 4,1-11). Jesus, o novo Adão, enfrenta as tentações durante quarenta dias e quarenta noites. No deserto ninguém se esconde. Ali revela-se a verdade do coração.
A tentação nunca é de amor; é sempre de destruição. O diabo propõe atalhos: transformar pedras em pão, lançar-se do templo para forçar a intervenção de Deus, adorar para obter poder. É a lógica de “forçar a realidade”, não respeitar o tempo do amor. É a tirania, que destrói a relação.
Só há amor quando há liberdade. Jesus escolhe livremente confiar no Pai. Nunca faz a sua vontade, mas a vontade do Pai. O tentador põe à prova essa relação: “Se és Filho de Deus…”. A mesma provocação reaparece na cruz. Mas o amor verdadeiro não exige provas espetaculares; vive da confiança.
A terceira tentação — adorar para alcançar poder — revela a lógica perversa de usar o mal para justificar fins particulares. O mal como instrumento. Jesus recusa. Escolhe o caminho da cruz, da entrega até ao fim. Não foge, não manipula, não se impõe. Com o bem, desmascara o mal.
A Quaresma espelha esta realidade humana. É tempo de escolhas. A palavra-chave é conversão — mudança de direção, retorno à relação. Não é tempo de desespero, mas de esperança: mesmo pobres e frágeis, com Cristo somos vencedores. A Páscoa já está anunciada.
Para ordenar os impulsos e reencontrar a liberdade, a Igreja propõe três caminhos:
* **Jejum** – disciplina que nos recorda que não vivemos só de pão.
* **Esmola** – gesto discreto de amor concreto, escolha livre que rompe o egoísmo.
* **Oração** – colocar-se na presença do Senhor; silêncio que sustenta a vida.
O Pe. Gianfranco recorda a “lei dos três PPP”: **pouco, possível e pequeno**. Não são gestos grandiosos que transformam o coração, mas pequenas fidelidades diárias, possíveis e humildes.
A Quaresma é o tempo de regressar ao verdadeiro Jardim — a relação com Deus. Mesmo no pecado, Deus ama-nos profundamente. Criados para a vida, caminhamos para a vitória da Páscoa. Com Cristo, novo Adão, a morte não tem a última palavra.
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