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domingo, 8 de fevereiro de 2026

A Música no Ocidente

Espiritualidade, liturgia e antropologia cultural


A história da música no Ocidente não pode ser compreendida apenas como uma sucessão de transformações técnicas ou estéticas; ela reflete, de forma profunda, as mudanças na experiência espiritual e na autocompreensão antropológica das sociedades que a produziram (Grout & Palisca, 2007; Taruskin, 2005). A música constitui, assim, um espaço privilegiado onde se manifesta a relação do ser humano com o tempo, o corpo, o sagrado e a comunidade.


Origens


Nas suas origens, tanto na Grécia antiga como nas primeiras expressões musicais cristãs, a música encontra-se integrada numa visão unitária do ser humano e do cosmos. Não existe uma separação rígida entre som, palavra, gesto e sentido; a música participa ativamente na formação ética e espiritual da pessoa (Dahlhaus, 1991). Esta integração é particularmente visível no canto gregoriano, onde a música não visa a expressão subjetiva nem a emoção individual, mas a criação de um espaço interior de escuta e de abertura ao mistério. Neste contexto, a música litúrgica não se configura como espetáculo, mas como mediação simbólica e espiritual, ao serviço da Palavra e da ação ritual (Concílio Vaticano II, 1963).


Do ponto de vista antropológico, esta música corresponde a uma conceção do ser humano como essencialmente relacional e receptivo. O tempo musical é contínuo e não fragmentado, refletindo uma experiência do tempo sagrado como duração habitada e partilhada, e não como sucessão funcional de momentos (Ratzinger, 2001). A música submete-se ao rito, integrando-se numa lógica simbólica mais ampla, na qual o indivíduo se reconhece como parte de uma comunidade orante (Martimort, 1989).


A escrita


Com o surgimento da notação musical e o desenvolvimento da escrita sonora, sobretudo a partir de Guido d’Arezzo (c. 991–1033)i, ocorre uma transformação decisiva na relação entre música, cultura e espiritualidade. A música torna-se objeto fixável, transmissível e analisável, o que favorece a sua progressiva autonomização. O músico deixa de ser apenas guardião de uma tradição oral e passa a afirmar-se como autor ecriador de obras (Grout & Palisca, 2007). Esta mudança acompanha uma transformação antropológica mais ampla, marcada pela crescente centralidade do sujeito e da racionalidade sistemática.


O desenvolvimento do contraponto e, posteriormente, da harmonia tonal, reflete uma conceção da música como ordem racional e estruturada. A multiplicidade de vozes organizadas segundo regras rigorosas traduz a confiança na possibilidade de harmonizar diversidade e unidade, liberdade e lei (Dahlhaus, 1991). Na música sacra de Johann Sebastian Bach (1685–1750), esta visão atinge uma expressão singular, na qual a complexidade formal se torna veículo de uma profunda experiência teológica, revelando uma compreensão da criação como expressão da ordem divina (Ratzinger, 2001).


Autonomização


À medida que a música se autonomiza enquanto arte, a liturgia perde progressivamente o seu papel central como matriz do desenvolvimento musical. A espiritualidade passa a manifestar-se cada vez mais fora do espaço ritual, enquanto a música assume funções estéticas, expressivas e identitárias (Small, 1998). Este deslocamento reflete uma mudança antropológica decisiva: o ser humano moderno compreende-se menos como participante de uma ordem simbólica comum e mais como indivíduo que exprime a sua interioridade e subjetividade (Blacking, 1973).


A crise da tonalidade


Nas estéticas musicais contemporâneas, esta fragmentação torna-se evidente. A crise da tonalidade e das formas tradicionais espelha a crise de narrativas globais de sentido, próprias da modernidade tardia (Taruskin, 2005). A música deixa de oferecer necessariamente um horizonte estável de transcendência, tornando-se, muitas vezes, espaço de questionamento, de silêncio ou de tensão existencial. Ainda assim, permanece como um lugar privilegiado onde o ser humano procura dar forma ao indizível e expressar a sua experiência dos limites (Merriam, 1964).


Outras tradições


A comparação com tradições musicais não ocidentais permite iluminar criticamente este percurso. Em muitas culturas, a música continua profundamente ligada ao ritual, ao corpo e à vida comunitária, mantendo uma função integradora e espiritual (Merriam, 1964; Blacking, 1973). Estas tradições recordam ao Ocidente que a música não é apenas objeto estético ou sistema formal, mas acontecimento vivido, prática social e mediação simbólica.


Conclusão


Em síntese, a música, enquanto fenómeno cultural e espiritual, revela o modo como o ser humano se compreende diante do mistério da existência. No contexto da liturgia cristã, ela permanece chamada a ser não mera ornamentação, mas espaço de escuta, de comunhão e de abertura ao transcendente, conforme reafirma a renovação litúrgica do Concílio Vaticano II (Concílio Vaticano II, 1963; Sagrada Congregação dos Ritos, 1967). Reaproximar música, antropologia e espiritualidade constitui, assim, uma tarefa essencial para uma cultura que corre o risco de perder o sentido do silêncio, da escuta e da participação simbólica.


Referências bibliográficas


1. Documentos da Igreja

  • Concílio Vaticano II. (1963). Constituição sobre a sagrada liturgia Sacrosanctum Concilium. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana.
  • Concílio Vaticano II. (1965). Constituição pastoral sobre a Igreja no mundoc ontemporâneo Gaudium et Spes. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana.
  • Sagrada Congregação dos Ritos. (1967). Instrução Musicam Sacram. Vaticano: Libreria, Editrice Vaticana.


2. Música e liturgia

  • Gelineau, J. (1986). Canto e música na liturgia. São Paulo: Paulus.
  • Martimort, A. G. (1989). A Igreja em oração (Vol. 1). Lisboa: Paulinas.
  • Ratzinger, J. (2001). O espírito da liturgia. Lisboa: Principia.


3. Antropologia cultural e música

  • Blacking, J. (1973). How musical is man?, Seattle, WA: University of Washington Press.
  • Copland, Aaron, (1939), What to Listen for in Music,. The McGraw-Hill Book Company.
  • Merriam, A. P. (1964). The anthropology of music. Evanston, IL: Northwestern University Press.
  • Small, C. (1998). Musicking: The meanings of performing and listening. Middletown, CT: Wesleyan University Press.


4. História e filosofia da música

  • Dahlhaus, C. (1991). Estética musical. Lisboa: Edições 70.
  • Grout, D. J., & Palisca, C. V. (2007). História da música ocidental. Lisboa: Gradiva.
  • Taruskin, R. (2005). The Oxford history of Western music. Oxford: Oxford University Press.

Francisco Vaz

8 de Fevereiro de 2026



i Guido d’Arezzo (c. 991–1033) desempenhou um papel fundamental na história da música ocidental ao desenvolver um sistema pedagógico e notacional que permitiu a transmissão precisa do canto litúrgico. A introdução do tetragrama, da solmização e da organização intervalar das alturas musicais contribuiu decisivamente para a uniformização do canto gregoriano no contexto monástico e eclesial, facilitando a memorização, a aprendizagem e a preservação do repertório litúrgico. Este avanço técnico teve profundas implicações espirituais e pastorais, ao favorecer uma participação mais consciente e estável na oração cantada da Igreja.

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